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PF liga Ibaneis Rocha a negociação do BRB com o Banco Master

Mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas pelo UOL mostram o ex-governador do DF acompanhando de perto a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB; defesa nega irregularidade

PF liga Ibaneis Rocha a negociação do BRB com o Banco Master
📷 Renato Alves / Agência Brasília
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  • Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) mostram que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) acompanhou todas as etapas da tentativa de o BRB (Banco de Brasília) adquirir o Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
  • Em pelo menos dez ocasiões, o motorista de Vorcaro entregou encomendas a um homem identificado como “Léo” ou “Dr. Léo” — que a PF suspeita ser o empresário Leonardo Valverde, descrito nas mensagens como braço direito de Ibaneis.
  • Em proposta de delação premiada ainda não aceita pela Justiça, Vorcaro afirma que Ibaneis exigiu R$ 400 milhões em propina para viabilizar o negócio, metade em espécie e metade via contrato fictício.
  • A defesa de Ibaneis, pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), nega irregularidade e diz que o governador apenas dava liberdade de atuação ao então presidente do BRB.
  • Por que importa: o BC acabou vetando a operação e liquidando o Master em novembro, mas o episódio levanta suspeita de uso de banco público em negociação com interesses privados obscuros.
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A Polícia Federal extraiu mensagens que mostram o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) acompanhando, etapa por etapa, a tentativa frustrada de o BRB comprar o Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Os diálogos, revelados pelo UOL, abrangem desde o aumento de capital do banco público até a venda de carteiras de crédito entre as duas instituições — negócio que o Banco Central acabou vetando em setembro, levando à liquidação do Master dois meses depois.

As entregas ao “Dr. Léo”

Segundo as mensagens, em pelo menos dez ocasiões entre novembro de 2024 e agosto de 2025 o motorista de Vorcaro entregou encomendas na casa do banqueiro em Brasília a um homem chamado “Léo” ou “Dr. Léo” — que a PF suspeita, mas ainda não confirma com certeza, tratar-se do empresário Leonardo Valverde, apontado nas mensagens como braço direito de Ibaneis. Em dezembro de 2024, o motorista avisou Vorcaro que Léo havia ligado para buscar “todas as encomendas”. Procurado pela reportagem, Valverde não respondeu.

O que diz a delação de Vorcaro

É preciso marcar com clareza o grau de certeza desse trecho: as informações a seguir vêm de uma proposta de delação premiada de Vorcaro, que até agora não foi aceita pela Justiça — ou seja, são alegações do próprio delator, não fatos comprovados. Segundo esse relato, Ibaneis teria exigido propina logo após o primeiro encontro com Vorcaro, em setembro de 2024, em acerto fechado com Valverde na casa do banqueiro em Brasília. O valor combinado seria R$ 400 milhões após a fusão dos bancos: metade em espécie, metade via contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo governador. Ibaneis também ficaria com 5% do banco resultante, por meio de uma empresa de fachada, segundo a delação.

Vorcaro afirma ter adiantado cerca de R$ 80 milhões em espécie, entregues por seu motorista a Valverde. Diz ainda que as provas dessas entregas estariam em mensagens de seu celular e que o contrato com o escritório de advocacia nunca chegou a ser pago, porque o Banco Central vetou a operação antes.

“Se for pra cair vamos cair juntos” — Daniel Vorcaro, em mensagem a Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, segundo documentos obtidos pela PF e revelados pelo UOL.

Os contatos que começaram em 2024

O relacionamento entre Ibaneis e Vorcaro começou em 18 de setembro de 2024, em almoço na casa do banqueiro em Brasília, organizado por Thiago Claudino, então assessor do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Participaram também o filho do governador, Caio Rocha, o secretário de Economia do DF, Ney Ferraz, William Guimarães — chamado por Claudino de “sócio do gov” — e Leonardo Valverde. Uma semana depois houve novo jantar, com a presença de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, que já conhecia Vorcaro havia meses por intermediação do presidente do União Brasil, Antônio Rueda.

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No dia desse segundo encontro, Ibaneis autorizou o BRB a seguir com aumento de capital de R$ 500 milhões — primeiro passo, segundo o governador, para a venda do banco público ao Master. Em outubro, o valor subiu para R$ 750 milhões, também com aval de Ibaneis. O BRB passou a comprar carteiras de crédito consignado do Master, somando R$ 9,5 bilhões até fevereiro de 2025.

Em janeiro de 2025, Ibaneis e Vorcaro se encontraram em Zurique, na Suíça, em evento do grupo Lide, para discutir a possibilidade de o BRB comprar integralmente o Master. Em fevereiro, a diretoria do banco formalizou internamente o chamado “Projeto Vértice”. Em março, segundo as mensagens, Ibaneis estava “impaciente com o prazo”; no fim do mês, o BRB anunciou a compra de 58% do Master, e o governador ligou para Vorcaro no mesmo dia. Em agosto, voltou a ligar por três vezes na semana em que a Câmara Legislativa do DF votou a operação.

A crise da Tirreno e a queda do negócio

O negócio começou a desmoronar um mês depois do anúncio da compra. Em abril de 2025, a equipe do BRB não conseguiu acessar dados de carteiras de crédito consignado vendidas pelo Master — originadas, segundo a PF, por uma promotora de crédito chamada Tirreno, da qual parte das operações não correspondia a empréstimos reais, pois nenhum cliente teria tomado aquele crédito.

“Nós compramos aquelas carteiras de boa fé” — Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, em mensagem a Daniel Vorcaro, segundo documentos obtidos pela PF.

Em setembro, com o caso já no Banco Central, ainda faltavam R$ 2,1 bilhões em ativos a serem repostos. O BC vetou a operação naquele mês; em novembro, liquidou o Master e Vorcaro foi preso. A PF também aponta que Paulo Henrique teria recebido, como forma de propina, seis apartamentos de alto padrão avaliados em R$ 146,6 milhões comprados pelo Master — ele iria morar em um deles.

O que dizem as defesas

A defesa de Ibaneis, pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que não vai comentar “uma delação que não foi aceita por não ter um fiapo de prova” e sustenta que os fatos demonstram que o governador apenas dava liberdade de atuação ao então presidente do BRB, sem participar das decisões do banco. Leonardo Valverde, procurado, não respondeu.

Até aqui, não há denúncia formal, indiciamento ou condenação contra Ibaneis Rocha no caso — há mensagens que mostram acompanhamento próximo da operação pelo então governador, e uma delação premiada do outro lado da negociação que ainda não foi homologada pela Justiça. A distinção entre o que está documentado em mensagens e o que é alegação de um delator interessado em colaborar com a investigação é o que define, por ora, os limites do que se sabe sobre o episódio.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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