Mais de 80% dos médicos residentes divulgam informações sigilosas de pacientes em redes sociais

A revelação foi feita por um estudo realizado na Unifesp

Coluna da jornalista Cristiane Seggato na revista Época revela que o escândalo provocado pela divulgação de informações sigilosas sobre a saúde da ex-primeira-dama Marisa Letícia tornou pública uma prática corriqueira entre os médicos. Embora seja comum, o compartilhamento de dados de pacientes em grupos de whatsapp não pode ser tolerado. Nada como o olhar de um outsider para apontar práticas absurdas que, de tão usuais, parecem aceitáveis. Para isso, entre outras coisas, serve o jornalismo. Para desnudar os reis e questionar as regras.

Na relação entre médicos e pacientes, o poder está 100% concentrado nas mãos dos profissionais. Eles detêm o conhecimento, a técnica e os meios capazes de salvar ou de aliviar o sofrimento. É um poder desproporcional. Algo que precisa ser questionado e vigiado de perto pela sociedade.

Não fosse a relevante reportagem de Thiago Herdy, publicada no site do jornal O Globo, dois médicos não teriam sido demitidos (uma do Hospital Sírio-Libanês, outro da Unimed de São Roque) e o Brasil não teria se dado conta de mais uma importante vulnerabilidade dos doentes.

O caso Marisa Letícia é uma bizarra sucessão de desrespeitos. Começa com um jornalista vangloriando-se num vídeo postado no YouTube de ter colocado as mãos numa tomografia da ex-primeira-dama. Não satisfeito em falar, ele mostra o exame. Continua com uma plantonista do Hospital Sírio-Libanês enviando mensagens de WhatsApp a um grupo de antigos colegas de faculdade. Ela confirma que Marisa estava no pronto-socorro com diagnóstico de acidente vascular hemorrágico (AVC) de nível 4 na escala Fischer – considerado um dos mais graves – e prestes a ser levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Como era previsível, a informação foge do controle e viraliza.

O show de horrores continua com a observação insana de um neurocirurgião que trabalhava na Unimed de São Roque. Em resposta ao comentário da colega, ele expressa o desejo de que o procedimento dê errado e Marisa “abrace logo o capeta”. A barbaridade ganha impulso com o ódio destilado, nas redes antissociais, por cidadãos de todas as profissões e desocupados de todo tipo.

É preciso parar o mundo e, pelo menos por uns instantes, pedir para descer. Olhar de fora, a partir da perspectiva do doente. A indignação do público é um sinal da urgência do debate. Diante da repercussão do caso, não poderia ter sido apresentada em momento mais oportuno a dissertação

e mestrado profissional defendida nesta quarta-feira (8) pelo cirurgião Diego Adão Fanti Silva, na Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Ele estudou as violações do sigilo profissional em mídias sociais por estudantes de medicina, residentes e cirurgiões que atuam no Hospital São Paulo (o hospital-escola da instituição).

O objetivo de Diego foi avaliar, dentro do ambiente cirúrgico, quais das três categorias mais divulgam informações de pacientes nas mídias sociais e quais revelam mais desconhecimento das regras de confidencialidade dessas mídias.

Participaram da pesquisa 156 pessoas – 52 alunos, 51 residentes e 53 docentes, com média de 24, 28 e 59 anos, respectivamente. Os resultados podem parecer banais para quem atua na área, mas são assustadores para qualquer cidadão que possa um dia estar anestesiado. Gente como você e eu.

A divulgação de informações de pacientes nas mídias sociais foi referida por 53% dos alunos, 86% dos residentes e 32% dos docentes. As políticas de privacidade das mídias sociais eram desconhecidas por 69% dos alunos, 80% dos residentes e 62% dos docentes.
Apenas 12 (7,7%) dos 156 entrevistados afirmaram não zelar pelo anonimato do paciente. Ou seja: 45 (86,5%) alunos, 46 (90,2%) residentes e 53 (100%) docentes relataram ocultar a identidade dos pacientes no momento da divulgação de seus dados clínicos. Menos mau, pero no mucho.

Diego ressalta que existe um maior apelo sensacionalista aos procedimentos invasivos, que impactam no inconsciente mórbido coletivo. Muitos cirurgiões registram fotos e vídeos dos procedimentos que realizam ou participam, com diversas finalidades: documentação em prontuário, ensino, publicação científica, discussão com colegas, publicidade ou arquivo pessoal. O complicador nessa história é que muitas vezes o paciente encontra-se inconsciente, em situação de vulnerabilidade e sem condições de expressar seu consentimento sobre a concessão de sua imagem corporal.

O trabalho menciona diferenças geracionais que contribuem para o problema. Os jovens, nascidos e criados no ambiente digital, têm mais dificuldade de resistir à tentação de compartilhar todos os momentos da vida nas redes sociais. Some-se a isso a pouca experiência pessoal com o sofrimento e um modelo tradicional de ensino que relega os valores da bioética a uma pequena carga horária.

Como bem lembra o autor, a violação do sigilo profissional em mídias sociais, segundo os princípios éticos e legais, é um erro médico. O levantamento feito pelo pesquisador das leis e códigos, tanto nacionais quanto internacionais, esclarece que é ilegal e antiética a divulgação de imagens de pacientes em ambiente público, mesmo com a autorização dos expostos.

A veiculação só é legal e ética se a captura for obtida com consentimento do paciente, exclusivamente para fins acadêmicos ou assistenciais. Mesmo quando a informação é divulgada sem a identificação do doente, ela continua sendo considerada ilegal e antiética.

“Nas leis e nas regras, não existe espaço para o sensacionalismo e a promoção profissional apoiados na exposição do paciente”, afirma Diego. “Muita gente acha que é normal divulgar uma foto ou um vídeo do paciente, mas se engana. Isso tudo é dado do prontuário médico e, como tal, deve ser protegido”, diz.

Quem perde quando as normas de conduta são desrespeitadas? Em primeiríssimo lugar, o paciente. Quando os direitos à autonomia e à privacidade são violados, ele é exposto a humilhações, constrangimento, estresse psicológico e prejuízos materiais ou morais. Também não é um bom negócio para os médicos e hospitais porque ambos respondem ética e legalmente pela infração.

Em casos terríveis como o de Marisa Letícia, há duas alternativas: ou se assumem o erro e a necessidade de mudança ou se negam os fatos. É sempre possível optar pelo segundo caminho, mas da consciência nada se esconde.

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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