Por que uma província argentina criou a própria moeda para não afundar
Enquanto o governo comemora a queda da inflação, os próprios dados oficiais mostram salário real e emprego formal abaixo do início da gestão — e uma província pobre emitiu moeda própria para resistir
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- A província argentina de La Rioja voltou a distribuir sua moeda própria, o "Chacho" — de uso restrito ao território e com paridade de 1 para 1 com o peso —, como resposta ao aperto financeiro provocado pelo corte de repasses federais.
- A medida é do governador Ricardo Quintela, em confronto com o presidente Javier Milei.
- O caso é o sintoma visível de um quadro nacional contraditório: segundo o INDEC, o instituto oficial, a inflação despencou (de ~200% para ~33% ao ano), mas o salário real e o emprego formal seguem abaixo do início da gestão.
- A pobreza, que vinha caindo, voltou a subir para cerca de 30% no início de 2026.
- Por que isso importa: a Argentina virou o laboratório de um ajuste de choque que parte do debate econômico brasileiro admira — e o custo real desse modelo, medido pelos números do próprio governo, merece ser lido sem torcida.
Existem poucos lugares na Argentina tão pobres quanto La Rioja, província encravada no noroeste do país. Foi ali que o custo do ajuste de choque do presidente Javier Milei ficou mais visível: quando o governo federal cortou repasses às províncias, La Rioja entrou em default e mergulhou em recessão. A resposta do governador Ricardo Quintela foi radical — criar uma moeda própria, o "Chacho", e distribuí-la a servidores para sustentar o consumo interno. É um gesto de sobrevivência, mas é também o sintoma de um quadro nacional que os números oficiais ajudam a decifrar.
A moeda da resistência
O Chacho — nome do caudilho local Ángel Vicente "Chacho" Peñaloza, que no século 19 resistiu ao poder central de Buenos Aires — circula apenas dentro da província e vale um peso. Quintela o distribui como bônus mensal (cerca de 50 mil chachos por pessoa, o equivalente a uns US$ 33) a aproximadamente 80 mil funcionários e beneficiários, e os comerciantes são incentivados, não obrigados, a aceitá-lo. Não é a primeira quase-moeda da história argentina — dezenas surgiram na crise de 2001 —, mas é a primeira emitida por uma província desde então. A província não quer, nas palavras do próprio governador, afundar junto com o ajuste.
O que os dados oficiais mostram — e o que o discurso esconde
Para entender o Chacho, é preciso olhar o retrato macro. E aqui vale a regra de ouro: os números a seguir são do INDEC, o instituto oficial de estatística — ou seja, da própria estrutura do governo Milei.
O maior acerto da gestão é real: a inflação despencou, de cerca de 200% ao ano no início do mandato para algo em torno de 33% em doze meses. Para um país acostumado à remarcação diária, é um alívio concreto.
O problema aparece na renda. Segundo o INDEC, os salários registrados subiram 29,7% em doze meses, enquanto a inflação foi de 33,5% — ou seja, o salário correu atrás e perdeu. Pior: comparado a novembro de 2023, quando Milei assumiu, o salário privado formal está cerca de 3,6% abaixo, e o do setor público, 16,5% abaixo. Na média, o trabalhador registrado ganha, em poder de compra, algo como 8% menos do que ganhava antes do ajuste.
A pobreza parou de cair
Houve, sim, uma melhora social depois do choque inicial: a pobreza recuou e fechou 2025 em torno de 28%. Mas a tendência se inverteu. No primeiro trimestre de 2026, a pobreza voltou a subir, para cerca de 30%, com a indigência também em alta. O motor foi a comida: a cesta básica alimentar subiu bem mais que o salário no período, empurrando famílias de volta para baixo da linha.
Há ainda uma ressalva metodológica que qualquer leitura honesta precisa registrar: a cesta básica usada pelo INDEC ainda se baseia em parâmetros de consumo de 2004/2005, e sua atualização foi travada — o que levou à renúncia do diretor do instituto. Especialistas alertam que, por isso, a pobreza real pode estar subestimada. O número oficial é o piso, não necessariamente o retrato completo.
O emprego que encolheu
O terceiro dado desmonta a ideia de ajuste sem vítimas. Desde o fim de 2023, a Argentina perdeu centenas de milhares de empregos formais — os levantamentos oficiais apontam de 240 mil a 340 mil postos privados registrados a menos —, com a indústria e a construção concentrando o baque. Ao mesmo tempo, a informalidade cresceu: passou de 42% para mais de 44% dos ocupados. A desocupação subiu de forma leve, mas contínua, chegando a 7,8% em meados de 2026. Em economias de inflação alta, o ajuste costuma cair primeiro sobre o salário, e só depois sobre o emprego — foi o que aconteceu.
Por que o Brasil deveria ler isto sem torcida
A Argentina se tornou o laboratório mais observado da América do Sul: um ajuste fiscal de choque, aplicado de uma vez, que parte do debate econômico brasileiro cita como modelo a seguir. O caso La Rioja e os dados do INDEC são o outro lado dessa conta — não como panfleto, mas como evidência.
O que os números do próprio governo mostram é um trade-off duro: desinflação verdadeira, paga com queda de renda real, perda de emprego formal e uma pobreza que voltou a subir nas pontas mais frágeis. Não é o retrato de um fracasso total nem de um milagre — é o de uma escolha, com ganhadores e perdedores nítidos. E quando uma província inteira precisa imprimir a própria moeda para não afundar, o que se vê não é ideologia: é uma conta que, para milhões de argentinos, ainda não fecha no fim do mês.
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