Creche que sofreu falsa denúncia de dopar criança fecha unidade em Porto Velho; denunciante nunca foi responsabilizada

Apesar de passados quase dois anos da rede de boatos, muitas pessoas ainda têm curiosidade sobre o assunto, especialmente, saber o que foi feito para reparar os danos causados pela mãe do aluno

Reportagem de Felipe Corona, publicada no Newsrondonia revela o lado sórdido de um boato irresponsável, que causou (e causa) prejuízos a uma empresa que atua há mais de 20 anos no setor de educação infantil em Porto Velho. O jornalista relembra que em meados de 2015, uma mãe divulgou áudios de WhatsApp onde relatava que seu filho era dopado por funcionárias de uma das unidades da creche Carinho de Mãe, em Porto Velho. O caso teve grande repercussão na cidade, causando comoção em várias famílias da Capital.

Mas, aos poucos, as denúncias se revelaram infundadas, porém o estrago estava feito: no final de 2015, a creche Carinho de Mãe teve que encerrar as atividades em uma das filiais e demitir várias funcionárias.

“Após os áudios mentirosos da mãe tivemos uma evasão enorme de alunos, onde perdemos metade do nosso quadro na mesma semana do acontecido. Continuamos com a escola aberta até o final de 2015, pois tínhamos que finalizar o ano letivo já que ainda nos restaram alguns poucos alunos matriculados. Em janeiro de 2016, já não tínhamos mais aluno algum, foi quando fechamos definitivamente. Ao total, seis funcionárias foram demitidas durante o período do acontecido até janeiro de 2016. Não temos outras fontes de renda a não ser as escolas, continuamos com as outras duas unidades abertas, mas o escândalo refletiu no número de alunos que matriculamos. Desde então não conseguimos mais atingir a nossa média de alunos dos anos anteriores, onde operamos com uma capacidade de quase 50% menor do que em 2015, 2014 e 2013”, disse Maríllia Gomes, uma das proprietárias.

Apesar de passados quase dois anos da rede de boatos, muitas pessoas ainda têm curiosidade sobre o assunto, especialmente, saber o que foi feito para reparar os danos causados pela mãe do pequeno aluno. “Não houve investigação policial, nem por parte da Delegacia de Proteção a Criança e Adolescente ou pelas Polícias Militar e Civil. Os resultados negativos dos laudos para verificar se a criança era dopada fizeram com que as denúncias fossem arquivadas sem a necessidade de investigação. Nós entramos com uma ação no fórum cível contra a mãe, após o acontecido. Tivemos a primeira audiência no início deste mês, que se tratou apenas de oitiva de testemunhas. Inclusive, a mãe não levou nenhuma testemunha. As pessoas ainda comentam o acontecido com ar de espanto, os comentários são do tipo: ‘O que aconteceu com aquela mãe que inventou aquelas coisas sobre a escola de vocês?’. Em geral não gostamos de discutir o assunto. O medo foi constante, já que durante a divulgação dos áudios nós fomos ameaçadas de diversas formas. Chegaram até a dizer que ateariam fogo na escola durante a madrugada. As funcionárias da escola não podiam utilizar o uniforme na rua e no transporte público porque eram xingadas e ameaçadas”, desabafou Maríllia.

Sem desculpas

As imagens dos corredores cheios de crianças brincando e rindo já fazem parte de um passado não tão distante. Mesmo com as portas fechadas e a casa já modificada para ser colocada em locação, as proprietárias da creche Carinho de Mãe ainda resistem na luta para restabelecer a verdade.

O assunto ainda causa muita dor, ainda mais que a mãe da criança que causou tantos problemas ainda sequer pediu desculpas ou revelou os motivos para divulgação dos áudios infundados. “Não temos contato com a mãe. Ela nunca se desculpou, mesmo depois das alegações terem sido comprovadas como falsas. A primeira audiência demorou quase dois anos para acontecer e foi apenas oitiva de testemunhas. Pensamos que seja óbvio para qualquer juiz o dano que a mãe causou a nossa escola e impossível a possibilidade de nossos pedidos serem indeferidos pelo magistrado”, apontou Marília.

Para uma das proprietárias da creche, aconteceram muitos pré julgamentos que destruíram com a reputação de uma das empresas mais respeitadas do ramo da educação infantil em Porto Velho. “Nos sentimos violadas. De uma hora para outra uma pessoa estragou nosso trabalho de quase 20 anos. Infelizmente a sociedade atual é tão corrompida que os papéis mudaram, não se é inocente até que se prove ao contrário, e sim culpado até que se prove ao contrário. Não houve cautela: as mentiras feitas pela mãe foram compartilhadas por milhares de pessoas, que não sabiam ao certo do que se tratava, e no final das contas não queriam saber. Depois dos laudos negativos essas mesmas pessoas passaram a agir como se nada tivesse acontecido, mas o estrago já estava feito. É uma sensação de violação moral, e de impotência frente a Justiça. Só agora tivemos a primeira audiência, sabe-se lá quando vamos receber a sentença, e mesmo que ela saiba, sabemos que a mãe não terá como nos pagar pelos danos que causou”, apontou Gomes.

Por fim, depois de tanta luta, Marília ainda encontra forças para deixar uma mensagem para quem utiliza a internet e dissemina boatos sem fundamentos. “A mensagem que temos a dizer não se dirige necessariamente aos pais, mas a qualquer pessoa da sociedade civil. A popularização da internet e suas redes sociais faz com que o acesso a informação seja imediato, porém essas informações não são necessariamente verdadeiras. Deve-se refletir ao ler-se alegações, pesquisar novas fontes, esperar o desfecho. Quantas vezes não vimos notícias de pessoas que tiraram a própria vida devido a boatos compartilhados online? Até quando a própria sociedade vai matar pessoas em nome da ‘liberdade de informação’? Somos cautelosos e criteriosos em várias esferas do cotidiano, como ao escolher escolas, restaurantes, salão de beleza, entre outros. Por quê essa cautela é aplicada a seletos e não ao todo?”, encerrou ela.

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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