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Pobreza na Argentina atinge 44,5% das crianças no 1º semestre de 2026

Dado oficial do INDEC mostra alta de 4,1 pontos em seis meses, desemprego no maior nível desde 2021 e desgaste de Milei entre os eleitores mais pobres

Pobreza na Argentina atinge 44,5% das crianças no 1º semestre de 2026
📷 Reprodução YT
📋 Em resumo ▾
  • A pobreza na Argentina subiu de 28,2% para 32,3% da população urbana entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro de 2026, segundo o INDEC.
  • A indigência passou de 6,3% para 7,5%, e 44,5% das crianças de até 14 anos vivem em lares pobres.
  • A UCA projeta que a pobreza pode chegar a 35% no fim do ano. O desemprego está em 7,9%, o maior desde 2021.
  • Por que isso importa: é a primeira alta depois de três semestres seguidos de queda, e acontece no momento em que Milei perde apoio justamente entre os mais pobres, a um ano da eleição de 2027.
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A pobreza na Argentina atingiu 32,3% das pessoas no primeiro semestre de 2026, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), o órgão oficial de estatísticas do país. No segundo semestre de 2025, o índice era de 28,2%. A alta de 4,1 pontos interrompe a sequência de quedas registrada ao longo de 2024 e 2025 e cria um novo desafio para o presidente Javier Milei, cuja política econômica prioriza o equilíbrio das contas públicas e o controle da inflação.

O que mostram os números oficiais

A pesquisa do INDEC cobre os 31 principais aglomerados urbanos do país, por meio da Encuesta Permanente de Hogares (EPH). Nesse universo, 9.729.000 pessoas, em 2.498.000 domicílios, estão abaixo da linha de pobreza. Veículos argentinos, ao extrapolar a taxa para toda a população, estimam cerca de 15,56 milhões de pobres, 2,05 milhões a mais que no fim de 2025. Essa extrapolação é uma estimativa da imprensa, não um número divulgado pelo INDEC.

A indigência, que mede quem não tem renda nem para a alimentação básica, subiu de 6,3% para 7,5%. Nos 31 aglomerados, isso representa 2.249.000 pessoas indigentes. O novo índice de pobreza também ficou acima dos 31,6% do primeiro semestre de 2025. Ou seja, a pobreza subiu tanto em relação ao semestre anterior quanto ao mesmo período do ano passado.

A evolução semestral mostra a virada: 52,9% no primeiro semestre de 2024, 38,1% no segundo, 31,6% no primeiro semestre de 2025, 28,2% no segundo e agora 32,3%.

Para não ser considerada pobre em junho, uma família de quatro pessoas precisava de 1.531.473 pesos por mês. Para não cair na indigência, de 689.853 pesos.

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Crianças são as mais atingidas

O recorte por idade mostra uma diferença forte entre gerações. Entre crianças de 0 a 14 anos, 44,5% vivem em lares abaixo da linha de pobreza. Entre jovens de 15 a 29 anos, a taxa é de 36,9%, e entre adultos de 30 a 64 anos, de 28,8%.

A alta também foi desigual entre as cidades. Nos aglomerados com 500 mil habitantes ou mais, a pobreza subiu 3,9 pontos. Nos menores, subiu 4,9 pontos. As cidades com as maiores taxas são Concordia (56,2%), Gran Resistencia (48,6%) e Posadas (42,2%).

UCA projeta 35% até o fim do ano

A Universidade Católica Argentina (UCA), que acompanha indicadores sociais e produz estimativas próprias, avalia que a pobreza pode chegar a 35% no fim do ano. A projeção não substitui a medição oficial do INDEC. Agustín Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social da UCA, estimou que a taxa atual está entre 31% e 32%.

"Em cada trimestre, nos últimos quatro trimestres, entre 400 mil e 450 mil pessoas caíram na pobreza", afirmou Salvia, segundo a agência Reuters.

Se a projeção da UCA se confirmar, a taxa continuará abaixo dos níveis do primeiro ano do governo Milei, quando chegou a 52,9%. Mas indicará que parte da melhora de 2025 se perdeu.

"Um aumento modesto da pobreza não anularia a grande redução observada sob o governo de Milei, mas sugeriria que a parte mais fácil da melhora já chegou ao fim." — Nicholas Watson, diretor-gerente para a América Latina da consultoria Teneo, à Reuters

Inflação caiu, mas emprego e renda não acompanharam

O governo reduziu a inflação e adotou medidas para equilibrar as contas públicas. Em agosto, a inflação ao consumidor foi de 1,7% no mês, segundo o INDEC. Analistas, porém, afirmam que a queda dos preços pode não bastar para sustentar novos avanços sociais se salários e empregos não acompanharem o custo de vida.

O desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, o maior nível desde 2021, contra 7,6% no mesmo período de 2025. O INDEC ressalva, no entanto, que a variação em relação ao ano anterior não é estatisticamente significativa, ou seja, pode estar dentro da margem da pesquisa. A informalidade, por outro lado, subiu de forma significativa: 45% dos ocupados trabalham sem registro, contra 43,2% um ano antes. São cerca de 6,1 milhões de pessoas, 348 mil a mais que no segundo trimestre de 2025.

Watson, da Teneo, também apontou 13 meses seguidos de queda do emprego privado e uma recuperação limitada da renda das famílias, segundo a Reuters.

Clubes de troca voltam aos bairros

Em bairros da região metropolitana de Buenos Aires, moradores recorrem a clubes de troca para conseguir alimentos e outros produtos sem usar dinheiro, segundo reportagem da Associated Press. Ana Barreto, professora que organizou um clube em Villa Astolfi, disse que óleo, açúcar, farinha e macarrão estão entre os itens mais procurados. Eles são trocados por roupas usadas e utensílios domésticos.

Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em San Fernando, relatou queda nas vendas. Segundo ele, os clientes têm dificuldade para comprar itens que antes eram mais acessíveis. Os relatos mostram dificuldades vividas por algumas famílias e comerciantes, mas não substituem os indicadores estatísticos nacionais.

Milei perde apoio entre eleitores de baixa renda

Pesquisas citadas pela Reuters indicam desgaste de Milei entre os entrevistados de baixa renda. Um levantamento da AtlasIntel feito em setembro mostrou desaprovação próxima de 70% nesse grupo, com aprovação abaixo de 30%. A pesquisa define como de baixa renda quem ganha até cerca de US$ 650 por mês. Um ano antes, a desaprovação nesse grupo era de 57%, e a aprovação, de 37%.

No resultado nacional citado, 58% desaprovam Milei e 38,1% o aprovam. Os números refletem o momento da pesquisa e não determinam, por si só, o resultado da eleição presidencial de 2027.

O governo sustenta que a austeridade é necessária para eliminar déficits fiscais persistentes, equilibrar as contas públicas e criar condições para um crescimento sustentável. Também rejeita aumentar gastos ou renovar subsídios para responder à pressão eleitoral. Um porta-voz disse à Reuters que Milei não pretende mudar o programa econômico para ganhar votos.

A política do governo inclui cortes nos salários do setor público, redução de subsídios ao transporte e aos serviços públicos e flexibilização das regras de importação. Essas medidas têm pressionado as famílias e os setores que dependem do mercado interno.

O que está em jogo para 2027

Milei chegou à Presidência no fim de 2023 com apoio de eleitores de baixa e média renda, cansados da inflação alta. A nova alta da pobreza e as dificuldades relatadas por trabalhadores e comerciantes podem testar essa base antes da eleição de 2027.


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