‘Não sou animal para ele me tratar assim’, diz morador de rua agredido por guardas civis em SP

Polícia abriu investigação, guardas foram afastados e Prefeitura ofereceu emprego para o casal.

O morador de rua Samir Ahamad, de 40 anos, que teve o punho fraturado após agressões de um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM), nesta quarta-feira (3), na Zona Sul de São Paulo, lamentou a violência que sofreu do policial.

“Ele fez isso com um semelhante da mesma espécie que a dele. Eu não sou um animal para ele me tratar assim e ele para mim foi um animal comigo”, disse Samir.

As agressões aconteceram próximo ao Metrô Conceição durante uma operação da Prefeitura de São Paulo para recolher objetos deixados por moradores de rua. Toda a ação foi gravada por Marcos Hermanson, estudante de jornalismo que passava pelo local. Nesta quinta-feira, o prefeito João Doria prometeu emprego a Samir.

Samir é paulistano e costumava morar no bairro do Limão. Ele foi para as ruas há seis meses, após perder o emprego e não conseguir mais pagar o aluguel. Esta não é a primeira vez que ele fica em situação de rua. Agora, a maior preocupação de Samir é sua esposa, Mirella Nunes, de 38 anos. “Ela é minha parceira há oito anos. Somos nós dois lado a lado”, declara.
Juntos, o casal teve duas filhas gêmeas. Na época, eles moravam em um abrigo e estavam recém recuperados do vício do crack. Por causa disso, ele diz que não ficaram com a guarda integral das crianças. Podiam visitar e passar algum tempo com elas, direito que perderam após uma audiência. “A gente nem levou elas para casa. Não sei nada delas”, lamenta.
Mirella tem outro filho, de 17 anos, com quem também não tem contato. “Eu queria falar para a minha família que eu saí dessa vida, que eu não faço uso de entorpecentes mais, que eu posso frequentar churrasco, minha família. Eu busco minha família há seis anos”, fala com lágrimas nos olhos.
O casal não sabe precisar há quanto tempo pararam de usar crack, mas garantem que “há mais de ano” buscam outra vida.

Inquérito

A Polícia Civil afirmou que o 35º Distrito Policial instaurou inquérito policial para investigar o caso. Todos os envolvidos foram ouvidos, e a polícia requisitou as imagens gravadas da ação. Também foram solicitados exames de corpo de delito para um GCM e para o vendedor ambulante.
O boletim ocorrência foi registrado como receptação, desobediência, lesão corporal, desacato e abuso de autoridade.
A corregedoria geral da GCM afirmou que vai apurar a conduta dos agentes e que eles serão afastados das atividades operacionais temporariamente.
Samir e a mulher foram acolhidos por padres da Pastoral da Rua, que encaminharam o casal para um centro de triagem da prefeitura.
Mirella Nunes, moradora de rua, casada com Samir (Foto: Gabriela Gonçalves/G1 )
Mirella Nunes, moradora de rua, casada com Samir (Foto: Gabriela Gonçalves/G1 )
Justiça
Além de retomar sua vida, o que Samir quer é saber que o guarda afastado foi punido “como uma pessoa normal”. “Não é só perder a farda dele, mas puxar uns dias de cadeia. Ficar preso numa cadeia normal. Ele me fez como um bonequinho de fantoche, me jogou na viatura, me deixou no pátio por várias horas no sol.”
Desde quarta-feira acompanhando o casal, o padre Júlio Lancelotti conseguiu atendimento e medicamentos para Samir. Ele questiona a abordagem da GCM: “Isso não é um caso isolado. Essa é a prática diária, contínua, permanente da polícia. É assim que eles agem.”
“Esse caso foi filmado, foi documentado, por isso que o delegado disse que vai até anexar as imagens ao inquérito. Os outros casos que acontecem diariamente, nessa prática cotidiana do rapa, da GCM, não são filmados. O que aconteceu com o Samir é tortura, abuso de poder e lesão corporal grave. Esse caso tem que ser ponto final nessa forma de agir em São Paulo”, afirmou o padre.
Com a ajuda de Lancelotti, Samir conseguiu conversar com o estudante que fez as imagens das agressões e com o prefeito da capital, João Doria.
Ao Marcos, ele agradeceu e até se emocionou. “Agradeci bastante e falei para que Deus abençoasse muito o caminho dele, porque se não fosse por ele, eu poderia estar em uma cela agora.”
Já o prefeito pediu desculpas pela ação dos guardas e desejou melhoras. Doria prometeu um emprego a Samir e afirmou que os pertences dele serão devolvidos.
O secretário municipal de assistência social, Filipe Sabará, fez um vídeo com Samir e Mirella, enquanto comiam no CTA, e publicou nas redes sociais. Samir garante que o secretário pediu autorização para gravar e publicar as imagens e que isso “jamais” trouxe constrangimento para ele e sua mulher.

Emprego

Há oito anos casado com Mirella, Samir tinha conseguido um emprego na véspera das agressões.
Ele estava na Avenida dos Bandeirantes quando uma camionete passou por um buraco e teve o pneu furado. Ele ofereceu ajuda ao motorista, que estava fazendo uma mudança, e ofereceu o emprego de ajudante de pedreiro.
“Eu faço de tudo. Ajudei, e ele retribuiu. Eu ia alugar um quarto e cozinha lá no Largo do Socorro. Agora, com o braço assim, são 120 dias parado.”
“Minha dor e não poder trabalhar, ficar dependendo da minha esposa agora. Eu nunca dependi dela, e ela nunca dependeu de mim. Nós dois sempre trabalhamos e nós ajudamos”, afirma Samir, que lamenta não poder dormir junto com Mirella.
Eles estão acolhidos no Centro Temporário de Acolhimento, entregue há uma semana pelo prefeito João Doria. Cada um dorme em uma ala.
“É a vida de um casal separada e mudada por causa de uma violência”, afirma Mirella.
Fonte: g1/sp
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