“É uma tortura eterna”, diz fotógrafo que perdeu olho em SP

“Eu não estava com uma arma na mão, eu estava com uma câmera. O policial apontou a arma dele para onde eu estava e tirou minha visão. Isso é uma tortura eterna que vou carregar pelo resto da vida”.

O desabafo é do fotógrafo Sérgio Andrade da Silva, de 33 anos, cego do olho esquerdo graças a um tiro de bala de borracha supostamente disparado por um policial militar. Freelancer, pai de uma menina de oito anos, Silva cobria a quarta manifestação pela redução das tarifas de transporte coletivo, no centro de São Paulo, quando foi baleado no rosto. Até hoje, um ano e cinco meses depois, a corporação não respondeu se algum policial, e qual, foi responsável pelo disparo, nem se foi submetido a algum tipo de munição.  Outros manifestantes depois de Silva ainda seriam atingidos pelo armamento meses depois – no protesto de 7 de setembro do mesmo ano, por exemplo, a bala de borracha cegaria o estudante Vítor Lourenço, de 17 anos – assim como já o fizera com o também fotógrafo Alex Silveira, em 2000, quando ele cobria uma manifestação de professores da rede pública na avenida Paulista.

Casos como esses foram novamente levados a debate, nesta terça-feira, em uma audiência pública em São Paulo sobre a ação da PM em manifestações e o direito a elas garantido pela Constituição. Convidados para o evento – organizado e sediado pelo Ministério Público Federal (MPF) –, nem o comandante-geral da PM, coronel Benedito Meira, nem o secretário estadual de Segurança Pública, Fernando Grella, compareceram. O chefe do Ministério Público estadual, o procurador de Justiça Márcio Elias Rosa, foi outra ausência. Grella mandou como representante o assessor técnico de seu gabinete, o promotor licenciado Eduardo Dias de Souza Ferreira.

Silva entregaria ao comandante da PM um abaixo-assinado com mais de 45 mil assinaturas pelo fim do uso da bala de borracha; sem o coronel na audiência, aproveitou uma entrevista que era dada pelo assessor da SSP para fazê-lo. Segundo o fotógrafo, o compilado fora entregue em mãos ao próprio secretário, em fevereiro deste ano, sem resposta.

“Ele (Grella) havia me prometido que entregaria o abaixo-assinado para uma comissão que analisa a ação da PM nessas manifestações e me mandaria cópia do ofício desse encaminhamento, mas isso nunca aconteceu”, disse Silva.

O fotógrafo lamentou o fato de nenhum policial ter sido punido até hoje e leu, ao assessor, o manifesto que leria ao comandante da PM. “Vocês sabem muito bem quem provocou este fato. Mas por uma clara questão política, fecham seus olhos e dizem ser um caso pontual. Também dizem que não tive como provar que foi um policial militar o agente provocador dessa eterna tortura estampada em meu rosto. Mas, afinal, quem atira bala de borracha?”, indagou. “Observem a prótese ocular que uso, neste momento, e tenho certeza que entenderão a violação das normas de manuseio desse armamento”, declarou.

Protesto de junho foi o mais violento
O protesto do dia 13 de junho ficou marcado pela forte repressão policial e pelas dezenas de detidos e feridos. Na ocasião, mesmo trabalhadores que voltavam do serviço, nas imediações da avenida Paulista, e manifestantes desarmados e não envolvidos em atos de depredação foram alvos de bombas de gás e de efeito moral, além dos tiros de balas de borracha, lançados pela PM. A ação causou uma reação imediata: as manifestações seguintes mais que duplicaram a quantidade de pessoas nas ruas, e não só contra os preços da tarifa de transporte – que seriam revertidos do aumento de R$ 3,20 para os antigos R$ 3 –, mas também contra a violência policial.

O assessor de Grella levou o documento com as assinaturas, mas não disse quais seriam os encaminhamentos da pasta a respeito. Sobre o número de policiais efetivamente punidos por abuso em manifestações, não soube precisar, mas garantiu que o Estado não é contrário aos atos e nem deve ser informado sobre a realização delas – argumento comumente usado pela PM até para coibir protestos durante a Copa do Mundo, em junho.

“Não sei precisar quantos PMs foram punidos, mas de forma alguma o Estado é contra as manifestações; isso seria se posicionar contrariamente a acordos internacionais. O Estado de direito comporta as manifestações, menos as que pregam separatismo, ódio, racismo. O direito de reunião é sagrado – poderíamos é ter explicitado o direito de manifestação, como em outros países, já que o que temos é o de reunião e em uma legislação de 1950 que precisa de uma atualização. Assim como precisa regulamentar a ação das polícias, que não têm, hoje, uma lei orgânica”, comentou. De acordo com Ferreira, foram 80 manifestações na cidade em 2012, diante de 258 ano passado e 40 este ano.

 

Fonte: TERRA

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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