Operação Ifrit: por dentro da “fortaleza do crime” que blindava o tráfico na fronteira com o Paraguai
PF e Receita Federal desarticulam clã de Ponta Porã que movimentou R$ 500 milhões em 2 anos com apoio de policiais corruptos — entenda estados, alvos e esquema
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- PF e Receita Federal deflagraram a Operação Ifrit em 4 de novembro contra organização criminosa transnacional.
- 76 mandados de busca e apreensão e 26 de prisão (25 preventivas, 1 temporária) foram cumpridos em MS, SC, PR, SP, MT, GO e RO.
- Clã liderado pela família Haidar, de Ponta Porã (MS), mantinha uma “fortaleza” com blindados, drones e fuzis.
- Grupo movimentou R$ 500 milhões em 2 anos; patrimônio apreendido soma outros R$ 500 milhões, com R$ 300 milhões bloqueados.
- Esquema cooptava policiais civis, militares e um PRF; delegado afastado teria lucrado R$ 15 milhões revendendo cocaína desviada da própria polícia.
- Por que isso importa: expõe como o narcotráfico de fronteira combina tecnologia de guerra com infiltração dentro das forças de segurança do Estado.
Uma organização criminosa transnacional que transformava pontos estratégicos da fronteira entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai em verdadeiras “fortalezas do crime” — com blindados, drones, fuzis e uma rede de policiais cooptados — foi o alvo da Operação Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela Receita Federal na manhã de quarta-feira (4). A ofensiva mobilizou 450 policiais federais, 22 auditores-fiscais e sete analistas tributários da Receita Federal, e é considerada uma das maiores já realizadas contra o crime organizado na região.
Onde a operação atuou: sete estados, um núcleo na fronteira
A Justiça autorizou o cumprimento de 76 mandados de busca e apreensão e 26 mandados de prisão — 25 preventivas e um de prisão temporária — distribuídos por sete estados: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia.
O epicentro da investigação é Ponta Porã (MS), cidade de fronteira com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, onde vivia e operava o núcleo familiar que comandava o esquema. Foi também em Mato Grosso do Sul — na capital, Campo Grande — que a PF cumpriu o mandado contra o principal policial investigado, o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, e retirou de um condomínio de luxo um carro de um segundo policial alvo, Douglas Tobias. Ao todo, pelo menos 11 pessoas foram presas somente em Mato Grosso do Sul, segundo o jornal Campo Grande News.
Sobre Rondônia, é preciso uma ressalva de transparência: até a publicação desta reportagem, nenhuma fonte consultada havia divulgado o nome de um alvo especificamente vinculado ao estado. Rondônia aparece em todas as apurações apenas como o único estado da Região Norte incluído na lista de sete onde mandados foram cumpridos — descrito pela PF como um local de “ramificação” da organização —, sem detalhamento público de quem foi alcançado ali ou quantos mandados tiveram o estado como destino. Há uma coincidência que vale explicar para não gerar confusão: um dos alvos do clã, Maroan Fernandes Haidar Ahmed, esteve custodiado na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO) — mas por conta de uma condenação anterior e não relacionada à Ifrit.
O clã Haidar: a família por trás do esquema
Segundo as investigações, a organização era comandada por três irmãos e outros integrantes de uma mesma família, com base na região de fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero — um dos principais corredores de entrada de drogas e armas no Brasil.
O empresário Adel Hassan Haidar, de Ponta Porã, é apontado como o principal alvo da investigação. Ele atua oficialmente no setor de hospedagem na região, mas, segundo a PF, chefiava nas sombras o esquema familiar de tráfico internacional. Também tiveram prisão decretada seus irmãos Mamede Alhaj Haidar e Fahd Haidar, o filho de Adel, Adule Haidar, e outro parente, Maroan Fernandes Haidar Ahmed.
Maroan já responde por outro crime grave: foi condenado em janeiro de 2025 a 21 anos e seis meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Rondonópolis (MT), responsabilizado pelo homicídio de Fábio Batista da Silva, ocorrido em dezembro de 2018 durante uma discussão em um posto de combustíveis. Foi por conta dessa condenação — e não por qualquer vínculo territorial com a Operação Ifrit — que ele estava custodiado na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO) na época do julgamento.
Entre os demais nomes citados pelas investigações como alvos da ofensiva estão o paranaense Renan Braian Garcia Presotto, que já integrava a lista de procurados da Interpol por suposto envolvimento no tráfico internacional de armas, além de Bruno Banega e Brendo Benega Pereira.
A organização é apontada por investigações jornalísticas como tendo ligação com facções criminosas de atuação nacional — PCC e PGC (Primeiro Grupo Catarinense) — e, segundo o Campo Grande News, também com o traficante boliviano Jorge Granier Ruiz, conhecido como “Narcofantasma” ou “Rei dos Céus”.
A “fortaleza do crime”: blindados, drones e contrainteligência
O que diferencia a Operação Ifrit de ações anteriores contra o tráfico na fronteira é o nível de sofisticação tecnológica e militar encontrado pelos investigadores. Segundo a PF, o grupo não se limitava ao transporte de cargas: exercia domínio territorial e tático sobre pontos estratégicos da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, blindando líderes e rotas com uma estrutura logística avançada.
As investigações identificaram o uso de veículos blindados para o deslocamento de lideranças e a escolta de cargas de alto valor, drones e equipamentos de comunicação de última geração para monitorar movimentações policiais e de grupos rivais, e armamento de alto poder ofensivo — fuzis e farta munição. Para abrigar esse aparato, a organização erguia estruturas fortificadas — descritas pelas próprias investigações como “fortalezas” — com abrigos para homens fortemente armados responsáveis pela segurança de depósitos de armas e drogas. Havia ainda ações sistemáticas de contrainteligência, dedicadas a rastrear e antecipar eventuais investidas das forças de segurança estaduais e federais.
Delegado Hoffman D'Ávila, que era titular da Denar. (Foto: Madu Livramento)
Infiltração na polícia: dois nomes, duas operações em menos de dois meses
O ponto mais sensível da Operação Ifrit é a confirmação de que o esquema sobrevivia com a cooptação de agentes do Estado — policiais civis, policiais militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal (PRF) lotado em outro estado. Segundo a PF, eles atuavam como facilitadores: repassavam informações privilegiadas sobre operações iminentes, rotas de fiscalização e investigações em andamento, além de prestar apoio logístico direto para assegurar o livre trânsito dos comboios criminosos pela região.
Em Mato Grosso do Sul, ao menos três policiais civis foram alvos diretos da ação judicial e tiveram suas funções afastadas:
- Delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa: ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) e do Grupo de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras), em Campo Grande. Segundo apuração do jornal Midiamax, ele teria revendido cerca de 2 toneladas de cocaína desviadas do próprio depósito do Denar, cobrando entre R$ 8.500 e R$ 10.500 por quilo — um lucro estimado em R$ 15 milhões. Hoffman já estava preso desde 24 de setembro, em decorrência da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). Com a Ifrit, é a segunda vez em menos de dois meses que ele é alvo de uma ação judicial; com o novo mandado, foi transferido para uma penitenciária federal.
- Douglas Tobias, policial civil, também alvo da Operação Infiltrados em setembro: a PF retirou um Mustang de sua propriedade de um condomínio de luxo nesta quarta-feira.
- Andrey Elesbão Silva, terceiro policial civil preso, lotado no Goi (Grupo de Operações e Investigações) e que, segundo apuração do Campo Grande News, não tinha envolvimento anterior com infrações penais.
Diante do mandado cumprido contra o delegado Hoffman, a reportagem do Midiamax ouviu a defesa, representada pelos advogados José Roberto Rodrigues da Rosa, João Pedro da Silva Fialho, Lucas de Nobrega Fuzinatto e Jakson Gomes Yamashita, que, em nota, afirmou:
“O Delegado Hoffman já se encontrava submetido a custódia cautelar em razão de outro procedimento e, após o cumprimento da nova ordem judicial, foi encaminhado à unidade prisional competente. Até o presente momento, a Defesa não obteve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova prisão preventiva, tampouco ao conjunto de elementos probatórios que embasaram as medidas cumpridas nesta operação. Por essa razão, qualquer manifestação sobre o mérito das novas imputações seria prematura e incompatível com o exercício responsável da defesa técnica. (...) A Defesa reitera que prisões cautelares e medidas investigativas não representam juízo definitivo de responsabilidade penal, devendo os fatos ser examinados no devido processo legal e à luz das provas efetivamente produzidas.”
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS), consultada pela reportagem, informou que não teve nenhum policial militar preso na operação e afirmou atuar “pelos princípios da legalidade, da ética e da responsabilidade institucional, reafirmando seu compromisso com o cumprimento da legislação e com os valores que norteiam a atividade policial militar.” Não há, até a publicação, posicionamento público disponível das defesas do clã Haidar, de Andrey Elesbão Silva, ou dos demais nomes citados pela investigação.
As rotas: da Bolívia à Europa
As investigações mostram que a organização não se limitava ao mercado interno. Armas e drogas eram adquiridas na Bolívia, no Peru e no Paraguai, entrando no Brasil pela rota de Ponta Porã/Pedro Juan Caballero. A partir daí, abasteciam tanto redes de distribuição dentro do país quanto rotas de tráfico internacional de entorpecentes com destino à Europa — especialmente Espanha e Portugal.
Além do tráfico, o grupo é investigado por lavagem de dinheiro e por uma série de crimes violentos usados para manter o controle territorial e intimidar rivais: sequestros, torturas, atentados e homicídios.
O patrimônio: meio bilhão movimentado, meio bilhão apreendido
Segundo as apurações, o grupo movimentou mais de R$ 500 milhões em dois anos. Os bens apreendidos pela Operação Ifrit somam outros R$ 500 milhões: um haras de luxo, seis fazendas com mais de 5 mil hectares distribuídas entre Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas, cerca de 160 imóveis, mais de 150 veículos, lanchas, cavalos de raça, um relógio Rolex, dinheiro em espécie e armamento. Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 300 milhões em contas de 170 pessoas e empresas ligadas à organização.
É importante separar, neste caso, o que já é fato apurado do que ainda é imputação sob investigação. A venda de cocaína desviada e o lucro de R$ 15 milhões atribuídos ao delegado Hoffman, por exemplo, são resultado de apuração em andamento — não de uma sentença judicial transitada em julgado. Da mesma forma, os 26 mandados de prisão cumpridos contra integrantes do clã Haidar e os policiais civis são medidas cautelares, que pressupõem risco à investigação ou à ordem pública, e não equivalem a condenação: a responsabilidade penal de cada investigado só será estabelecida, em definitivo, ao fim do devido processo legal, com direito a contraditório, ampla defesa e eventual recurso.
A única condenação definitiva mencionada nesta reportagem é a de Maroan Fernandes Haidar Ahmed, por homicídio — um processo concluído em 2025, distinto e anterior à Operação Ifrit.
Com os desdobramentos ainda em curso, a Polícia Federal deve seguir avançando sobre a estrutura financeira do grupo e sobre a extensão da infiltração policial identificada na operação.
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