Namorado de Isabelle Caracristi é indiciado por violência psicológica e fraude processual
Polícia Civil do Ceará concluiu investigação sobre a morte da estudante de Direito e remeteu o inquérito à Justiça em 30 de setembro. João Munhoz Neto teve a prisão preventiva revogada em 1º de outubro, por decisão da 5ª Vara do Júri de Fortaleza
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- João Munhoz Neto, namorado de Isabelle Caracristi, é indiciado pela Polícia Civil do Ceará por violência psicológica e fraude processual
- Suspeita de indução ao suicídio, que motivou prisão preventiva, não consta entre os crimes do indiciamento
- Justiça do Ceará revogou a prisão preventiva em 1º de outubro, após parecer favorável do Ministério Público
- Inquérito reúne 17 laudos periciais e 29 depoimentos; morte de Isabelle foi registrada em 13 de setembro, em Fortaleza
A Polícia Civil do Ceará indiciou João Munhoz Neto, de 34 anos, namorado da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, por violência psicológica e fraude processual. O indiciamento é a conclusão de uma fase do inquérito policial — não se trata de uma condenação, nem de uma denúncia formal oferecida pelo Ministério Público, que é a etapa seguinte do processo e caberá à Justiça decidir se acolhe ou não. Munhoz Neto permanece, portanto, sob a presunção de inocência garantida pela Constituição até eventual decisão judicial definitiva.
É essencial esclarecer uma distinção que o caso trouxe ao longo da investigação: durante as diligências, a Polícia Civil chegou a apontar Munhoz Neto como suspeito de indução, instigação ou auxílio ao suicídio, crime que motivou sua prisão preventiva em 22 de setembro. Esse crime, no entanto, não consta entre os delitos pelos quais ele foi indiciado ao final da investigação. Significa que, com base nas provas reunidas até aqui, a autoridade policial não encontrou elementos suficientes para formalizar essa acusação específica — o que é diferente de uma absolvição, mas também diferente de uma confirmação da suspeita inicial.
Isabelle morreu em 13 de setembro, em Fortaleza, após cair do terraço de um prédio no qual morava havia poucas semanas com o namorado. Segundo a Polícia Civil, a morte foi resultado de uma precipitação voluntária — ou seja, não foi classificada como um empurrão ou ação direta de terceiro sobre o corpo da jovem no momento da queda, segundo o que a investigação concluiu até o momento.
O que embasou o indiciamento
De acordo com o inquérito, conduzido pelo Grupo Especial de Investigação (GEI) — formado por equipes da 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital, da 2ª Delegacia de Defesa da Mulher de Fortaleza e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) —, foram ouvidas 29 pessoas, entre familiares, amigos, colegas de trabalho do casal e moradores e funcionários do prédio.
Segundo depoimentos colhidos pela polícia ao longo da investigação, Munhoz Neto tinha comportamento controlador e tentava manter Isabelle isolada, restringindo suas ações — é importante registrar que essa caracterização vem de relatos de terceiros colhidos no inquérito, e não de uma constatação judicial definitiva.
A investigação também apurou, segundo a Polícia Civil, que Munhoz Neto tentou localizar e retirar o celular da estudante de uma lixeira do prédio, com ajuda do porteiro, e pediu que familiares da jovem não tivessem acesso ao condomínio na noite da morte. Foram essas condutas, segundo a polícia, que embasaram o indiciamento por obstrução da Justiça — delito que, no conjunto do inquérito, foi formalizado como fraude processual.
A perícia técnica do caso foi conduzida pela Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), que produziu 17 laudos periciais, incluindo exames de necropsia, toxicológico, de local de crime, DNA, papiloscopia e análises de áudios, vídeos, câmeras e dispositivos tecnológicos. Cerca de 700 vídeos de câmeras de segurança foram analisados, com a participação de 22 peritos e auxiliares de peritos. O laudo cadavérico apontou como causa da morte politraumatismo, com lesões compatíveis com impacto contra o solo. A necropsia não constatou gravidez, e os exames toxicológicos deram resultado negativo para substâncias de interesse.
O procedimento foi remetido ao Poder Judiciário em 30 de setembro.
O GLOBO, fonte original desta reportagem, informou ter entrado em contato com a defesa de João Munhoz Neto, mas não obteve retorno até a publicação da matéria original. O espaço segue aberto para manifestações da defesa.
Prisão preventiva foi revogada
João Munhoz Neto foi preso preventivamente em 22 de setembro, em Fortaleza. Segundo a Polícia Civil, a medida teve como objetivo garantir a instrução criminal e assegurar a aplicação da lei penal. Celulares e outros dispositivos eletrônicos dele foram apreendidos e analisados durante a investigação.
Em 1º de outubro, contudo, a Justiça do Ceará revogou a prisão preventiva de Munhoz Neto. A decisão, da 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza, ocorreu depois de o Ministério Público do Ceará (MPCE) emitir parecer favorável à soltura — segundo informações do jornal Diário do Nordeste. A prisão preventiva foi substituída por medidas cautelares: obrigação de manter distância dos familiares da vítima, monitoramento eletrônico e proibição de se ausentar da comarca.
Como o caso veio à tona
O caso ganhou repercussão depois que a mãe de Isabelle, a professora universitária Isorlanda Caracristi, publicou um vídeo nas redes sociais relatando que, ao perder contato com a filha, procurou Munhoz Neto e descobriu que havia sido bloqueada por ele. Ao ir até o prédio onde o casal morava, ela soube que Isabelle havia morrido no dia anterior e que o corpo já estava no Instituto Médico Legal (IML).
Segundo o relato da mãe, no dia da morte Isabelle havia passado o dia na casa dela e, posteriormente, enviou mensagem reclamando de um torcicolo. A jovem, estudante de Direito, morava no prédio havia algumas semanas com o namorado, um irmão dele e a mãe de Munhoz Neto, Sara Regina Alexandre Munhoz, identificada como coordenadora de execução da saúde prisional da Secretaria de Administração Penitenciária do Ceará. Segundo a Polícia Civil do Ceará, a sogra da jovem foi localizada no início da noite de domingo na praia do Cumbuco, em Caucaia (RMF), onde cumpriu-se um mandado de busca e apreensão; celular e tablet dela foram apreendidos para perícia.
O que as imagens de câmera mostram, segundo a reportagem original
De acordo com imagens de câmeras de segurança do prédio obtidas pelo Diário do Nordeste, Isabelle chegou ao prédio às 17h58. Munhoz Neto desceu para buscá-la na portaria, e os dois subiram juntos de elevador. Às 18h33, ele deixou o prédio usando outra roupa — e, segundo a reportagem, parece trocar de anel na mão direita ainda dentro do elevador. Às 19h12, antes de enviar a última mensagem à mãe, Isabelle entrou no elevador rumo ao terraço do prédio, no 23º andar — o apartamento do casal ficava no 15º andar. A última mensagem de Isabelle à mãe foi enviada às 19h22.
Segundo a Polícia Civil, Isabelle morreu 88 minutos depois de subir ao terraço, às 20h40. As imagens também mostram Munhoz Neto retornando ao prédio às 22h48, quando o carro da perícia forense já estava na garagem.
Relacionamento e casamento anterior
À atração midiática do caso, a mãe de Isabelle relatou, em entrevista ao programa Fantástico, que se preocupava com a relação da filha com o homem, que era seu chefe — os dois teriam se conhecido durante estágio da jovem em um escritório de advocacia, em julho, e começado a namorar dez dias depois. Segundo a mãe, ela já considerava o comportamento dele controlador e havia questionado a rapidez do relacionamento; Isabelle, segundo o relato da mãe, também teria reclamado de comportamento ciumento e possessivo do namorado. Esses relatos são da mãe da vítima e não constituem, por si, fato comprovado judicialmente.
Munhoz Neto era casado com outra mulher quando começou o relacionamento com Isabelle — informação confirmada ao g1 pela advogada de defesa dele, Lígia Peixe. Segundo essa confirmação, ele havia se casado em janeiro de 2025. Em depoimento prestado antes de ser preso, Munhoz Neto afirmou que era "formalmente casado, mas estava separado de fato e em processo de divórcio", e disse ter terminado o relacionamento anterior cerca de 15 dias antes de iniciar o namoro com Isabelle. Segundo seu próprio depoimento, ele teria inicialmente negado à jovem que era casado, por temer a reação dela, e posteriormente explicado a situação.
A investigação segue aberta, conduzida sob a perspectiva de violência de gênero, segundo a Polícia Civil do Ceará.
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