Protestos se espalham pela Europa em meio a temor de guerra ampliada
Enquanto manifestantes incendeiam ministérios na Albânia, Itália enfrenta onda de greves e caminhoneiros parados, Reino Unido fala em se preparar para a guerra e a aprovação de Trump cai a mínimas históricas
📋 Em resumo ▾
- Na Albânia, protestos estudantis contra corrupção e custo da educação chegaram ao terceiro dia, com invasão do Ministério da Economia e incêndio no Ministério da Educação.
- Na Itália, outubro tem dois greves gerais nacionais (dias 2 e 30) e caminhoneiros da Sicília pararam por quatro dias contra a alta dos combustíveis; Milão também teve paralisação do transporte público e já foi palco de confrontos violentos em manifestações recentes.
- Autoridades militares do Reino Unido voltaram a alertar publicamente que o país precisa se preparar para um possível conflito direto com a Rússia.
- A França viveu, neste mês, nova rodada de protestos contra o custo de vida e o orçamento de 2026.
- Pesquisas recentes (Pew, Economist/YouGov, Reuters/Ipsos, Fox News) mostram a aprovação do presidente dos EUA, Donald Trump, na casa dos 30%, patamar historicamente baixo.
- Levantamento da ACLED aponta 2026 como um ano de forte atividade de protestos em escala global, com Índia e Irã entre os países mais afetados.
- Por que isso importa: os episódios, embora distintos em causa, dividem um pano de fundo comum — insatisfação econômica, desconfiança institucional e um clima de instabilidade que tem levado governos europeus a falar abertamente em preparação para guerra.
Protestos acompanhados de cenas de violência voltaram a tomar as ruas de diferentes países neste mês de outubro, em meio a um cenário que soma crise econômica, desconfiança nas instituições e alertas militares cada vez mais diretos sobre o risco de um conflito armado na Europa.
Albânia: incêndios e invasão de ministérios
Na capital albanesa, Tirana, protestos estudantis contra a corrupção e o estado do sistema educacional chegaram ao terceiro dia consecutivo nesta semana. Segundo a agência de notícias austríaca ORF, manifestantes atearam fogo a prédios durante os protestos e fumaça subiu do Ministério da Educação. Dois manifestantes escalaram um muro do ministério e lançaram sinalizadores para dentro do prédio, de onde em seguida saiu fumaça preta, enquanto uma agência bancária teve vidraças quebradas e documentos incendiados por parte dos manifestantes.
A tensão também chegou a outros órgãos do governo. Os manifestantes arrombaram as portas do Ministério das Finanças e alguns chegaram a entrar brevemente no prédio antes de serem repelidos pela polícia. Já de acordo com o portal Albanian Daily News, manifestantes invadiram as dependências do Ministério da Economia da Albânia e começaram a retirar itens e equipamentos do escritório, incluindo uma impressora, enquanto também foram registrados danos na sede da Comissão Eleitoral Central do país, com janelas quebradas.
Segundo a agência Reuters, citada pelo jornal Oman Observer, os protestos representam o maior desafio enfrentado até agora pelo primeiro-ministro Edi Rama, que venceu um quarto mandato no ano passado com a adesão à União Europeia como ponto central de sua campanha. Entre as reivindicações dos manifestantes está a renúncia de Rama; parte da insatisfação também envolve um acordo para vender trechos do litoral sul do país a um empreendimento turístico de luxo ligado ao genro do presidente dos Estados Unidos, Jared Kushner.
Itália: Milão parado e caminhoneiros em greve
A Itália viveu um outubro de forte agitação sindical e de rua. O calendário de greves do país, segundo o jornal italiano Il Messaggero, prevê duass greves gerais no mês, que devem envolver quase todas as categorias de trabalhadores, do transporte à saúde: o mês começou com uma greve geral nacional em 2 de outubro e termina com nova greve nacional em 30 de outubro, atingindo trens, aviões e escolas. Em Milão especificamente, o grupo de transporte público ATM parou em 9 de outubro, por convocação dos sindicatos de base Al Cobas e Confial Trasporti.
Paralelamente, o setor de transporte de cargas também entrou em compasso de greve. Segundo o portal Italianismo, com base no jornal La Stampa, caminhoneiros da Sicília anunciaram a paralisação dos transportes por quatro dias, de 16 a 20 de outubro, em protesto contra a alta dos combustíveis — o Comitê dos transportadores sicilianos afirmou que não movimentaria os semirreboques nos portos da ilha, alegando falta de resposta do governo nacional ao pedido de intervenção sobre os preços, que no país chegam a superar dois euros por litro.
Milão, além disso, já foi palco de confrontos mais graves em manifestações recentes. Em um protesto pró-Palestina que terminou em setembro de 2025 na Estação Central da cidade, o balanço, segundo o jornal Il Giorno, foi de uma sessentena de feridos entre policiais e carabinieri, além de prisões, em cenas de confronto direto que o prefeito da cidade, Giuseppe Sala, classificou como inaceitáveis.
Reino Unido fala abertamente em se preparar para guerra
No Reino Unido, autoridades militares voltaram a alertar publicamente sobre o risco de confronto com a Rússia. O chefe do Estado-Maior da Defesa britânico, o marechal do ar Richard Knighton, afirmou recentemente que a Grã-Bretanha enfrenta o ambiente de segurança mais perigoso em décadas e precisa se preparar para a possibilidade de conflitos mais longos e exigentes, à medida que a Rússia aumenta a pressão sobre as defesas do país e da Otan.
“Os riscos e ameaças a este país são maiores do que tenho visto desde a Guerra Fria.”
Segundo Knighton, a atividade militar russa ao redor do Reino Unido tornou-se mais persistente, incluindo o uso de aviação de longo alcance, e a Rússia está testando e desafiando as defesas britânicas, “definitivamente elevando a aposta e os riscos de cruzar uma linha”. O alerta britânico ecoa declarações semelhantes feitas por autoridades militares da França sobre a necessidade de preparação para um eventual conflito.
França volta às ruas contra o custo de vida
A França também viveu novo ciclo de mobilizações. Segundo a agência turca Anadolu, citada pela Bernama, o país se preparava para protestos nacionais contra o alto custo de vida neste mês, com autoridades esperando entre 200 e 300 ações em todo o território, incluindo manifestações em grandes cidades e concentrações em rotatórias, postos de gasolina e supermercados. O Ministério do Interior francês alertou para o risco de confrontos envolvendo grupos de manifestantes mais radicais.
Esses atos se somam a uma sequência de protestos que marcou a França ao longo do segundo semestre de 2026, puxados por estudantes e sindicatos contra cortes no orçamento, o fim de feriados nacionais e a proposta de taxação de grandes fortunas — parte de um pacote fiscal conduzido pelo governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu.
Trump em baixa histórica
Nos Estados Unidos, levantamentos recentes mostram a popularidade do presidente Donald Trump em patamares historicamente baixos. Segundo o Pew Research Center, a aprovação de Trump caiu para 30%, nível equivalente ao registrado pouco antes de ele deixar a Casa Branca em janeiro de 2021, em pesquisa realizada entre 28 de setembro e 4 de outubro de 2026. Uma pesquisa do instituto Economist/YouGov, divulgada em 14 de outubro, apontou aprovação de 34% e desaprovação de 61%, enquanto levantamento Reuters/Ipsos, segundo a emissora ABC News, mostrou a aprovação de Trump em 32%. Já uma pesquisa da Fox News registrou aprovação de 36%, a mais baixa já obtida pelo presidente nas pesquisas da emissora ao longo dos dois mandatos.
Um padrão global de insatisfação
Os episódios na Albânia, na Itália, no Reino Unido, na França e nos Estados Unidos se inserem em um quadro mais amplo de agitação política. Segundo análise do site GZero Media, baseada em dados da organização ACLED, a Índia foi o país com mais protestos registrados em 2026, por motivos que vão desde o acordo comercial entre Índia e Estados Unidos até demandas de autonomia na região de Ladakh. O mesmo levantamento aponta o Irã entre os países com protestos mais intensos, após manifestações motivadas por uma economia em colapso e repressão política que deixaram, segundo estimativas, até 30 mil mortos. Nos próprios Estados Unidos, os protestos “No Kings” contra o governo Trump reuniram uma estimativa de 8 milhões de pessoas em mais de 3.300 eventos pelo país.
O conjunto desses episódios — crise econômica na Albânia, greves generalizadas na Itália, tensão militar no Reino Unido, insatisfação fiscal na França e queda de popularidade nos Estados Unidos — não decorre de uma única causa, mas reflete um momento de desgaste simultâneo entre governos e populações em diferentes regiões do mundo, somado a um clima de apreensão crescente sobre os rumos da guerra na Ucrânia e seus possíveis desdobramentos para o restante da Europa.
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