Jornalista que atuou em Rondônia vai à Síria; uma perigosa aventura

A jornalista Lú Braga, que mantém o blog www.nasegundaalucomeca.com, que atuou em Rondônia durante alguns anos, esteve em Damasco, capital da Síria no final de 2015 e narrou a experiência, que PAINEL POLÍTICO reproduz abaixo. Uma viagem perigosa a uma zona de conflito que levou milhares de pessoas a deixarem o país, atualmente comandado pelo Estado Islâmico. Confira abaixo:

Eu sempre tive curiosidade sobre a realidade da Síria. Sempre desejei expôr histórias não contadas. É inspirador conhecer quem realmente são os atingidos pela guerra.

[su_frame align=”right”] [/su_frame]Na verdade,  estar no Oriente Médio é muito interessante. Uma verdadeira escola de Jornalismo. Tenho atração por zonas de conflito, confesso.

Uma vez compartilhei esse desejo com um amigo e ele respondeu que eu só conseguiria ir no dia que a galinha tivesse dente. Não desisti!

Carreguei esse desejo por mais alguns anos. Foram diversas tentativas, batia na trave e nada. Na última semana, resolvi que era hora de fazer mais uma tentativa. Bom, a galinha não apareceu com dentes e mesmo assim…eu consegui entrar na Síria, acreditem!

Foi fácil? Não, nunca será fácil para um jornalista ter acesso ao país que está em guerra há mais de quatro anos e já matou mais de 200 mil pessoas durante os ataques. Sem falar que muitos jornalistas já morreram trabalhando na Síria. É um dos países mais perigosos para um jornalista trabalhar.

O risco é grande? É imensurável! O risco de sequestro é real nessa zona controlada por pela al-Qaeda ou pelo Estado Islâmico.

 

Sou doida? Não, sou jornalista e eu precisava ver de perto o que o mundo inteiro retrata diariamente sobre o drama do conflito.

Os veículos de comunicação não conseguem manter um profissional para cobrir essa guerra. É muito caro manter um profissional por aqui. O que abre espaço para os trabalhos de freelancers. Todo mundo trabalha sem nenhuma garantia de segurança.

Bom, entrei na Síria pela fronteira com o Líbano. Paguei 20 dólares para um taxista me deixar na capital, Damasco. Conseguir o visto na fronteira me causou muito, muuuuito medo. Eles poderiam descobrir minha profissão e tudo estava acabado. Jornalista estrangeiro na Síria é soda. Vocês lembram o que fizeram com outros jornalistas? O Estado Islâmico divulgou execuções brutais dos profissionais da imprensa.

O que eu temia aconteceu. O oficial descobriu o blog. Não me pergunta como, mas descobriu. E agora? Agora que eu estava morrendo de medo de ser reconhecida como jornalista. A adrenalina foi lá em cima, era momento de ter inteligência emocional. Precisei disfarçar e explicar o que era um blog.

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O oficial perguntou se eu falava de política, religião ou algo parecido. Respirei fundo, disfarcei o pavor, abri um sorriso e disse que falava de moda, gastronomia, make-up e tendências. Fui salva pelo meu óculos #Prada. Nunca mais vou deixar de amar e usar #Prada. Por questão de segurança, não posso contar como realmente foi. Um dia eu relato os detalhes.

Passaporte carimbado? Não, antes foi preciso pagar pelo visto. O pagamento é feito em dólar. O senhor que recebeu o dinheiro na imigração, já de idade avançada, aproveitou para reclamar do salário. Segundo ele, o que ganha não dá para passar o mês. São 100 dólares pelo mês trabalhado. Se é verdade? Preferi nem saber e deixar o troco para completar o salário do mês daquele senhor.

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Entrei no táxi novamente e segui pela Síria. Naquele momento, ainda sofrendo uma overdose de emoções,  lembrei do meu pai. Na boa, ele teria um ataque cardíaco seu eu contasse sobre essa viagem. Meu pai me conhece como ninguém e sabe que essas coisas não me repele. Me sinto ainda mais atraída.

A estrada que conecta a cidade de Damasco parecia tranquila. Andei mais um pouco e percebi que o clima não era de pura tranquilidade. A segurança é muito forte. São dezenas de barreiras até chegar na capital. Os militares pedem o seu  passaporte em todos os postos de controle. Naquele mesmo momento, onde tudo parecia tranquilo, a Rússia atacava o país. Existem rumores que os ataques da Rússia durem por uns três ou quatro meses e ainda existe uma grande possibilidade de uma intervenção terrestre. Os bombardeios russos, segundo autoridades, são para combater os terroristas do Estado Islâmico e não os opositores do regime de Bashar Al-Assad.

Troquei de táxi pouco antes de chegar na capital. Lembrei dos habituais ataques dos franco-atiradores e mais uma vez minha adrenalina subiu, subiu e eu permaneci em silêncio por mais um tempo.

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O risco era tão grande de estar naquele lugar, que acabei ficando neurótica. Resultado: ganhei uma dor de cabeça enlouquecedora. A cabeça parecia que ia explodir e eu já não conseguia nem abrir os olhos. Não sentia nem fome e nem sede. Estava anestesiada com tudo o que estava vivendo.

O forte controle militar continua dentro da cidade. Aí, você fica mais atenta com o que pode acontecer. Pode ser um falso bloqueio e você corre o risco de ser sequestrada. No reduto jihadistas, é complicado diferenciar. Eles usam cores cáqui e barbas. Todo mundo é muito parecido, gente!

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Resolvi andar fantasiada de turista. Na mochila, carregava pouca coisa e uma máquina de festinha. Algo discreto, que pudesse registrar o que era necessário no momento.

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Em  Damasco, por exemplo, os vestígios da guerra civil não afetou muito a rotina dos seus moradores. Nos mercados centrais da capital, é possível encontrar frutas frescas e com bom preço.

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Os vinhos libaneses e nozes do Afeganistão também são encontrados com facilidade. O comércio continua ativo. Os sírios continuam comprando roupas, sapatos, acessórios e tentando levar uma vida normal. Claro, dentro do possível, né?

Pois é, são retratos da quase normalidade da vida em um país que está em guerra há mais de quatro anos.

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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