Bolsonaro e filhos ‘não têm mais nenhuma autoridade’ para falar de corrupção, diz José Dirceu

Condenado a 41 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em dois processos da Operação Lava Jato, o ex-ministro da Casa Civil no governo Lula (2003-2005) e ex-presidente do PT José Dirceu tem aproveitado o habeas corpus que o Supremo Tribunal Federal (STF) lhe concedeu para viajar pelo Brasil e divulgar o livro de memórias que escreveu na prisão.

Em junho, a Segunda Turma da Corte decidiu que Dirceu deveria aguardar em liberdade o julgamento de seus recursos à condenação decretada pelo então juiz Sérgio Moro e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) no processo em que é acusado de mediar contratos fraudulentos entre a Petrobras e a empreiteira Engevix.

Em outro processo, Moro e o TRF-4 condenaram Dirceu por irregularidades em um contrato para o fornecimento de tubos para a petrolífera. O ex-ministro é réu numa terceira ação ligada à Lava Jato, a que deve responder a partir de 2019. Ele contesta todas as acusações e diz ter sido condenado injustamente.

As denúncias vieram à tona após Dirceu ser condenado e cumprir pena pelo mensalão – esquema de compra de votos no Congresso no início do governo Lula que o ex-ministro foi acusado de chefiar, mas também nega ter existido.

Em entrevista à BBC News Brasil, Dirceu – hoje com 72 anos – falou sobre a possibilidade de passar o resto da vida na prisão. “Não posso brigar com a cadeia. Se eu brigar com a cadeia, eu entro em depressão, eu começo a tomar remédio.”

Ele se queixou da atitude do candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad – que, questionado durante a campanha sobre uma declaração de Dirceu, disse que o ex-ministro não faria parte de seu governo. “Primeiro precisa ganhar (a eleição), né? Para depois participar de governo. O Lula jamais falaria isso, jamais falou”, afirmou o ex-ministro.

Magro e aparentando boa saúde, o petista recebeu a reportagem em um condomínio de luxo vizinho ao parque Tingui, em Curitiba, onde estava hospedado na casa de amigos.

Depois de quase uma hora de entrevista, pediu para encerrá-la dizendo-se exausto pela maratona de viagens nos últimos dias, quando esteve no Tocantins para lançar o livro e em Minas Gerais para visitar parentes.

Ele diz ter viajado a 19 capitais nos últimos meses, sempre de carro ou em ônibus alugados – opção que, segundo assessores, busca permitir que Dirceu “reveja o Brasil e converse com as pessoas”, além de levar toda sua equipe, com ao menos quatro integrantes.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Na véspera da eleição, o senhor disse ao jornal El País que “é uma questão de tempo para a gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”. O que o senhor quis dizer?

Dirceu – (Risos) Você tem uma versão que já é a quarta. A pergunta foi simples e objetiva: “E se Haddad ganhar e não levar (a eleição)?” Eu falei: “Mas aí não é mais eleição, aí é uma questão de tomar o poder”. Se você fecha o Parlamento, como a ditadura fez, e fecha o Judiciário, vai fazer eleição? Não tem nada a ver com a resposta seguinte, que é a que conta: (A pergunta era) “E se o Bolsonaro ganhar?” Eu falei: “Já convivemos com Jânio e com Collor, vamos conviver com o Bolsonaro”.

BBC News Brasil – O senhor não disse que era “questão de tempo até tomarmos o poder”?

Dirceu – De jeito nenhum. Todo mundo me conhece, eu sou o contrário disso. A pergunta era sobre o caso de não darem posse para o Haddad. Nesse cenário, você vai discutir eleição? A questão que está colocada é do poder.

BBC News Brasil – Nesse cenário, haveria uma guerra civil?

Dirceu – Não, o Brasil já tem guerra civil. Se mataram 305 mil jovens de 2005 a 2015, se morrem 62 mil jovens no Brasil por ano, a maioria negro e pobre, o Brasil já tem uma guerra civil.

BBC News Brasil – Ainda que o senhor negue essa fala sobre tomar o poder, ela recebeu bastante atenção, e Haddad foi cobrado sobre ela no Jornal Nacional. Não acha que ela foi prejudicial à campanha?

Dirceu – Não, não teve nenhum efeito. Porque 90% da população brasileira não sabe o que é isso, não discutiu isso, não ouviu isso, não dá nenhuma importância para isso.

LEIA A REPORTAGEM COMPLETA NA BBC.

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