Papa Leão XIV chega à França e critica "morte programada" e IA
Em visita de Estado de quatro dias, a primeira de um papa desde 2008, Leão XIV defende a vida, alerta para a inteligência artificial e redefine o debate sobre laicidade
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- O papa Leão XIV começou nesta sexta-feira (25) uma visita de quatro dias à França, com passagens por Paris, Lourdes e Metz.
- É a primeira visita oficial de um papa ao país desde Bento XVI, em 2008. Francisco nunca foi a Paris como papa.
- No primeiro discurso, no Palácio do Eliseu, Leão XIV alertou para um "paraíso das máquinas", criticou a "morte programada" e defendeu uma "verdadeira laicidade" que não exclua a religião.
- Por que isso importa: a visita põe o primeiro papa americano no centro dos debates europeus sobre IA, fim da vida, imigração e multilateralismo, em um momento de guerra e de enfraquecimento de organismos internacionais
O papa Leão XIV chegou nesta sexta-feira (25) a Paris para uma viagem de quatro dias pela França, que vai até segunda-feira (28) e passa por Paris, Saint-Denis, Lourdes e Metz. É a primeira visita de Estado de um papa ao país desde Bento XVI, em setembro de 2008. O presidente Emmanuel Macron recebeu o pontífice no aeroporto de Orly, e sinos de igrejas de toda a França tocaram no momento do pouso.
Segundo a agência AP, mais de um milhão de pessoas devem acompanhar o papa ao longo da visita.
O primeiro discurso: IA, vida e laicidade
No Palácio do Eliseu, diante de Macron, de autoridades e do corpo diplomático, Leão XIV fez um discurso centrado na dignidade humana. Ele abriu lembrando as origens da própria família na Normandia e em Béarn, regiões da França.
Sobre inteligência artificial, tema de sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, o papa retomou uma expressão do escritor francês Georges Bernanos. Segundo o texto oficial em português, é preciso agir "para não perdermos a nossa humanidade no meio do 'paraíso das máquinas', que invade e condiciona o nosso quotidiano".
Em seguida, o papa listou tendências que, segundo ele, transformam a ciência e a tecnologia em "empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada". A France 24 interpretou o trecho como uma crítica às leis de morte assistida. O papa, porém, não mencionou nenhuma lei específica no discurso.
Sobre a laicidade, princípio central da República francesa, Leão XIV afirmou que "o cristão envolvido na vida pública, agindo à luz da sua consciência iluminada pela fé, não pode ser considerado um proselitista ou uma ameaça à unidade da pátria". Na versão oficial em inglês, ele diz que a verdadeira laicidade não exclui a religião da esfera pública nem da educação, e busca o diálogo entre Estado e instituições religiosas em favor do bem comum. A France 24 lembra que, nos últimos anos, políticos franceses invocaram a laicidade para justificar proibições de símbolos religiosos, inclusive de trajes de mulheres muçulmanas, em espaços públicos e escolas.
Paz, armas nucleares e Europa
Na parte final, o papa falou de guerra e desarmamento. Citou a encíclica Pacem in Terris, de João XXIII, e criticou a crença de que possuir armas nucleares garante segurança, que, segundo ele, alimenta "uma nova corrida ao armamento dificilmente controlável".
"A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça." — Papa Leão XIV, no Palácio do Eliseu
O papa pediu que a França continue a ser "uma artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da nossa querida Europa".
A agenda: de Notre-Dame a Metz
Sexta (25), Paris e Saint-Denis: depois do Eliseu, a agenda prevê discurso na sede da UNESCO às 14h30 (horário local), desfile de papamóvel, Vésperas na Catedral de Notre-Dame às 17h30 e, à noite, uma vigília com jovens no Stade de France. Segundo a EWTN, cerca de 80 mil jovens são esperados no estádio.
Sábado (26), Paris: o papa visita a Maison Bakhita, centro da Arquidiocese de Paris que atende migrantes e refugiados. Depois, encontra catecúmenos (adultos que se preparam para o batismo) e recém-batizados no Instituto Católico de Paris, e celebra missa na Place de la Concorde antes de voar para Lourdes. A prefeitura de polícia de Paris estima até 250 mil pessoas ao longo do trajeto do papa pela cidade.
Domingo (27), Lourdes: missa no santuário mariano, na esplanada em frente à Gruta das Aparições. Também está previsto um encontro com sete vítimas de abuso sexual na Igreja. Entre elas está um ex-aluno da escola católica Notre-Dame de Bétharram, no sudoeste da França, onde mais de 230 vítimas registraram queixas em 2024 por castigos físicos e abusos sexuais.
Segunda (28), Metz: a última etapa tem como tema a paz na Europa. A região da Mosela foi palco de guerras e depois símbolo da reconciliação franco-alemã, e está ligada a Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia. A agenda inclui conferências sobre "as raízes da Europa para a paz e a unidade", desfile de papamóvel e uma celebração com homilia na Catedral de Saint-Étienne. O retorno a Roma está marcado para as 19h.
Por que esta visita importa
Para a Igreja na França. Francisco esteve em Estrasburgo (2014), Marselha (2023) e Córsega (2024), mas nenhuma dessas viagens foi uma visita oficial de Estado. Ele também não participou da reabertura de Notre-Dame, em dezembro de 2024. Leão XIV atende a um convite feito em conjunto pelos bispos franceses, por Macron e pelo diretor-geral da UNESCO. Pelas regras da visita, o Estado francês paga a segurança, e a Igreja paga os eventos religiosos com doações dos fiéis.
Para a UNESCO e o multilateralismo. A visita acontece meses antes de dois países-membros, entre eles os Estados Unidos, deixarem a organização em 31 de dezembro. O diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany, disse à AFP que a visita é uma mensagem política em defesa do multilateralismo. O detalhe tem peso: Leão XIV é americano e vai à UNESCO no momento em que o governo de seu país sai dela.
Para Macron. O presidente não pode disputar um terceiro mandato na eleição de maio, e sua aprovação está perto de mínimas históricas, segundo a AP. O historiador Charles Mercier, da universidade parisiense EPHE, avaliou à AP que é comum um presidente em fim de mandato buscar estar ao lado do papa e aproveitar parte de sua popularidade.
Para o próprio papa. Nascido Robert Francis Prevost, Leão XIV tem raízes francesas: segundo a Diocese de Metz, sua avó paterna nasceu no Havre, e seu pai participou do desembarque na Normandia em junho de 1944.
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