Painel Econômico

Por que uma província argentina criou a própria moeda para não afundar

Enquanto o governo comemora a queda da inflação, os próprios dados oficiais mostram salário real e emprego formal abaixo do início da gestão — e uma província pobre emitiu moeda própria para resistir

Por que uma província argentina criou a própria moeda para não afundar
📷 Natalia Favre/Bloomberg
📋 Em resumo
  • A província argentina de La Rioja voltou a distribuir sua moeda própria, o "Chacho" — de uso restrito ao território e com paridade de 1 para 1 com o peso —, como resposta ao aperto financeiro provocado pelo corte de repasses federais.
  • A medida é do governador Ricardo Quintela, em confronto com o presidente Javier Milei.
  • O caso é o sintoma visível de um quadro nacional contraditório: segundo o INDEC, o instituto oficial, a inflação despencou (de ~200% para ~33% ao ano), mas o salário real e o emprego formal seguem abaixo do início da gestão.
  • A pobreza, que vinha caindo, voltou a subir para cerca de 30% no início de 2026.
  • Por que isso importa: a Argentina virou o laboratório de um ajuste de choque que parte do debate econômico brasileiro admira — e o custo real desse modelo, medido pelos números do próprio governo, merece ser lido sem torcida.
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Existem poucos lugares na Argentina tão pobres quanto La Rioja, província encravada no noroeste do país. Foi ali que o custo do ajuste de choque do presidente Javier Milei ficou mais visível: quando o governo federal cortou repasses às províncias, La Rioja entrou em default e mergulhou em recessão. A resposta do governador Ricardo Quintela foi radical — criar uma moeda própria, o "Chacho", e distribuí-la a servidores para sustentar o consumo interno. É um gesto de sobrevivência, mas é também o sintoma de um quadro nacional que os números oficiais ajudam a decifrar.

A moeda da resistência

O Chacho — nome do caudilho local Ángel Vicente "Chacho" Peñaloza, que no século 19 resistiu ao poder central de Buenos Aires — circula apenas dentro da província e vale um peso. Quintela o distribui como bônus mensal (cerca de 50 mil chachos por pessoa, o equivalente a uns US$ 33) a aproximadamente 80 mil funcionários e beneficiários, e os comerciantes são incentivados, não obrigados, a aceitá-lo. Não é a primeira quase-moeda da história argentina — dezenas surgiram na crise de 2001 —, mas é a primeira emitida por uma província desde então. A província não quer, nas palavras do próprio governador, afundar junto com o ajuste.

O que os dados oficiais mostram — e o que o discurso esconde

Para entender o Chacho, é preciso olhar o retrato macro. E aqui vale a regra de ouro: os números a seguir são do INDEC, o instituto oficial de estatística — ou seja, da própria estrutura do governo Milei.

O maior acerto da gestão é real: a inflação despencou, de cerca de 200% ao ano no início do mandato para algo em torno de 33% em doze meses. Para um país acostumado à remarcação diária, é um alívio concreto.

O problema aparece na renda. Segundo o INDEC, os salários registrados subiram 29,7% em doze meses, enquanto a inflação foi de 33,5% — ou seja, o salário correu atrás e perdeu. Pior: comparado a novembro de 2023, quando Milei assumiu, o salário privado formal está cerca de 3,6% abaixo, e o do setor público, 16,5% abaixo. Na média, o trabalhador registrado ganha, em poder de compra, algo como 8% menos do que ganhava antes do ajuste.

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A pobreza parou de cair

Houve, sim, uma melhora social depois do choque inicial: a pobreza recuou e fechou 2025 em torno de 28%. Mas a tendência se inverteu. No primeiro trimestre de 2026, a pobreza voltou a subir, para cerca de 30%, com a indigência também em alta. O motor foi a comida: a cesta básica alimentar subiu bem mais que o salário no período, empurrando famílias de volta para baixo da linha.

Há ainda uma ressalva metodológica que qualquer leitura honesta precisa registrar: a cesta básica usada pelo INDEC ainda se baseia em parâmetros de consumo de 2004/2005, e sua atualização foi travada — o que levou à renúncia do diretor do instituto. Especialistas alertam que, por isso, a pobreza real pode estar subestimada. O número oficial é o piso, não necessariamente o retrato completo.

O emprego que encolheu

O terceiro dado desmonta a ideia de ajuste sem vítimas. Desde o fim de 2023, a Argentina perdeu centenas de milhares de empregos formais — os levantamentos oficiais apontam de 240 mil a 340 mil postos privados registrados a menos —, com a indústria e a construção concentrando o baque. Ao mesmo tempo, a informalidade cresceu: passou de 42% para mais de 44% dos ocupados. A desocupação subiu de forma leve, mas contínua, chegando a 7,8% em meados de 2026. Em economias de inflação alta, o ajuste costuma cair primeiro sobre o salário, e só depois sobre o emprego — foi o que aconteceu.

Por que o Brasil deveria ler isto sem torcida

A Argentina se tornou o laboratório mais observado da América do Sul: um ajuste fiscal de choque, aplicado de uma vez, que parte do debate econômico brasileiro cita como modelo a seguir. O caso La Rioja e os dados do INDEC são o outro lado dessa conta — não como panfleto, mas como evidência.

O que os números do próprio governo mostram é um trade-off duro: desinflação verdadeira, paga com queda de renda real, perda de emprego formal e uma pobreza que voltou a subir nas pontas mais frágeis. Não é o retrato de um fracasso total nem de um milagre — é o de uma escolha, com ganhadores e perdedores nítidos. E quando uma província inteira precisa imprimir a própria moeda para não afundar, o que se vê não é ideologia: é uma conta que, para milhões de argentinos, ainda não fecha no fim do mês.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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