O dia em que Elon Musk tomou de um fotógrafo o perfil @X sem pagar nada
📋 Em resumo ▾
- O fotógrafo Gene X. Hwang registrou o nome de usuário @X no Twitter em 2007 — 15 anos antes de Elon Musk comprar a rede social
- Em julho de 2023, ao rebatizar o Twitter como X, a empresa de Musk tomou o handle de Hwang sem aviso prévio, sem negociação e sem pagamento
- Em troca de 16 anos de uso do nome, a empresa ofereceu produtos da marca e uma visita à sede — nada em dinheiro
- Dois anos depois, em outubro de 2025, a mesma empresa lançou um “mercado” oficial de nomes de usuário, vendendo handles raros por até sete dígitos em dólares
- Por que isso importa: não houve disputa formal nem decisão de terceiro neutro — a empresa usou o controle que tem sobre a própria plataforma para reatribuir a conta a si mesma, evitando justamente o tipo de arbitragem em que o registro de boa-fé de Hwang, 15 anos antes de “X” existir como marca, provavelmente pesaria a favor dele.
Em 2007, o fotógrafo americano Gene X. Hwang, cofundador do estúdio de fotografia corporativa Orange Photography, em San Francisco, registrou no Twitter o nome de usuário mais simples que existe: @X. Usava a conta para divulgar o trabalho do estúdio. Manteve o handle por 16 anos — inclusive recuperando-o de um ataque de hackers em 2014, com a própria ajuda do Twitter na época. Elon Musk só anunciaria a compra da rede social 15 anos depois, em 2022.
O dia em que a conta deixou de ser dele
Em 23 de julho de 2023, Musk anunciou que o Twitter se tornaria X — a letra favorita do bilionário, usada também em outras empresas suas, como a SpaceX. Dois dias depois, em 25 de julho, a empresa simplesmente tomou o @X de Hwang e o reatribuiu a si mesma, sem negociar antes. Segundo reportagens da época (TechCrunch, NBC News e NPR), Hwang recebeu uma carta informando que a conta “estava afiliada à X Corp.” e que ele seria realocado para um novo nome de usuário — um código numérico longo, algo como @x12345678998765.
“Talvez eu devesse pedir o passarinho da placa, já que estão desmontando ela também.”
A frase, dita por Hwang à NPR em tom de ironia sobre a logomarca do Twitter que estava sendo retirada da sede da empresa, resume bem o clima: ele não processou, não brigou publicamente — só registrou a ironia de perder, da noite para o dia, algo que construiu por 16 anos.
O que ele recebeu em troca
Nada em dinheiro. A oferta da empresa foi uma seleção de produtos da marca X e uma “visita exclusiva” à sede, com direito a reunião com a equipe de gerenciamento — Hwang já havia visitado o escritório antes, por conta própria, com amigos que trabalhavam lá. Não houve proposta de compra, não houve negociação: a conta simplesmente deixou de ser dele.
O contraste de dois anos depois
Em outubro de 2025, a mesma empresa lançou o X Handle Marketplace, um mercado oficial para redistribuir nomes de usuário inativos. Nele, handles considerados “raros” — como @Pizza, @Tom ou @One — são vendidos por valores que vão de US$ 2.500 a mais de US$ 1 milhão, dependendo da demanda e do apelo cultural do nome. Só que o acesso é restrito a assinantes dos planos pagos Premium+ ou Premium Business — e, segundo as regras divulgadas pela própria plataforma, quem cancela a assinatura perde o direito ao nome adquirido.
Ou seja: a mesma empresa que levou de um usuário comum, sem pagar nada, um nome de usuário construído ao longo de 16 anos, hoje cobra de outras pessoas — e só de quem paga mensalidade — para acessar exatamente esse tipo de ativo.
Não houve um processo formal, uma disputa, um terceiro neutro decidindo quem tinha mais direito ao nome — e é exatamente isso que torna o caso revelador. Se a questão tivesse ido parar em uma arbitragem de disputa de nomes de domínio ou de marca, o que mais pesaria seria a má-fé no momento do registro: e Hwang registrou @X em 2007, para o próprio estúdio de fotografia, 15 anos antes de “X” sequer existir como ideia na cabeça de Musk para essa empresa — o oposto exato de alguém que registra um nome de propósito para depois extorquir o futuro dono de uma marca.
Em uma disputa legítima, esse histórico provavelmente pesaria a favor dele. Só que não houve disputa nenhuma: a X Corp — a mesma Twitter Inc. renomeada, com o mesmo contrato de Termos de Uso que Hwang vinha aceitando havia 16 anos — usou o poder que tem como dona da própria plataforma para reatribuir a conta a si mesma, sem processo, sem negociação, sem terceiro decidindo. A empresa não precisou vencer uma briga sobre quem tinha mais direito ao nome — ela só precisou ser dona do sistema onde esse nome existia.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.