Painel Rondônia

Fátima Cleide disse que população tem medo da PM; dados mostram salto de 488% em mortes

Declaração da deputada estadual eleita gerou notas de repúdio em Rondônia. Dados do Ministério da Justiça e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o estado teve o maior aumento percentual de mortes por ação policial do país em 2025

Fátima Cleide disse que população tem medo da PM; dados mostram salto de 488% em mortes
📷 Reprodução
📋 Em resumo ▾
  • A deputada estadual eleita Fátima Cleide (PT) disse, em entrevista à Rádio Informa na Hora, que a população “tem muito medo” da Polícia Militar de Rondônia — fala que gerou notas de repúdio da Sesdec e de parlamentares.
  • Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, confirmados pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostram que Rondônia teve o maior aumento percentual de mortes por ação policial do Brasil em 2025: de 8 para 47 casos, alta de 488%.
  • Até 2024, Rondônia era apontada como um dos estados com a polícia menos letal do país — cenário que mudou de forma abrupta em 2025.
  • Por que isso importa: os números, por si só, não confirmam nem refutam a percepção de medo mencionada pela deputada — mas mostram que a letalidade da PM no estado mudou de patamar no último ano, dado que nenhuma das notas de repúdio mencionou
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

A declaração da deputada estadual eleita Fátima Cleide (PT) de que a população “tem muito medo” da Polícia Militar de Rondônia, dada em entrevista à Rádio Informa na Hora, gerou uma sequência de notas de repúdio de autoridades e parlamentares do estado — como mostrou o Painel Político. Nenhuma das notas, porém, trouxe dados sobre a letalidade da própria corporação. Eles existem, são públicos, e mostram uma mudança expressiva no último ano.

O que disse a deputada

Fátima Cleide afirmou ao apresentador do programa: “A população hoje tem muito medo da Polícia Militar”. Ela associou a fala à forma como a corporação aborda jovens pobres, de periferia e em situação de vulnerabilidade, defendendo mudanças na atuação policial para esse público — e relacionou o tema a um debate nacional sobre letalidade policial, de acordo com a mesma reportagem.

A declaração gerou reação da Sesdec (Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania), do deputado federal Edevaldo Neves, do deputado estadual eleito Fernando Silva e da deputada federal Cristiane Lopes, entre outros — todos classificando a fala como uma generalização que desconsidera o trabalho das forças de segurança.

O que os números mostram

É nesse ponto que entra o dado que nenhuma das notas de repúdio mencionou: segundo reportagem da Folhapress, com base em informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Rondônia teve, em 2025, o maior aumento percentual do país em mortes decorrentes de ações policiais — de 8 para 47 casos, uma alta de 488%. O mesmo salto aparece, com variação mínima (485,6%), no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), confirmando o dado por duas fontes independentes.

“O caso mais extremo é o de Rondônia, onde as mortes em ações policiais saltaram de 8 para 47 em um ano” — trecho da reportagem da Folhapress, com base em dados do Ministério da Justiça.

O estado é governado por Marcos Rocha (PSD). Procurada pela Folhapress, a gestão estadual não respondeu sobre o aumento, segundo a reportagem.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

De um dos estados mais seguros ao 7º maior índice do país

O contraste histórico é relevante para entender a dimensão da mudança. Em 2023, Rondônia aparecia entre os estados com taxa menor que 2 mortes por 100 mil habitantes causadas pela polícia, segundo o 17º Anuário do FBSP, e levantamento do Estadão apontou o estado com a segunda menor taxa do país naquele ano (0,6 por 100 mil habitantes). Em 2024, segundo dados do Sinesp, Rondônia chegou a ser o estado com a polícia menos letal do Brasil, com taxa de 0,34 por 100 mil habitantes.

Em 2025, de acordo com o 20º Anuário do FBSP, essa taxa saltou para 2,7 mortes por 100 mil habitantes — Rondônia passou a ocupar a 7ª posição entre os maiores índices do país, atrás apenas de Amapá (17,1), Bahia (10,6), Sergipe (8,4), Pará (7,3), Rio de Janeiro (6,6) e Acre (6,0).

Vale uma ressalva metodológica: outro levantamento, baseado diretamente no Sinesp, havia registrado 6 mortes por violência policial em Rondônia em 2024 — não 8, como consta na base do Ministério da Justiça usada pelo Anuário do FBSP. A diferença de dois casos entre as bases não muda a magnitude do salto em 2025, mas mostra que mesmo fontes oficiais variam ligeiramente na contagem.

O que os dados não respondem

É importante não extrapolar: o aumento na letalidade policial não confirma, por si só, a percepção específica de “medo” relatada por Fátima Cleide — são indicadores diferentes. Letalidade mede mortes causadas pela polícia; medo é uma percepção subjetiva da população, que normalmente seria aferida por pesquisa de opinião, não por estatística de segurança pública. Nenhuma pesquisa desse tipo, específica sobre Rondônia, foi localizada nesta apuração.

Também não há, nos levantamentos consultados, um detalhamento sobre quantas das 47 mortes de 2025 ocorreram em confronto direto, em cumprimento de mandado ou em outras circunstâncias — o que ajudaria a entender melhor a natureza do aumento. Um fator de contexto já registrado em outras reportagens é a onda de violência que atingiu Rondônia no início de 2025, ligada a ataques atribuídos ao Comando Vermelho, que levou ao envio de reforços da Força Nacional à capital — mas nenhuma fonte consultada estabelece relação causal direta e confirmada entre esse episódio e o salto na letalidade policial.

Até a publicação desta matéria, nem a Sesdec nem o governo de Rondônia haviam se manifestado publicamente sobre os motivos específicos do aumento, segundo as fontes consultadas — nem Fátima Cleide havia respondido às críticas recebidas após sua entrevista.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #FatimaCleide #segurancapublica #PoliciaFederal #Rondonia