Painel Econômico

Fila por emprego vira retrato da crise no governo Milei

Em Moreno, Mar del Plata e Berazategui, milhares disputaram poucas dezenas de vagas; mesmo período registra 31 mil empresas a menos no país, segundo a Fundar

Fila por emprego vira retrato da crise no governo Milei
📷 Reprodução
📋 Em resumo ▾
  • • Em Moreno, mais de 3 mil pessoas disputaram 60 vagas num frigorífico/açougue; a fila passou de 10 quadras
  • • Em Mar del Plata, 700 pessoas se candidataram a 9 vagas numa loja de produtos importados
  • • Em Berazategui, mais de 1.500 pessoas disputaram 14 vagas num restaurante que sequer tinha aberto
  • • A Argentina perdeu um saldo líquido de 31.342 empresas desde a posse de Milei, segundo a Fundar
  • • Por que isso importa: o desemprego já supera a inflação como principal preocupação econômica dos eleitores argentinos, segundo pesquisa, e é visto como a maior ameaça à tentativa de reeleição de Milei
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Três filas por emprego registradas na Argentina em 2026 — em Moreno, Mar del Plata e Berazategui — reuniram milhares de candidatos para menos de 100 vagas somadas. O quadro acompanha dados oficiais: a economia formal perdeu cerca de 246 mil postos assalariados privados desde novembro de 2023, segundo a consultoria Invecq, e a Argentina tem hoje um saldo líquido de 31.342 empresas a menos, segundo a Fundar. O governo de Javier Milei reconhece os fechamentos, mas contesta a leitura isolada dos números.

Dez quadras de fila por 60 vagas em Moreno

Na quarta-feira (6/5/2026), a filial da Cabaña Don Theo em Moreno, no conurbano bonaerense, abriu um processo seletivo para 60 vagas — entre caixas, repositores e motoristas, com carteira assinada e jornada de oito horas. Mais de 3 mil pessoas formaram uma fila de mais de dez quadras, algumas chegando às 2h da madrugada; mais de 600 já haviam sido entrevistadas até a reportagem. "Es un mar de gente", disse o dono da empresa, que não foi identificado pelo nome, à imprensa local. "La gente tiene y quiere trabajar", completou.


Em Mar del Plata, 700 candidatos para 9 vagas

Em março de 2026, um comércio de produtos importados na esquina de Independencia e Gascón, em Mar del Plata, recebeu mais de 700 candidaturas para apenas 9 vagas — atendimento ao público, caixa, logística, motoristas e redes sociais. A mesma reportagem registrou um caso ainda maior em Burzaco: cerca de 3 mil candidatos para 30 vagas num depósito logístico, com fila de até dez quadras.

Berazategui: "Isso parece 2001", diz dono de restaurante

Em 14 de setembro de 2026, o Los Agüero Resto Bar, que ainda nem havia inaugurado, abriu seleção para 14 vagas — parrilleiro, cozinheiro, ajudante de cozinha, louceiro, limpeza e garçom, com salário-base de 800 mil pesos mensais. Mais de 1.500 pessoas, de 18 a 55 anos, formaram fila desde a madrugada.

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"Esto se parece al 2001" (isso parece 2001), disse Marcelo Agüero, proprietário do restaurante, à Infobae, referindo-se à crise econômica que levou o país ao colapso social daquele ano.

Os números por trás das filas

Um levantamento da consultoria Invecq, citado pela Infobae, mostra que o emprego privado registrado caiu quase sem interrupção desde junho de 2025: cerca de 46 mil postos assalariados privados perdidos desde dezembro de 2025, e 246.300 frente a novembro de 2023. Indústria, construção e comércio — os setores "perdedores" — reduziram cerca de 93 mil postos desde junho de 2025; agro, mineração, petróleo e setor financeiro, os "ganadores", somaram 18,1 mil no mesmo período, ainda abaixo do nível de novembro de 2023.

Esse recuo do emprego formal acompanha a queda no número de empresas: segundo a Fundar, com base na Superintendencia de Riesgos del Trabajo, a Argentina tinha, em meados de 2026, 31.342 empresas a menos do que no início do governo Milei — queda de 6,1%. O CEPA (Centro de Economía Política Argentina) estima 411.613 empregos formais perdidos no mesmo tipo de recorte, cerca de 450 por dia, com comércio, transporte/armazenamento e serviços imobiliários entre os setores mais atingidos.

O que diz o governo

Em discurso ao Council of the Americas, em 20 de agosto de 2026, Milei reconheceu que "desaparecen empresas", mas chamou de "desonesto intelectualmente" olhar apenas para os fechamentos, sem considerar as empresas que abrem e contratam. Ele citou uma taxa de desemprego de 7,8% — número que também aparece, de forma independente, em reportagem da InvestNews sobre o desemprego na economia formal argentina.

A cena se repete: multidões de madrugada, poucas dezenas de vagas, filas que passam de dez quadras. O padrão, hoje, é um dos principais argumentos usados contra a tentativa de reeleição de Milei.


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