Delação de ex-diretor da Americanas aponta conivência de bancos em fraude bilionária
Fabio Abrate acusa Itaú e Santander de facilitarem esquema de 'risco sacado' que maquiou dívidas da empresa
O depoimento de Fabio Abrate, ex-diretor financeiro e de relações com investidores da Americanas, em sua delação premiada ao Ministério Público Federal (MPF), é uma bomba de efeito retardado no mercado financeiro brasileiro. Abrate, o terceiro ex-executivo da varejista a colaborar com as autoridades, acusou grandes bancos, como Itaú e Santander, de terem desempenhado um papel ativo na ocultação de dívidas da empresa, especialmente por meio de operações de risco sacado.
Esse mecanismo, segundo ele, foi o principal instrumento usado para maquiar os balanços da Americanas, resultando em um rombo estimado em R$ 25,3 bilhões, que levou a companhia à recuperação judicial em 2023.
De acordo com Abrate, as operações de risco sacado — originalmente uma ferramenta legítima para antecipar pagamentos a fornecedores via empréstimos bancários — foram “desvirtuadas” ao longo do tempo com o consentimento dos bancos. “As operações de risco sacado, ao longo do tempo, foram sendo desvirtuadas pela Americanas, com o consentimento dos bancos”, afirmou ele, conforme registrado na denúncia do MPF.
O ex-diretor detalhou que Itaú e Santander, em especial, omitiram informações cruciais nas cartas de circularização enviadas às auditorias, permitindo que as dívidas reais da empresa permanecessem fora dos registros contábeis. “O banco não apontar na carta de circularização foi decisivo para a perpetuação da fraude”, destacou Abrate.
A proximidade entre a Americanas e os bancos também foi exposta. Abrate revelou que as negociações com o Itaú eram conduzidas diretamente com altos executivos da instituição, sugerindo um nível de conivência que vai além de uma relação comercial padrão.
Ele chegou a relatar uma pressão explícita: “A minha conversa com os dois bancos foi muito simples, ou tira (da carta de circularização), ou a gente para de fazer operação (de risco sacado)”. Para Abrate, se os bancos tivessem interrompido as operações ou sinalizado as dívidas, o esquema teria sido descoberto antes de alcançar proporções catastróficas.
O contexto da fraude
O escândalo da Americanas veio à tona em janeiro de 2023, quando a empresa anunciou “inconsistências contábeis” de R$ 20 bilhões, cifra que mais tarde foi revisada para R$ 25,3 bilhões. Investigações da Polícia Federal (PF) e do MPF apontaram que a fraude era sistemática e ocorria há pelo menos uma década, envolvendo manipulação de balanços por meio de operações de risco sacado e registros fictícios de verbas de propaganda cooperada (VPC).
O ex-CEO Miguel Gutierrez, que liderou a companhia por 20 anos até dezembro de 2022, foi denunciado como o principal articulador do esquema, com ascendência sobre outros 12 ex-executivos acusados pelo MPF em 31 de março de 2025.
A delação de Abrate se soma às colaborações de Flávia Carneiro, ex-superintendente de controladoria, e Marcelo Nunes, ex-diretor financeiro, que já haviam detalhado o funcionamento da fraude. Segundo Carneiro, as metas financeiras da empresa eram irreais e ajustadas artificialmente para atender às expectativas do mercado, enquanto Nunes relatou tentativas frustradas de reduzir as irregularidades durante a pandemia. Juntos, os depoimentos reforçam a tese de que a Americanas operava uma “contabilidade paralela” para enganar investidores e credores.
A reação dos bancos
O Itaú Unibanco respondeu às acusações em nota publicada em 1º de abril de 2025, negando qualquer participação na fraude. “O banco sempre prestou às auditorias e aos reguladores informações corretas e completas sobre as operações contratadas pela empresa, conforme legislação vigente e melhores práticas de mercado”, afirmou. O banco destacou que os informes enviados às auditorias alertavam sobre as operações de risco sacado e que os diretores da Americanas tentaram, sem sucesso, alterar esses documentos. “O Itaú nunca concordou com esse pedido e, inclusive, interrompeu, por mais de 6 meses, as operações de risco sacado”, completou.
O Santander, por sua vez, também se defendeu, afirmando ser vítima do esquema. Em nota ao portal SpaceMoney, o banco declarou que “repudia veementemente qualquer insinuação contrária à lisura de sua relação com a Americanas” e que “sempre informou integralmente os saldos das operações no Sistema Central de Risco do Banco Central”. A instituição reforçou que a responsabilidade pelas inconsistências contábeis é exclusiva da antiga diretoria da varejista.
Impactos e desdobramentos
O caso Americanas já é visto como um divisor de águas na governança corporativa brasileira. Além do processo de recuperação judicial, que envolve dívidas de R$ 50 bilhões e um plano de aporte de R$ 24 bilhões (R$ 12 bilhões dos acionistas de referência Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, e R$ 12 bilhões dos bancos credores), a fraude desencadeou uma série de ações judiciais e investigações. Em junho de 2024, a Operação Disclosure da PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra ex-executivos, incluindo Gutierrez, que foi incluído na lista da Interpol após deixar o país.
Para analistas do mercado financeiro, as revelações de Abrate podem pressionar os bancos a revisar suas práticas de risco e compliance. “O envolvimento de instituições financeiras em um escândalo desse porte levanta dúvidas sobre a robustez dos controles internos e a transparência nas relações com clientes corporativos”, escreveu o portal InfoMoney em análise recente. Já a Exame apontou que o caso pode acelerar mudanças regulatórias, como o projeto de lei do senador Sergio Moro para incentivar denúncias em crimes financeiros.
Enquanto o MPF avança nas investigações, o mercado aguarda os próximos capítulos dessa saga. A delação de Abrate, com sua carga de nitroglicerina, promete manter o caso Americanas no centro das atenções — e das manchetes.
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Fontes Consultadas:
O Globo - “A explosiva delação premiada do ex-diretor financeiro da Americanas envolve grandes bancos”
Link: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/04/01/a-explosiva-delacao-premiada-do-ex-diretor-financeiro-da-americanas-envolve-grandes-bancos.ghtmlInfoMoney - “MPF denuncia 13 ex-executivos da Americanas por fraude de R$ 25 bilhões”
Link: https://www.infomoney.com.br/mercados/mpf-denuncia-13-ex-executivos-da-americanas-por-fraude-de-r-25-bilhoes-diz-jornal/SpaceMoney - “Americanas (AMER3): Itaú e Santander consentiram com fraude, diz delator”
Link: https://www.spacemoney.com.br/americanas-amer3-itau-e-santander-consentiram-com-fraude-diz-delator-mpf-afirma-que-numeros-foram-manipulados-38-vezes/Exame - “Meio bilhão bloqueado e pedido de prisão do ex-CEO da Americanas: o que se sabe sobre a operação da PF”
Link: https://exame.com/negocios/meio-bilhao-bloqueado-e-pedido-de-prisao-do-ex-ceo-da-americanas-o-que-se-sabe-sobre-a-operacao-da-pf/Valor Econômico - “MPF denuncia 13 ex-executivos da Americanas”
Link: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/03/31/mpf-denuncia-13-ex-executivos-da-americanas.ghtml