Painel Econômico

Mensagens ligam Vorcaro e Peretto a suposto desvio de R$ 1,7 bi na financeira BRK

Conversas obtidas pela PF mostram ex-banqueiro do Master e ex-dono da Cartos tratando de aportes na financeira BRK que teriam sido desviados via fundos de investimento.

📋 Em resumo ▾
  • Mensagens de WhatsApp entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o ex-dono da financeira Cartos, Henrique Peretto, obtidas pela Polícia Federal (PF) e reveladas pelo jornal Valor Econômico, indicam que os dois se conheciam desde pelo menos 2019 — contrariando depoimento de Vorcaro à Justiça, no qual ele negou relacionamento prévio com Peretto.
  • As conversas sugerem que a dupla teria usado o mesmo método em duas instituições diferentes: capitalizar a financeira BRK para que ela captasse CDBs com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e, depois, direcionasse esses recursos a fundos de investimento ligados a Vorcaro, onde teria ocorrido desvio via compra de precatórios supostamente sobrevalorizados.
  • A BRK foi liquidada pelo Banco Central (BC) no início de 2023 e, segundo reportagem anterior do Valor, deixou prejuízo de R$ 1,718 bilhão ao FGC.
  • Parte do conteúdo das mensagens é corroborada por documentos públicos — na CVM, em inquérito do BC e no processo de falência da BRK —, segundo o Valor.
  • Por que isso importa: as mensagens, se confirmadas, aproximam o caso BRK do esquema hoje investigado no Banco Master e no BRB, por aplicar, segundo a reportagem, "basicamente a mesma tecnologia" de suposto desvio de recursos.
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Mensagens de WhatsApp trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ex-dono da financeira Cartos, Henrique Peretto, indicam que os dois se conheciam desde pelo menos 2019 e sugerem o envolvimento direto de ambos em um suposto esquema de fraudes que teria desviado centenas de milhões de reais da financeira BRK. A informação é do jornal Valor Econômico, que teve acesso ao conteúdo das conversas, hoje em poder da Polícia Federal (PF).

Até a revelação das mensagens, segundo o Valor, já se sabia que Peretto seria uma figura-chave na suposta fabricação de carteiras de crédito sem lastro cedidas do Master ao Banco de Brasília (BRB) — operação apontada como pivô das dificuldades financeiras hoje enfrentadas pelo banco estatal. As novas conversas, porém, apontam que a rede de supostas fraudes teria se estendido também à BRK, outra instituição financeira.

O que as mensagens sugerem

Segundo a reportagem do Valor, as conversas mostram Vorcaro e Peretto tratando da capitalização da BRK — movimento que teria dado à financeira musculatura para captar Certificados de Depósito Bancário (CDBs) oferecendo altos retornos, com a garantia do FGC. Depois, a BRK teria usado parte desses recursos para fazer aportes em fundos de investimento controlados por Vorcaro, onde teria ocorrido o desvio do dinheiro por meio da compra de precatórios supostamente sobrevalorizados — padrão que, segundo o Valor, é semelhante ao que viria a ser aplicado dentro do próprio Master.

A financeira BRK foi liquidada pelo Banco Central no início de 2023. Em reportagem publicada em fevereiro, o Valor já havia mostrado que a liquidação causou prejuízo de R$ 1,718 bilhão ao FGC, e que uma empresa chamada BMQ Mirage teria sido usada em empréstimos supostamente simulados para desviar recursos tanto da financeira quanto do banco de Vorcaro.

Em depoimento à Justiça, Vorcaro negou ter relacionamento prévio com Peretto. As mensagens em poder da PF, segundo a reportagem, sugerem o contrário.

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As cobranças por WhatsApp

De acordo com o Valor, boa parte do diálogo é corroborada por documentação pública examinada pela reportagem — na base de dados de fundos de investimento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em inquérito da supervisão do Banco Central e no processo judicial de falência da BRK.

Um dos trechos reproduzidos pelo jornal mostra Vorcaro cobrando Peretto, em 22 de fevereiro de 2022, pelos aportes que a BRK deveria fazer em fundos ligados ao Master, como contrapartida ao capital que ele próprio havia colocado na financeira:

"Vc colocou capital lá para comprar 500 mm de ativos do banco e não para resolver o problema de crédito deles."

Em outro trecho citado pelo Valor, de 26 de outubro de 2021, Peretto envia a Vorcaro o que chama de memorando de entendimentos (MOU) relativo à injeção de capital que faria na BRK: "Tudo bem, Daniel? MOU assinado." Segundo a reportagem, esse documento não estava disponível na própria mensagem, mas foi localizado pelo Valor no processo de falência da BRK — juntado como prova pelo próprio Peretto, numa tentativa de se habilitar como credor perante a massa falida. Nele, Peretto se compromete a aportar cerca de R$ 60,9 milhões na BRK por meio da empresa Dirua Participações, e o mesmo documento prevê a obrigação que, segundo o Valor, levaria ao suposto desvio de recursos via fundos de investimento: a Dirua apresentaria à BRK R$ 600 milhões em operações de crédito ou direitos creditórios que a financeira "poderá ou não" adquirir.

Os fundos Somália e Formes

As mensagens mostram que, em dezembro de 2021, a BRK investiu R$ 195 milhões no fundo Somália, administrado pela Trustee DTVM e gerido pela gestora WTN. O Somália, por sua vez, investiu no fundo Formes, também da Trustee.

Uma auditoria feita pela empresa UHY Bendoraytes & Cia, segundo o Valor, revelou que todo o patrimônio do fundo Formes estava concentrado em uma única disputa judicial — movida pela Usina Catende S.A. contra a União — e que não foi possível atestar a existência, a integridade ou a valorização desse crédito. Com base nisso, o inquérito do Banco Central sobre supostas fraudes na BRK determinou provisão de 100% dos valores investidos nesses fundos, por avaliar como baixa a probabilidade de recuperação dos recursos; segundo o BC, citado pelo Valor, "o valor final a ser recebido é incerto, tendo em conta que a União opôs embargos à execução, que foram julgados procedentes, declarando a nulidade da execução".

Documentos da CVM examinados pelo Valor mostram ainda que, no início de janeiro de 2022, a BRK chegou a fazer aportes diários de R$ 2 milhões no fundo Somália — movimentação que, segundo a reportagem, Peretto relatava a Vorcaro quase em tempo real. Em uma das mensagens, ele informa: "No dia 30/12 pagaram 17, e, a partir do dia 3/1, estão pagando 2/dia." Os aportes, segundo o Valor, prosseguiram nos meses seguintes, com algumas falhas e oscilações de valores.

O outro lado

O Valor afirma ter procurado Peretto, que não se manifestou até o fechamento da reportagem.

A defesa de Vorcaro enviou nota ao jornal queixando-se do vazamento das mensagens, sem responder diretamente aos pontos levantados pela reportagem:

"É absurdo ver frases pinçadas, conversas, áudios e prints descontextualizados falarem por mim, enquanto permaneço preso e sem o direito de falar oficialmente. Afirmo que não reconheço a autoria, a autenticidade e o contexto de vários dos conteúdos vazados."

Até a publicação desta matéria, Vorcaro permanece preso no âmbito das investigações sobre o Banco Master; nenhuma das pessoas citadas nesta reportagem foi condenada pelos fatos aqui descritos, que seguem sob apuração.

As novas mensagens não alteram, por si só, a situação processual de Vorcaro ou Peretto — mas, segundo o Valor, tornam mais clara a hipótese de que o mesmo esquema teria sido replicado em duas instituições financeiras diferentes antes de aparecer, em maior escala, no próprio Banco Master.


🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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