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Entre PIB em alta e fábricas fechando, a Argentina de Milei

Enquanto o PIB argentino recua no trimestre e o fechamento de empresas se acumula, o presidente rejeita alertas de recessão e atribui o quadro à transição econômica

Entre PIB em alta e fábricas fechando, a Argentina de Milei
📷 AFP via Getty Images
📋 Em resumo ▾
  • Em visita a Nova York, o presidente argentino Javier Milei disse não ver "nenhum problema" no crescimento do país, apesar do temor de recessão técnica
  • O PIB argentino caiu 0,6% no 2º trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, segundo o INDEC — o país precisa de mais um trimestre negativo para entrar em recessão técnica
  • No acumulado do semestre, o PIB ainda cresce 2,2%, e a inflação caiu de mais de 211% para 33,5%, mas a pobreza atinge um em cada três argentinos
  • Por que isso importa: o caso argentino é acompanhado de perto no Brasil como teste de um modelo de ajuste fiscal radical, às vésperas das eleições presidenciais argentinas de 2027
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Durante uma visita a Nova York na semana passada, o presidente argentino Javier Milei afirmou não ver "nenhum problema" com o crescimento econômico do país. A declaração veio em resposta a temores de que a Argentina estivesse caminhando para uma recessão técnica — fenômeno caracterizado por dois trimestres consecutivos de contração do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) em 17 de setembro, o PIB argentino já recuou 0,6% no segundo trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior — a primeira retração trimestral em dois anos. Ainda assim, na comparação com o mesmo período de 2025, o PIB cresceu 2% e acumula alta de 2,2% no primeiro semestre.

O que os números dizem

O primeiro semestre foi marcado por altos e baixos que aumentaram a sensação de fragilidade econômica, mesmo com o crescimento acumulado. Apesar da expansão e da drástica redução da inflação — de mais de 211% no início do governo Milei para 33,5% —, o custo social das políticas de choque deixou marcas: um em cada três argentinos vive na pobreza, o desemprego gira em torno de 8%, e a renda e o poder de compra da população seguem abaixo da inflação.

A precariedade do emprego levou muitos argentinos ao trabalho informal — sem contrato ou previdência social — e ao endividamento além da capacidade de pagamento. Segundo a reportagem da BBC News Mundo, a inadimplência afeta cerca de um terço dos que contraíram empréstimos. Os salários caem em relação ao custo de vida, os serviços básicos ficaram mais caros após cortes de subsídios, e a indústria manufatureira local foi afetada pela abertura às importações.

"Com o que eles vão viver, ar?"

Diante do debate sobre a distância entre os números macroeconômicos positivos e o cotidiano da maioria da população, Milei classificou como "estúpida" a afirmação de que 80% dos argentinos têm dificuldade para sobreviver. "Com o que eles vão viver, ar? O que eles vão comer, ar? O que eles vão beber, ar?", disse o presidente no início de setembro, na Convenção Anual do Instituto Argentino de Executivos de Finanças, em Puerto Iguazú. Sobre o aumento da inadimplência, Milei rejeitou as críticas: "A realidade é que, quando o crédito privado passa de praticamente inexistente para uma expansão no ritmo atual, é matemática básica que a inadimplência aumentará durante a transição; é uma consequência natural."

Duas economias, dois ritmos

No setor empresarial, houve vencedores e perdedores. Segundo os últimos relatórios do Banco Central da Argentina (BCRA), o crescimento foi impulsionado por mineração, energia, agricultura e serviços bancários, enquanto comércio e indústria enfrentaram dificuldades neste ano — o que abriu espaço para o debate sobre uma "economia de duas velocidades" no país.

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As pequenas e médias empresas (PMEs) foram as mais afetadas. Segundo o Centro de Economia Política Argentina (Cepa), com dados até junho, 31.342 empresas fecharam desde que Milei assumiu o cargo, em dezembro de 2023 — cerca de 6% do total. A entidade calcula esse número mensalmente a partir de dados previdenciários da Superintendência de Riscos Ocupacionais (SRT), já que não existe estatística oficial específica sobre abertura e fechamento de empresas no país.

"Este é um governo mais preocupado com a estabilidade macroeconômica, e na Argentina isso deve ser interpretado como ter dólares suficientes, e todo o resto lhes interessa pouco"
— Hernán Letcher, diretor da Cepa, à BBC News Mundo

"Tive que fechar"

O pequeno empresário Alejandro Marchizotti viveu essa realidade na pele. Apesar das tentativas de salvar seu negócio de hambúrgueres, o Hupa San Andrés, a situação ficou insustentável. "Os negócios estavam indo bem até que o consumo caiu drasticamente e eu tive que fechar", disse ele à BBC News Mundo. No início de 2024, as vendas ficaram lentas, pagar salários virou uma luta, e a empresa recorreu a empréstimos sucessivos sem conseguir se manter. "Passei de cinco funcionários para apenas um", contou Marchizotti, que fechou o negócio no fim de maio e hoje dirige para um aplicativo de transporte. "Estou ansioso porque tenho 63 anos e é difícil encontrar um emprego estável", afirmou.

Para Letcher, o fechamento de empresas resulta da combinação entre queda no consumo, salários reais menores, aumento das tarifas de serviços públicos e o volume de importações. "A fatia do bolo encolheu. E essa fatia, que agora é menor, está sendo dividida com novos concorrentes que importam", argumentou à BBC News Mundo.

O emprego que muda de forma

O Ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger, afirmou que mais de meio milhão de empregos foram criados durante o governo, com base em dados do instituto de estatísticas. Economistas, porém, apontam que o emprego formal diminuiu enquanto o trabalho informal e autônomo cresceu. Questionado sobre o tema em Nova York, o próprio Milei reconheceu a mudança: "O que está acontecendo é que esses empregos estão sendo criados no setor informal. Portanto, há uma contração no setor formal e uma expansão no setor informal. O resultado líquido é a expansão." Sobre as empresas que fecham, Milei minimizou o impacto no emprego, argumentando que muitas são compostas por apenas uma pessoa, e resumiu sua posição: "Aqueles que estão em pior situação, se não se adaptarem, irão à falência."

Visões divergentes entre economistas

Guido Zack, diretor da área econômica do Centro de Pesquisas Fundar e professor da Universidade Nacional de San Martín, concorda com a liberalização comercial, mas questiona sua execução: "A economia precisa ser aberta, mas precisa ser aberta em condições de igualdade", disse à BBC News Mundo, apontando que empresas estrangeiras pagam menos impostos que as argentinas. Para Zack, a valorização cambial e o aumento dos custos de logística e financiamento também aceleraram o fechamento de empresas: "Apenas o setor da economia ligado às matérias-primas está crescendo, e estamos enfrentando o maior número de fechamentos de empresas em mais de 20 anos."

Já o economista Miguel Boggiano, fundador da CDI Capital, discorda: "É impreciso dizer que nem todos os setores da economia estão crescendo", afirmou, citando dados do Relatório de Política Monetária do Banco Central. Sobre o fechamento de mais de 30 mil empresas, Boggiano considera o número "enganoso": "As empresas que fecharam são muitas pequenas empresas com apenas um ou dois funcionários." Para ele, o país passa por uma transformação estrutural que privilegia setores exportadores, e as empresas afetadas eram, em geral, sustentadas por políticas de emissão monetária no passado. "É por isso que é crucial que a inflação permaneça baixa", concluiu.

A União Industrial Argentina (UIA), por sua vez, afirmou que o setor atravessa situação "crítica", com alta carga tributária e dificuldade de financiamento, e que a transição para o novo modelo econômico "não é homogênea nem imediata".

Aposta nos dólares das commodities

Mineração, energia e agricultura são hoje os motores do crescimento argentino e trazem uma quantidade recorde de dólares ao país — peça central para o governo cumprir suas metas monetárias e fiscais. Milei defende a transição para setores geradores de moeda estrangeira, com incentivos a projetos de gás, petróleo, lítio e minerais críticos que somam compromissos de investimento na casa dos bilhões de dólares.

O que vem pela frente

O debate sobre fechamento de empresas, perda de empregos formais, dívidas e custo de vida deve se intensificar em outubro, quando entra em vigor o aumento do imposto sobre combustíveis — e tende a ganhar ainda mais peso no ano que vem, quando os argentinos vão às urnas nas eleições presidenciais. Por ora, o dado do INDEC deixa a Argentina a um trimestre de distância da recessão técnica que Milei diz não temer.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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