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Metrópoles enviava matérias a Vorcaro antes de publicar, diz UOL

Mensagens da Polícia Federal, segundo o UOL, mostram Vorcaro editando reportagens do Metrópoles e negociando contratos de R$ 20 milhões com a CEO Lilian Tahan

Metrópoles enviava matérias a Vorcaro antes de publicar, diz UOL
📷 Victor Moriyama/Bloomberg.
📋 Em resumo ▾
  • • Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, indicam que a direção do portal Metrópoles submetia reportagens a ele antes da publicação, segundo reportagem do UOL.
  • • Um levantamento do UOL apontou que ao menos 14 matérias foram enviadas previamente ao ex-banqueiro; 11 teriam sido alteradas após pedidos dele.
  • • Paralelamente, o Master fechou contratos publicitários com o Metrópoles que somaram R$ 20 milhões, segundo as mensagens — valor que se soma aos R$ 27 milhões em repasses ao site já identificados pelo Coaf e noticiados por outros veículos.
  • • A CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, nega que a publicidade tenha relação com a cobertura jornalística, e diz que checar informações com a fonte antes de publicar é prática que adota com diversas personalidades.
  • • Por que importa: as mensagens, se confirmadas, apontam para interferência direta de uma fonte comercial na pauta e na edição de um veículo de grande audiência nacional — incluindo matérias sobre a fiscalização do Banco Central à venda do Master ao BRB.
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Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam que a direção do portal Metrópoles submetia reportagens a ele antes da publicação, atendia a pedidos de edição e sugeria pautas que favoreciam os negócios do banco, segundo reportagem do UOL. A linha direta entre o ex-banqueiro e a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan, foi estabelecida em maio de 2024, após um encontro promovido pelo assessor de imprensa do Master, Guilherme Barros.

Como a relação começou

Segundo o UOL, a aproximação entre Vorcaro e o Metrópoles passou por Guilherme Barros, assessor de imprensa do Master, que promoveu um encontro entre o banqueiro e Lilian Tahan em maio de 2024. No dia seguinte à reunião, Barros escreveu a Vorcaro: "a Lilian gostou muito de vc. Foi muito bom ter te colocado com o Luis Estevão. Eu tenho o contato dele, mas acho melhor ela mesmo fazer essa ponte, concorda?" — referência a Luiz Estevão, ex-senador e dono do Metrópoles, que cumpriu pena por desvio de recursos públicos e passou ao regime aberto em 2021.

Matérias enviadas antes da publicação

Nos meses seguintes, Vorcaro passou a ler e editar textos antes de irem ao ar, segundo as mensagens citadas pelo UOL. Um levantamento do próprio veículo apontou que ao menos 14 matérias do site foram enviadas previamente ao ex-banqueiro, das quais 11 teriam sido alteradas após seus pedidos, e duas publicadas a pedido direto do dono do Master.

Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre o empresário, Lilian Tahan teria escrito a Vorcaro: "se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos".

Os valores envolvidos

As mensagens também mostram a evolução dos contratos comerciais entre as partes, segundo o UOL. Um mês após a reunião inicial, o Master pagou R$ 1 milhão ao Metrópoles. Em julho de 2024, foram acertados R$ 900 mil adicionais para financiar projetos de "educação financeira" da seguradora Kovr e do banco digital Will — ambos ligados ao grupo Master. Em novembro de 2024, Tahan teria apresentado uma nova proposta, fechada em R$ 20 milhões, conforme diálogo entre a diretora de marketing do Master, Ana Matos, e Vorcaro.

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Na conversa, Ana Matos teria comentado: "tá caro esse Metrópoles". Vorcaro respondeu: "coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles". O montante teria sido quitado pelo Master em 2025, em parcelas de R$ 5 milhões.

Esse valor se soma aos cerca de R$ 27 milhões em repasses do Master ao Metrópoles entre 2024 e 2025 já identificados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e noticiados por outros veículos — o órgão apontou como suspeita a rapidez com que parte dos recursos foi transferida a empresas ligadas à família de Luiz Estevão. O Metrópoles afirma que os pagamentos se referem a contratos de publicidade institucional e patrocínio esportivo com o Master e o Will Bank.

A defesa de Lilian Tahan

Questionada pelo UOL sobre a prática de submeter textos a fontes antes da publicação, Lilian Tahan afirmou que "checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresárias, da política e do Judiciário". Sobre o contrato publicitário, ela declarou que ele não tinha relação com a cobertura jornalística sobre o banco: "basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas dentre outras".

Interferência na cobertura sobre o Banco Central e a venda ao BRB

As edições ocorriam enquanto o Master enfrentava crise financeira e buscava aprovação do Banco Central para vender 58% de seu capital ao BRB, banco estatal do governo do Distrito Federal, segundo o UOL. Em 2 de abril de 2025, Vorcaro teria reclamado de uma publicação sobre uma suposta oferta de compra de ativos por R$ 1: "Proposta de 1 real nunca existiu!" — ao que Tahan teria respondido: "Tiramos".

O ex-banqueiro também teria atuado na cobertura sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da fusão com o BRB, que posteriormente se posicionou contra o negócio — decisão que antecedeu a liquidação extrajudicial do Master. Em agosto de 2025, ao receber a prévia de uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, Vorcaro teria orientado: "acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto". Dias depois, ao receber um perfil sobre Renato Gomes, Vorcaro teria pedido a retirada de uma menção a falência do banco e sugerido incluir referências a um suposto "racha" no Banco Central e especulações sobre o futuro profissional do diretor. Tahan argumentou que Renato Gomes "tornou-se personagem relevante por ter se posicionado de forma contrária à aquisição do Master pelo BRB", tema de interesse direto para um veículo focado na cobertura de Brasília.

Ainda segundo o UOL, Vorcaro também teria pedido a Tahan que "desse uma freada" na cobertura sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal e crítico da venda do Master ao BRB. Sobre esse ponto, Tahan afirmou que Luiz Estevão "sempre foi um crítico ferrenho da compra do Master pelo BRB" e que forneceu a Cappelli análises sobre problemas em balanços do banco estatal.

Até a prisão de Vorcaro

A troca de mensagens teria seguido até 17 de novembro de 2025, data da prisão de Vorcaro. Nesse dia, segundo o UOL, Tahan enviou reportagens sobre a venda do Master à empresa Fictor antes de irem ao ar, e escreveu ao ex-banqueiro, após fazer as edições solicitadas: "publicada hahahaha".

Mais um elo na mesma teia

O caso do Metrópoles se soma a outros episódios já mapeados na cobertura sobre a influência de Vorcaro na imprensa — da relação com o então diretor-geral da Editora Globo, Frederic Kachar, a mensagens citadas por outros veículos sobre pagamentos a jornalistas de outros portais. Se as mensagens citadas pelo UOL forem confirmadas, o caso do Metrópoles é o que descreve, com mais detalhe até agora, uma rotina de submissão de pauta e edição de texto a uma fonte comercial — e não apenas contatos pessoais ou publicidade institucional.

Cabe reforçar que, neste estágio, trata-se de conteúdo de mensagens privadas obtidas em investigação policial, replicadas por um veículo de imprensa — não de decisão judicial sobre o mérito dos fatos.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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