Paula Belmonte na Record: propostas de saúde digital e educação integral
Candidata do PSDB ao governo do Distrito Federal defende contratação de mais médicos, prontuário único digital, educação integral e integração das forças de segurança em entrevista ao Balanço Geral
📋 Em resumo ▾
- A candidata Paula Belmonte (PSDB) ao governo do Distrito Federal participou de sabatina no programa Balanço Geral, da TV Record, em 24 de agosto de 2026
- Belmonte defendeu a contratação de mais médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem para a rede de saúde do DF, além da digitalização do prontuário único para integrar UPAs, hospitais e UBSs
- Sobre educação, afirmou que 78% das escolas do DF não possuem refeitório e propôs educação integral e o retorno das escolas profissionalizantes gratuitas
- Em segurança pública, criticou a falta de integração entre PCDF e PMDF, que operam com sistemas diferentes, e defendeu mais efetivo nas ruas aliado à tecnologia
- A candidata pautou a campanha na "dignidade humana" e em sua trajetória como mãe de seis filhos e ex-deputada federal, com atuação na CPI do BNDES
- Por que isso importa: A sabatina expõe como uma candidata de centro-direita tenta se diferenciar em uma eleição fragmentada no DF, onde a governadora Celina Leão (PP) lidera as pesquisas com 34% e Belmonte precisa conquistar espaço entre eleitores insatisfeitos com a gestão atual
A candidata do PSDB ao governo do Distrito Federal, Paula Belmonte, participou nesta segunda-feira (24 de agosto de 2026) de sabatina no programa Balanço Geral, da TV Record, onde detalhou propostas nas áreas de saúde, educação e segurança pública. Definindo a "dignidade humana" como a "grande força" de seu plano de governo, a deputada distrital — que já foi deputada federal (2019–2023) e atuou na CPI do BNDES — propôs contratação massiva de profissionais de saúde, digitalização do prontuário único, educação integral e integração das forças de segurança do DF, em uma performance que busca projetá-la como alternativa viável em uma disputa onde a governadora Celina Leão (PP) lidera as intenções de voto.
Saúde: mais profissionais e o prontuário que "não conversa"
O eixo central da fala de Paula Belmonte na sabatina foi a saúde pública do DF. A candidata foi categórica sobre o déficit de profissionais: "Precisamos da contratação de mais médicos, de enfermeiros e mais técnicos de enfermagem. Uma saúde que cuide de verdade. Para que a população receba os devidos cuidados, ela precisa entrar nos hospitais e encontrar uma equipe médica adequada", afirmou.
A proposta de contratação massiva chega em um momento em que o DF enfrenta uma crise recorrente de falta de leitos e profissionais. O governo Ibaneis Rocha (MDB) — do qual a atual governadora Celina Leão (PP) foi vice — decretou situação de emergência na saúde em janeiro de 2019, logo no início do mandato, citando "falta de leitos e de profissionais, armazenamento inadequado de medicamentos e cabeamentos de internet e de energia expostos" como questões recorrentes em todos os hospitais.
Belmonte foi além e propôs uma gestão da saúde integrada à tecnologia, com destaque para a digitalização do prontuário único. "Uma UPA quando faz um prontuário não fala com um hospital ou com uma UBS. Essa integração, o prontuário único é fundamental", disse, acrescentando que "isso já é possível com a utilização de sistemas já disponíveis".
A crítica à fragmentação do sistema de saúde é tecnicamente embasada. A Lei 13.787/2018, sancionada em dezembro de 2018, dispõe sobre a digitalização e a utilização de sistemas informatizados para a guarda, o armazenamento e o manuseio de prontuários de pacientes, permitindo o descarte de documentos originais desde que os arquivos digitalizados sejam encriptados e assinados digitalmente.
No entanto, a integração efetiva entre diferentes níveis de atenção — UPAs, hospitais de referência e UBSs — continua sendo um desafio no DF e em todo o Brasil. O Ministério da Saúde reconhece que o prontuário eletrônico é uma ferramenta que "facilita o compartilhamento das informações entre profissionais", mas a implementação depende de investimentos em infraestrutura de TI, padronização de sistemas e capacitação de equipes — áreas onde o DF historicamente acumula déficits.
Educação: 78% das escolas sem refeitório e o retorno das profissionalizantes
Na área da educação, Belmonte elegeu dois dados de impacto. O primeiro: 78% das escolas do DF não possuem refeitório. "Nossas crianças, jovens e adultos estão comendo dentro da sala de aula ou pelos corredores da escola. Precisamos fazer com que a educação seja estruturada", pontuou.
O dado da candidata é superior ao registrado no Censo Escolar de 2022, que apontou que, das 700 escolas do DF, 490 (70%) não possuem refeitório. A diferença pode indicar uma atualização estatística mais recente ou um arredondamento da candidata para efeito de campanha. O dado do censo, no entanto, já havia sido utilizado pelo Ministério Público de Contas do DF em audiência pública de 2024, quando o promotor Marcos Felipe Pinheiro questionou: "Onde os alunos comem, deputada?"
A candidata também propôs educação integral, com a ressalva de que "isso não é apenas aumentar o horário da criança na escola. É aumentar a qualidade do ensino e das instituições". A proposta ecoa o modelo de escolas em tempo integral, que tem sido adotado em diversos estados brasileiros, mas que no DF enfrenta resistência por questões orçamentárias e de infraestrutura.
Outra promessa foi o retorno das escolas profissionalizantes de forma gratuita. "Eu sou fruto de escola pública. Essas escolas existiam na minha época e deixaram de existir ao longo do tempo. Nós vamos trazer esse ensino de volta", assegurou. A afirmação remete à história do Centro Federal de Educação Tecnológica de Brasília (CEFET-DF), que em 2008 foi transformado no Instituto Federal de Brasília (IFB), ampliando a oferta de ensino técnico e superior, mas em uma estrutura diferente das tradicionais escolas profissionalizantes. A proposta de Belmonte sugere uma revisão desse modelo ou a criação de novas unidades focadas em formação técnica de nível médio.
"Nossas crianças, jovens e adultos estão comendo dentro da sala de aula ou pelos corredores da escola."
— Paula Belmonte, candidata do PSDB ao governo do DF, durante sabatina na TV Record.
Segurança: integração entre PCDF e PMDF e o medo nas ruas
O terceiro eixo da sabatina foi a segurança pública. Belmonte afirmou que "não tem como fazer segurança pública se não tivermos todo o contingente de policiamento" e destacou a falta de integração entre as forças de segurança do DF. "Eles não conversam. Muitas vezes a PCDF tem um sistema, a PMDF outro. No DF, já existem organizações criminosas e só vamos resolver isso com efetivo na rua e com tecnologia", disse.
A crítica à fragmentação dos sistemas de informação entre Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) é uma queixa recorrente de especialistas em segurança pública. A falta de interoperabilidade dificulta o compartilhamento de dados em tempo real, a análise de inteligência criminal e a coordenação de operações integradas — problemas que se agravam em um território como o DF, onde o crime organizado tem se expandido para o Entorno.
Belmonte usou uma narrativa pessoal para ilustrar o problema: "Como deputado distrital, tive a oportunidade de fazer diversas audiências públicas pelo DF. As mães conversavam comigo e falavam que queriam deixar os filhos andarem nas ruas sem ter o risco de ter o tênis roubado". A estratégia de humanizar a segurança pública por meio do relato de mães e do medo cotidiano é uma tática comum em campanhas eleitorais, mas que no caso de Belmonte ganha peso por sua atuação na Procuradoria Especial da Mulher (PEM) na Câmara Legislativa do DF.
A candidata e o cenário eleitoral: onde Paula Belmonte se encaixa?
Paula Belmonte, de 52 anos, administradora de formação, mãe de seis crianças e iniciada na política após a morte do filho Arthur, de dois anos, chega à disputa de 2026 com uma trajetória híbrida: foi deputada federal (2019–2023) pelo PSDB, conquistando projeção nacional na CPI do BNDES, e atualmente ocupa o primeiro mandato como deputada distrital, onde é 2ª vice-presidente da CLDF e procuradora-adjunta na PEM.
O cenário eleitoral no DF é desafiador para a candidata. Pesquisas de agosto de 2026 mostram a governadora Celina Leão (PP) liderando com 34% das intenções de voto, seguida pelo ex-governador José Roberto Arruda (PSD) com 22%. Belmonte aparece em posição intermediária, competindo com nomes como Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB) e Kiko Caputo (Novo) pelo eleitorado de oposição e centro.
A escolha do PSDB para a disputa é significativa. O partido, que já governou o DF com Joaquim Roriz e teve forte presença com Rodrigo Rollemberg, busca reconstruir sua base após anos de erosão nacional. Belmonte representa a ala tucana mais próxima das pautas sociais — infância, mulher, educação —, o que a diferencia de Celina Leão, mais alinhada ao centrão e ao governo federal.
Sabatina
A sabatina de Paula Belmonte na Record ocorre em um momento em que o DF vive uma transição política complexa. A governadora Celina Leão assumiu o cargo em março de 2026, após a renúncia de Ibaneis Rocha (MDB), que deixou o governo para concorrer ao Senado — e acabou desistindo da política em julho. A sucessão não foi tranquila: Celina herdou uma máquina pública com problemas estruturais em saúde, educação e segurança, além de uma dívida pública crescente.
A saúde do DF, em particular, é um campo minado eleitoral. O decreto de emergência de 2019, embora tenha permitido contratações temporárias e compras sem licitação, não resolveu o déficit estrutural de profissionais. A pandemia de Covid-19 aprofundou a crise, e a recuperação tem sido lenta. A proposta de Belmonte de digitalizar o prontuário único soa como uma solução técnica elegante, mas esbarca na realidade de um sistema onde muitas unidades ainda operam com registros em papel e onde a conectividade de internet é precária em regiões periféricas.
Na educação, o dado das escolas sem refeitório é sintomático de um problema maior: a infraestrutura escolar do DF, embora superior à média nacional em alguns indicadores, apresenta lacunas graves em espaços físicos adequados para alimentação, atividades físicas e laboratórios. O Censo Escolar de 2022 também apontou que 58,6% das escolas necessitam de intervenção de engenharia na cozinha e 59,79% não possuem quantidade adequada de equipamentos e utensílios.
A segurança pública, por sua vez, é o tema onde a gestão atual mais investiu — com a criação do Gabinete de Gestão Integrada (GGI) e operações conjuntas —, mas onde os resultados ainda não se traduziram em sensação de segurança para a população. O DF registra taxas de homicídio inferiores à média nacional, mas o Entorno e as cidades-satélite mais pobres concentram violência e vulnerabilidade.
A sabatina de Paula Belmonte na TV Record não trouxe propostas revolucionárias — e talvez não precisasse. Em uma campanha onde a governadora Celina Leão tenta se projetar como gestora experiente e José Roberto Arruda busca ressuscitar uma carreira política interrompida pelo Mensalão do DEM, Belmonte aposta em uma narrativa de proximidade, técnica e sensibilidade social.
O problema é que "dignidade humana", o eixo central de seu discurso, é um conceito tão amplo que pode significar tudo — e, portanto, quase nada. Contratar mais médicos é dignidade? Sim. Digitalizar prontuários é dignidade? Também. Mas sem números, prazos e fontes de financiamento, as propostas correm o risco de se tornarem mais uma lista de desejos do que um plano de governo executável.
A pergunta que fica é se o eleitor do DF está disposto a apostar em uma candidata que promete cuidado onde a máquina pública tem falhado — ou se preferirá a continuidade de uma gestão que, apesar dos problemas, oferece a ilusão de previsibilidade. A eleição de 2026 no DF não será decidida por quem tem a melhor proposta de prontuário eletrônico. Será decidida por quem conseguir convencer o eleitor de que, desta vez, a dignidade não ficará apenas no discurso.
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