Laudo confirma: primas do Paraná foram mortas a tiros em caminhonete
Perícia da Polícia Civil do Paraná conclui que Letycia Garcia Mendes e Sttela Dalva Melegari Almeida foram baleadas dentro de veículo após saírem de boate em Paranavaí
📋 Em resumo ▾
- Laudo da morte das primas Letycia e Sttela, concluído em 19/10 pela PC-PR, confirma que ambas foram mortas a tiros dentro de uma caminhonete
- Investigação aponta Clayton Antonio da Silva Cruz, morto em ação policial em agosto, como autor dos disparos
- Um segundo suspeito, identificado apenas como “Magrão”, está preso e foi indiciado por ocultação de cadáver — não por homicídio
- Corpo a corpo cronológico mostra o trajeto das jovens desde a saída de Cianorte até a boate em Paranavaí, na madrugada de 21 de abril
- Por que isso importa: o caso expõe falhas na resposta inicial ao desaparecimento e reacende o debate sobre segurança de mulheres em encontros marcados por aplicativos e redes sociais
Letycia Garcia Mendes e Sttela Dalva Melegari Almeida, primas de 18 anos, foram assassinadas com disparos de arma de fogo dentro de uma caminhonete, segundo laudo da morte concluído nesta segunda-feira (19) pela Polícia Civil do Paraná (PC-PR). As jovens haviam desaparecido em 21 de abril e foram localizadas mortas após quatro meses de buscas, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.
O que diz o laudo
De acordo com o delegado Luís Fernando Alves, responsável pelo caso, Sttela estava no banco de trás do veículo e foi atingida por três tiros disparados por Clayton Antonio da Silva Cruz, de 39 anos — apontado pela polícia como autor dos disparos. A investigação aponta que Letycia se assustou com a situação e tentou fugir do veículo, mas foi atingida por dois tiros na cabeça. A caminhonete usada no crime não foi localizada até o momento.
“[Sttela] levou três tiros de Clayton. [...] Letycia se assustou com a situação e tentou fugir, mas foi atingida com dois tiros na cabeça” — relato da investigação conforme o delegado Luís Fernando Alves
As duas desapareceram em 21 de abril, data em que a polícia acredita que o crime ocorreu. Letycia conhecia Clayton de festas anteriores e havia aceitado sair novamente com ele; foi assim que as primas passaram a acompanhá-lo naquela noite.
Quem é Clayton e como ele morreu
Clayton foi morto durante uma abordagem policial em Mandaguari, no dia 21 de agosto. É importante destacar: a investigação aponta Clayton como autor dos disparos que mataram as duas jovens, mas o processo contra ele não chegou a desfecho judicial, já que ele morreu antes — não há, portanto, condenação formal, apenas a conclusão da apuração policial.
No mesmo dia da morte de Clayton, vestígios das primas foram encontrados em uma área rural próxima a Paraíso do Norte. A localização só foi possível porque um segundo suspeito, identificado pela polícia apenas pelo apelido de “Magrão”, indicou aos investigadores o local onde deveriam procurar os restos mortais das jovens.
O segundo suspeito: o que se sabe sobre “Magrão”
Magrão segue preso e foi indiciado por ocultação de cadáver — ou seja, a polícia concluiu, após a investigação, que ele participou do ato de esconder os corpos, mas o indiciamento não se refere à morte das jovens. O delegado Luís Fernando Alves afirma que não há indícios de que Magrão tenha participado do homicídio das primas, já que elas saíram sozinhas com Clayton da casa noturna, sem a presença dele.
Vale reforçar a distinção jurídica: ser indiciado significa que a autoridade policial concluiu a investigação apontando Magrão como autor de um crime específico (ocultação de cadáver); isso não equivale a condenação, e não há, segundo as informações apuradas, indiciamento dele por homicídio.
Motivação do crime
Segundo apuração do delegado Luís Fernando Alves, divulgada em agosto, a execução das primas teria sido motivada por um desentendimento comercial/financeiro entre Clayton e as jovens — não por envolvimento afetivo, como se especulou inicialmente. O delegado relatou que, em determinado momento, Clayton sacou uma arma e mandou as jovens descerem do veículo; uma delas teria respondido que ele não teria coragem de atirar, e foi então que ele atirou na cabeça da primeira garota, que estava no banco de trás. O próprio delegado reforçou que o motivo do desentendimento seria financeiro.
Esse relato também esclarece a relação entre as vítimas e o suspeito: Clayton e Letycia seriam amigos e costumavam sair juntos, mas até aquele momento não havia confirmação de envolvimento amoroso entre eles; já Sttela estava saindo com Clayton pela primeira vez.
Antecedentes de Clayton
- Clayton era conhecido pelos apelidos “Sagaz”, “Dog Dog” e “Cleitinho”, e possuía extensa ficha criminal, com antecedentes por tráfico de drogas, associação para o tráfico, porte ilegal de arma, roubo e desobediência.
- Ele usava o nome falso “Davi” para circular na cidade e já era procurado pela Justiça por um crime de roubo cometido em 2023, em Apucarana .
- Segundo outra apuração, Clayton se apresentava como empresário havia cerca de um ano e meio sob identidade falsa; quando menor de idade, já acumulava cerca de 20 passagens pela polícia, e na vida adulta chegou a cumprir sete anos de prisão por tráfico de drogas.
- Em maio, uma mulher apontada como ex-companheira de Clayton foi presa temporariamente em Paraguaçu Paulista, suspeita de apoio logístico/financeiro — esse dado já estava no seu texto original (você mencionou a prisão em 15/05).
Identificação das vítimas e sepultamento
Em 27 de agosto, o delegado confirmou que as ossadas encontradas eram das duas vítimas. A identificação foi feita por meio da arcada dentária, e a análise pericial identificou indícios de morte violenta. As ossadas foram liberadas para sepultamento em 1º de outubro pela Polícia Científica, e o enterro ocorreu mais de cinco meses após o desaparecimento das jovens.
Linha do tempo: do desaparecimento à conclusão do laudo
20 de abril, 22h39 — Letycia e Sttela são vistas saindo de Cianorte na caminhonete com Clayton, que Letycia conhecia pelo nome de “Davi”. Uma amiga das jovens relatou à polícia que as primas foram chamadas para uma festa em Porto Rico; a amiga optou por não ir, mas Letycia e Sttela aceitaram o convite. Segundo a investigação, foi a última vez que Letycia se conectou à internet, já que não tinha pacote de dados móveis.
22h54 — A mesma caminhonete é filmada por câmeras de segurança entrando em Jussara, cidade onde Sttela mora com a mãe. A jovem foi até a casa buscar uma mochila; a mãe não estava no imóvel.
22h55 — Sttela publica nas redes sociais uma imagem com uma garrafa de uísque, com música tocando dentro da caminhonete, e a legenda “Qual será o nosso destino KKKK”, marcando Letycia na publicação.
23h13 — O trio deixa Jussara em direção a Maringá, pela rodovia PR-323.
21 de abril, 00h16 — Sttela faz sua segunda e última publicação, no trevo entre Presidente Castelo Branco e Nova Esperança. Clayton aparece na imagem, mas apenas o perfil de Letycia é mencionado na postagem.
1h10 — Sttela, Letycia e Clayton são filmados entrando em uma boate de Paranavaí. As primas aparecem caminhando de mãos dadas; depois, Clayton também é gravado ao lado delas.
3h17 — Última conexão de Sttela à internet, segundo informação obtida por pedido emergencial de quebra de sigilo do WhatsApp.
Entre 22 e 23 de abril — Clayton retorna sozinho a Cianorte, sem a caminhonete, deixando a cidade novamente de moto e sem celular, segundo a investigação.
23 de abril, 9h — Última vez em que Clayton se conecta à internet.
24 de abril — A polícia localiza registros indicando que Clayton passou por Maringá.
29 de abril — É expedido o mandado de prisão contra Clayton, pelos crimes de roubo e homicídio. A partir desta data, ele passa a ser considerado foragido.
15 de maio — Uma mulher apontada como ex-namorada de Clayton é presa em operação da Polícia Civil, suspeita de dar apoio financeiro e logístico a ele durante o período em que as jovens estavam desaparecidas.
15 de junho — A polícia realiza buscas por pistas na área rural de Paraíso do Norte.
21 de agosto — Clayton é morto em abordagem policial em Mandaguari; no mesmo dia, outro suspeito é preso em Umuarama e as ossadas das primas são encontradas.
Quatro meses depois do desaparecimento e cinco meses depois do sepultamento, o laudo final sobre a morte de Letycia e Sttela chega a uma conclusão técnica, mas deixa em aberto uma pergunta que a perícia não responde: por que duas jovens que saíram para uma festa não voltaram para casa, e o que levou alguém que elas conheciam a se tornar, segundo a investigação, seu algoz. A caminhonete usada no crime segue sem paradeiro, e esse é o único elo físico do caso que ainda falta encontrar.
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