Ex-presidente do Paraguai é transferido ao quartel antes de depor
Colapso de um banco, renúncia rejeitada, impeachment relâmpago, prisão e transferência de madrugada para um quartel: relembre cada etapa da queda de Santiago Peña e o que ainda falta esclarecer, incluindo um boato de fuga para a Argentina
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- Um banco digital, o Ueno, quebrou e arrastou o governo paraguaio em menos de uma semana.
- O presidente ofereceu renúncia, ela não foi aceita, e o Congresso abriu impeachment por unanimidade.
- O Senado o destituiu por mau desempenho de funções; o vice assumiu até 2028.
- Ele foi preso em casa, depois levado de madrugada a um quartel militar por segurança, e deve depor hoje.
- Circula um boato de fuga para a Argentina — sem confirmação até agora.
- Por que isso importa: é a segunda queda de um presidente paraguaio em 14 anos e testa a hegemonia de sete décadas do Partido Colorado
Em menos de uma semana, o Paraguai viu um banco digital quebrar, um presidente oferecer e ter negada a própria renúncia, um impeachment aprovado por unanimidade, uma destituição no Senado, uma prisão domiciliar, uma transferência noturna para um quartel militar e, agora, um boato — ainda não confirmado — de fuga para a Argentina. Para quem perdeu os capítulos, aqui está a reconstituição completa, com o que é fato apurado, o que é alegação e o que continua sem fonte.
O estopim: o colapso do Ueno Bank
Tudo começou com a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, uma instituição digital de rápida expansão, depois que seu índice de solvência caiu abaixo do limite legal. Segundo a deputada Rocío Vallejo, a perda foi estimada em US$ 1,2 bilhão — número que ainda carece de confirmação em fonte oficial do próprio BCP e deve ser tratado como preliminar. A crise bloqueou o acesso de quase metade da população paraguaia a seus recursos financeiros. O Banco Central começou a devolver valores a poupadores com depósitos de até 10 milhões de guaranis (cerca de US$ 1.600 dólares), por fases.
O ponto de conflito de interesse: até março de 2025, Santiago Peña, então presidente da República, mantinha participação acionária no Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank — vínculo que se tornaria o centro da acusação de mau desempenho de funções.
A renúncia que não foi aceita
Diante da crise, Peña enviou pedido de devolução dos depósitos em cinco dias, mas no dia seguinte seu próprio Partido Colorado se voltou contra ele, com o líder Horacio Cartes anunciando apoio ao impeachment. Peña chegou a oferecer renúncia, alegando — segundo a reconstituição da imprensa internacional — preocupação com “a estabilidade do país, a paz social e a necessidade de preservar as instituições públicas”. O Congresso, no entanto, não aceitou formalmente a renúncia, deixando o país em um breve limbo institucional.
Minutos depois, os 78 deputados presentes aprovaram por unanimidade a moção de impeachment contra o presidente. Na ocasião, Peña chegou a pedir uma prorrogação de 72 horas para montar sua defesa, alegando ter recebido menos de 12 horas para responder a uma peça acusatória com cerca de 300 páginas de anexos. Segundo a Al Jazeera, ele classificou o prazo como insuficiente: “That is not due process” (“Isso não é devido processo legal”).
O julgamento no Senado: destituição, não condenação criminal
O Senado aprovou a destituição de Peña, com 44 dos 45 membros apoiando sua remoção do cargo por suas ligações com o colapso do Ueno Bank, segundo a agência ANI, citando a CNN. Já o portal abcnoticias.mx registrou a votação como aprovada por unanimidade dos senadores presentes, que teriam declarado Peña culpado de mau desempenho no exercício das funções. Como as fontes secundárias divergem no número exato, registro aqui a aprovação por ampla maioria, com a margem precisa ainda a confirmar em fonte oficial do próprio Senado.
É importante fixar o vocabulário correto: a destituição é uma decisão política e constitucional, distinta de qualquer veredito penal. A Procuradoria-Geral do Paraguai abriu três investigações criminais envolvendo Peña e outros ex-funcionários relacionadas ao colapso do banco. Até a publicação deste texto, Peña é investigado, não réu nem condenado na esfera criminal — apenas destituído na esfera política.
Pedro Alliana assume até 2028
Com a vaga aberta, o vice-presidente Pedro Alliana jurou como novo presidente do Paraguai, completando o atual período de governo, previsto até agosto de 2028. Alliana, de 52 anos, natural de Pilar, no departamento de Ñeembucú, já presidiu o Partido Colorado e a Câmara de Deputados antes de se tornar vice ao lado de Peña, em 2023. Ao assumir, prometeu que os afetados pelo colapso financeiro “serán compensados plenamente” (“serão plenamente compensados”), segundo registrou o Infobae.
Prisão domiciliar, protestos e a madrugada no quartel
A Procuradoria determinou a prisão de Peña, que foi mantido sob prisão domiciliar em sua casa, no bairro de La Piedad/Mburucuyá, em Assunção. Segundo relatos da imprensa paraguaia e argentina (La Nación-PY, Infobae e ABC Color, conforme reproduzido pelo jornal O Globo), houve confrontos entre manifestantes e a polícia nas proximidades da residência, com um comissário — identificado como Pedro Barbera, chefe da 10ª Delegacia — ferido no supercílio. A inteligência paraguaia apontou a possível infiltração de agitadores no protesto, com o objetivo de tornar as manifestações violentas — informação atribuída à própria inteligência do Estado, sem confirmação independente até o momento.
Diante da escalada, Peña foi retirado de madrugada deste sábado (7) e levado ao Regimento de Escolta Presidencial, unidade militar encarregada da segurança de autoridades do Estado, em uma operação que envolveu três caminhonetes, segundo o portal argentino Infobae. O advogado da família, Ricardo Preda, disse que o ex-presidente vai colaborar com a investigação, mas afirmou não conhecer ainda os fatos específicos que lhe são imputados. Ele deve se apresentar ao Ministério Público às 11h (horário local) deste sábado para depoimento.
“Serán compensados plenamente”
Foi a promessa do novo presidente Pedro Alliana aos atingidos pelo colapso do Ueno Bank, segundo o Infobae.
O boato da fuga para a Argentina
Em meio a crise, passaram a circulam, segundo relatos que chegaram à redação, boatos de que Peña teria avaliado deixar o país rumo à Argentina em meio à crise. Uma deputada chegou a pedir formalmente investigações a respeito dessa possibilidade, porque após a abertura do processo de impeachment, Peña teria ficado sem contato, até mesmo com aliados.
Vale um parênteses histórico, a título de contexto, não de prova: o Paraguai tem precedente de figuras políticas que buscaram refúgio no exterior em momentos de crise — o general Lino Oviedo, por exemplo, viveu anos como fugitivo entre Argentina e Brasil após a crise política dos anos 1990. É contexto, não indício de que o mesmo esteja ocorrendo agora.
Repercussão internacional: o que está confirmado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou Pedro Alliana pela posse e manifestou intenção de recebê-lo em Brasília. O governo do Chile também se manifestou, desejando “éxito a su gestión” (“sucesso à sua gestão”) ao novo presidente, em nota oficial da chancelaria chilena citada pelo jornal La Tercera. Não localizei, até o momento, registro de qualquer país que tenha formalmente “reconhecido” o novo governo paraguaio e convidado Alliana para uma cerimônia de posse — nem a sua própria, já concluída, nem a de outro chefe de Estado.
Contexto: a segunda queda em 14 anos
O Partido Colorado governa o Paraguai, com uma única interrupção, há mais de sete décadas. A última ruptura desse domínio foi o impeachment de Fernando Lugo, em 2012, concluído em menos de 24 horas e que gerou protestos regionais e acusações de golpe institucional por parte de governos vizinhos à época. A queda de Peña é, portanto, o segundo impeachment presidencial do país em 14 anos — mas, diferente do caso Lugo, nasce de um escândalo financeiro que atingiu diretamente o bolso de milhões de paraguaios e culminou com o próprio ex-presidente sob investigação criminal e custódia.
Resta saber se a transição para Alliana consegue estancar a crise de confiança no sistema financeiro paraguaio antes que ela se transforme também em crise de legitimidade para o partido que nunca perdeu o poder por mais de uma eleição seguida.
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