Poder e Bastidores

O vírus das redes sociais pode definir a política de São Paulo?

Por Lilian Carvalho*

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high angle photo of person holding turned on smartphone with tall buildings background
Photo by Jakob Owens on Unsplash

O cenário político brasileiro sempre está pronto para nos surpreender com seus novos protagonistas. Dessa vez, quem entra em cena é Pablo Marçal, o coach das massas digitais, autor de "8 Caminhos que levam à Riqueza" e, agora, candidato à prefeitura de São Paulo. Segundo o Instituto Futura Inteligência/100% Cidades, Marçal já se encontra em um surpreendente terceiro lugar nas intenções de voto, deixando para trás figuras como Datena e Tabata Amaral. 

Mas, afinal, como um novato na política consegue tal proeza? A resposta pode estar na sua prévia carreira como vendedor de sonhos digitais. Com 12,5 milhões de seguidores no Instagram e 3,24 milhões no YouTube, Marçal é praticamente um popstar das redes sociais. Nesse universo, ele é quem domina a arte de capturar e manter a atenção do público, com vídeos que não ultrapassam os sagrados 90 segundos – uma estratégia digna de um TikToker profissional.

No entanto, por trás desse sucesso, pode haver algo mais "criativo" do que a simples produção de conteúdo. No mundo online, surgem as chamadas contas "sock puppet", ou, para os íntimos, os fantoches de meia, que nada mais são do que perfis falsos criados para manipular opiniões e inflar o apoio a determinadas causas. Essa tática, claro, não é novidade, especialmente na política, onde a arte de fazer barulho virtual já foi usada e abusada por diferentes espectros ideológicos. Os MAVs (Militância em Ambiente Virtual), já nos anos 2010, trabalhavam para o partido dos trabalhadores de forma a “fazer promoção e criticar a mídia”.

Uma análise comparativa entre Marçal e Tabata Amaral, usando o software Buzzmonitor, mostra que o candidato do PRTB teve quase 17 mil menções desde o dia 09/08, com 34% de avaliações positivas. Amaral, por outro lado, teve apenas 1.900 menções, mas com 44% de positividade. Parece que, no fim das contas, a quantidade também tem seu valor.

Sem experiência em política ou apresentando de fato propostas, Marçal vai tornando todo o cenário um espetáculo, com provocações a outros candidatos, como esfregar a carteira de trabalho no rosto de Boulos, vídeo que viralizou nas redes sociais. Seu comportamento nos debates gera memes e uma grande repercussão, tanto que foi apelidado por Boulos de Padre Kelmon da eleição paulista. Rebatendo, se ofereceu para exorcizar Boulos com a carteira de trabalho. Comportamentos assim, fizeram com que seus advogados saíssem da campanha.

Espetacularizar, viralizar e deixar o caminho das propostas efetivas de lado para atacar os outros candidatos não são nenhuma novidade na política brasileira. Pelo contrário, as últimas eleições estão aí para comprovar. Marçal bate na esquerda e na direita e cresce em popularidade na imprensa tradicional e nas redes sociais.

A grande questão agora é: essa popularidade digital se converterá em votos reais? Com Marçal já figurando em terceiro lugar nas pesquisas, atrás apenas de Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL), o cenário é, no mínimo, curioso. Mas, caro eleitor, é fundamental manter os olhos bem abertos para distinguir o real do fake, afinal, ninguém quer acabar comprando gato por lebre nesta eleição.


(*) Lilian Carvalho é PhD em Marketing e coordenadora do Centro de Estudos em Marketing Digital da FGV/EAESP. É consultora de marketing digital e fundadora da Método Lumière