Eleições e medo de bolha de IA derrubam Wall Street em trilhões
Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones tiveram a pior sessão em 19 meses após vitória democrata no Congresso, com o tombo se espalhando por Ásia e Europa
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- Na quinta-feira (5/11), Wall Street teve sua pior sessão desde abril de 2025: Dow -3,4%, S&P 500 -4,4%, Nasdaq Composite -5,5%, Nasdaq 100 -6,36%.
- O Nasdaq 100 entrou oficialmente em correção, fechando quase 12% abaixo do recorde de 6 de outubro.
- As “Sete Magníficas” perderam juntas cerca de US$ 800 bilhões (R$ 4,4 trilhões) — mais que o PIB da Suécia.
- Semicondutoras foram as mais atingidas: Nvidia -9% (US$ 400 bi), AMD e Micron perto de -17%, Broadcom e Intel acima de -10%.
- O tombo se espalhou para Ásia e Europa nesta sexta (6/11): Kospi acionou circuit breaker ao cair 8,8% intradia; bolsas europeias abriram em queda generalizada.
- Hoje, os índices americanos recuperam parte do terreno, ajudados por um payroll de outubro acima do esperado.
- Por que isso importa: a concentração do mercado em poucas gigantes de tecnologia amplifica qualquer abalo no setor de IA, com efeito cascata global.
Wall Street teve, na quinta-feira (5 de novembro), sua pior sessão em cerca de 19 meses, derrubada por uma onda de vendas nas ações ligadas à inteligência artificial. O Dow Jones caiu 1.833,06 pontos (3,4%), para 51.523,06; o S&P 500 recuou 334,89 pontos (4,4%), para 7.353,73; e o Nasdaq Composite despencou 1.421,52 pontos (5,5%), para 24.315,00. O Nasdaq 100, com forte peso de tecnologia, fechou em queda de 6,36%, terminando o pregão quase 12% abaixo do recorde histórico atingido em 6 de outubro — o que confirma, pelo critério padrão de mercado (queda de ao menos 10% em relação ao pico recente), a entrada do índice em território de correção.
Quanto, exatamente, se perdeu — as fontes não batem
Diferentes agências e veículos chegaram a números distintos para o valor evaporado em valor de mercado na sessão de quinta. A Euronews, a Bloomberg Law/Markets Wrap e a VT Markets citam perda de cerca de US$ 2,9 trilhões nas empresas do S&P 500; a Kucoin (citando a Odaily) fala em US$ 2,8 trilhões como a segunda maior queda diária da história, atrás apenas do recorde da pandemia, em 2020 (US$ 2,69 trilhões); já a Yahoo Finance e o Diário do Centro do Mundo falam em algo próximo de US$ 3 trilhões. Um recorte mais específico, do G1, mostra que as 100 maiores empresas de tecnologia listadas perderam, juntas, cerca de US$ 2,3 trilhões — e que só as chamadas “Sete Magníficas” (o grupo que reúne Nvidia, Meta, Alphabet, Microsoft, Apple, Amazon e Tesla) perderam aproximadamente US$ 800 bilhões (R$ 4,4 trilhões) em valor de mercado, montante superior ao Produto Interno Bruto (PIB) da Suécia.
O gatilho: eleições e o medo de uma bolha de IA
O estopim apontado pela maioria das coberturas foi a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato (midterms) nos EUA, que acendeu entre investidores o temor de uma regulação mais dura sobre data centers de inteligência artificial — segmento que vinha sustentando boa parte do rali das bolsas em 2025 e 2026. Esse movimento se somou a uma dúvida que já pesava sobre o mercado: centenas de bilhões de dólares têm sido investidos em chips, servidores e capacidade de data center, sem clareza sobre quando esses investimentos vão gerar retorno.
O presidente Donald Trump atribuiu publicamente a queda à vitória democrata, em post na rede Truth Social: “The Stock Market crashed today because the Dumocrats had a big Tuesday — So sad to see, you only have yourselves to blame!” (“O mercado de ações quebrou hoje porque os democratas tiveram uma grande terça-feira — tão triste de ver, vocês só têm a vocês mesmos para culpar”, em tradução livre).
Semicondutoras lideram as perdas
As fabricantes de chips, diretamente expostas à expansão — e agora à incerteza — dos data centers de IA, estiveram entre as mais castigadas do pregão de quinta. A Nvidia, segunda maior empresa do mundo em valor de mercado, caiu cerca de 9% e perdeu aproximadamente US$ 400 bilhões (R$ 2,2 trilhões) em valor de mercado em um único dia. AMD e Micron recuaram perto de 17% cada uma — a Micron, especificamente, fechou em -17,46%, segundo o portal português Dinheiro Vivo —, enquanto Broadcom e Intel também tombaram mais de 10%. O índice Philadelphia Semiconductor (SOX) despencou mais de 12%, para o menor nível em mais de seis meses.
Musk entre os mais afetados
Entre os nomes mais atingidos fora do setor de chips, Elon Musk apareceu como um dos maiores perdedores: as ações da Tesla caíram quase 12% no dia, e as da SpaceX recuaram mais de 12% desde a eleição — o equivalente a US$ 113 bilhões em perdas apenas na SpaceX. Somando as duas empresas, Musk teria acumulado cerca de US$ 152 bilhões em perdas em valor de papel desde o resultado eleitoral, segundo levantamentos da imprensa americana.
Efeito cascata: Ásia em bear market, Europa em queda generalizada
O tombo de Wall Street se espalhou pelos mercados globais já nesta sexta-feira (6/11). Na Ásia, as principais bolsas fecharam em forte queda, com Japão e Coreia do Sul entre as mais afetadas. Na bolsa sul-coreana, o índice Kospi chegou a despencar 8,8% durante o pregão, o que acionou o circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações para conter movimentos extremos — e suspendeu os negócios por 20 minutos; após a retomada, o índice recuperou parte das perdas e fechou em queda de 6,02%, aos 5.059 pontos.
Veja como fecharam as principais bolsas asiáticas nesta sexta:
- Japão (Nikkei): -5,96%, aos 57.434 pontos
- Coreia do Sul (Kospi): -6,02%, aos 5.059 pontos
- Taiwan (Taiex): -4,51%, aos 39.701 pontos
- Singapura (Straits Times): -2,17%, aos 5.181 pontos
- Hong Kong (Hang Seng): -1,27%, aos 24.481 pontos
- China (Xangai): -1,10%, aos 3.649 pontos
- China (CSI 300): -1,44%, aos 4.054 pontos
- Austrália (S&P/ASX 200): -0,49%, aos 9.020 pontos
Na Europa, os principais índices também operavam em queda generalizada na manhã desta sexta. Por volta das 9h15 (horário de Lisboa), o índice pan-europeu STOXX 600 — que reúne as principais empresas de 17 países europeus e serve de referência para a região — caía 1,80%. Entre os índices nacionais, o DAX alemão recuava 2,35%, o CAC-40 francês perdia 1,79% e o FTSE 100 britânico cedia 2,29%.
Hoje, a recuperação: payroll ajuda a estancar a sangria nos EUA
Nesta sexta-feira, os principais índices americanos recuperam parte do terreno perdido, impulsionados por um dado de emprego mais forte do que o esperado: o payroll de outubro mostrou criação de 165 mil vagas, e a taxa de desemprego caiu para 4,1%, ante 4,2% em setembro. No pregão, o S&P 500 sobe cerca de 1%, o Nasdaq Composite avança perto de 1,9%, e o Dow Jones oscila próximo da estabilidade (+0,1%). Estrategistas citados pela Yahoo Finance classificaram a queda de quinta como possivelmente “exagerada” e uma “oportunidade de compra”, mantendo a projeção de 7.900 pontos para o S&P 500 até o fim do ano.
A reportagem da Yahoo Finance resume bem o cenário: o mercado, no curto prazo, reage como “uma máquina de votação”, mas no longo prazo funciona como “uma máquina de pesagem” — ou seja, oscilações de um ou dois dias, por mais dramáticas que pareçam em trilhões de dólares, nem sempre definem a tendência real da economia ou das empresas afetadas.
Fica, de qualquer forma, um alerta estrutural que vai além do susto de uma sessão: a dependência de Nasdaq e S&P 500 em relação a um punhado de gigantes de tecnologia e semicondutores significa que qualquer tropeço nesse grupo pode arrastar os dois índices — e, por consequência, bolsas do mundo inteiro — com força desproporcional. Isso não muda com a recuperação de um único pregão.
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