Médico condenado por deformar rosto de paciente diz que inchaço ‘é normal’ e acaba ‘após 6 meses’

O médico Wesley Murakami, condenado a indenizar uma paciente que ficou com deformidades no rosto após passar por procedimento estético em Goiânia, afirmou em nota nesta sexta-feira (7) que “o inchaço após qualquer procedimento é normal” e que, “após seis meses, normalmente, o inchaço já acabou e não há mudança na área modificada” (veja íntegra abaixo). Segundo a Polícia Civil, 13 pessoas já procuraram a delegacia para denunciá-lo só em Goiás.

A conduta do profissional, que não tem nenhuma especialidade e também atende em Brasília, é ainda alvo de investigação do Conselho Regional de Medicina (Cremego). O órgão diz que não foi formalmente procurado por nenhum paciente, mas decidiu acompanhar o caso após ver a repercussão na imprensa.

Wesley realiza tratamentos estéticos conhecidos como bioplastia. Durante o procedimento, uma substância conhecida como polimetilmetacrilato (PMMA) – um tipo de plástico líquido usado para preenchimento – é injetada sob a pele por meio de uma seringa. A área a ser contemplada fica, geralmente, no rosto.

De acordo com o advogado do médico, André Bueno, não é necessário ter residência em dermatologia ou cirurgia plástica. O defensor afirma ainda que o cliente dele tem os cursos necessários.

“Vale ressaltar que farmacêuticos, biomédicos, enfermeiros, odontólogos e esteticistas (que não são médicos) são habilitados para realizar tais tratamentos, que são chamados de minimamente invasivos”, declarou. “É necessário, entretanto, fazer cursos específicos para cada tratamento, com aulas teóricas e práticas, como feito pelo profissional.”

Responsável pelas investigações na Polícia Civil, o delegado Carlos Caetano Júnior disse que a maioria das vítimas que procuraram a delegacia relataram ter feito procedimento em 2017 e pagado, em média, R$ 20 mil.

Da lista, 2 pacientes são homens e 11, mulheres. Quatro já passaram por exame de corpo de delito. Duas das vítimas são do interior – moram em Rio Quente e Morrinhos. Entre as denunciantes está uma ex-namorada e ex-sócia do profissional.

O casos são investigados como lesão corporal culposa. Laudos devem ajudar a definir o grau, que pode ser leve, grave ou gravíssimo.

Por telefone, o advogado de Wesley disse que ele é médico há 15 anos e desde então trabalha com estética. Ele afirmou que o profissional está “muito abalado” com a situação e que está seguindo as orientações jurídicas, do Cremego e da polícia.

“Ele respeita demais os paciente dele. Se ele tiver cometido algum erro, ele vai reparar”, declarou. “O abandono de tratamento da maioria desses pacientes impediu que o dr. Wesley concluísse os serviços. O prontuário ficou incompleto.”

No dia 23 de outubro, Wesley sofreu uma censura pública do Cremego por outro processo que não tem vínculo com as atuais reclamações relatadas à Polícia Civil. O conselho disse que processo de investigação contra ele corre em sigilo, respeitando as normas ético-profissionais.

Uso do PMMA

A defesa do médico afirma que a utilização do PMMA está autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para correção de lipodistrofia – alteração no organismo que leva à concentração de gorduras em algumas partes do corpo – e correção ou melhorias no rosto e no corpo.

O Cremego diz, porém, que há mais de dez anos, em matérias e notas oficiais veiculadas na imprensa e em publicações institucionais, alerta a população sobre os riscos da utilização indiscriminada desta substância. “O CFM [Conselho Federal de Medicina] e o Cremego condenam esse uso”, afirmou.

Um parecer editado em 2013 pelo CFM recomenda que, “quando necessário, o uso do PMMA seja feito por médicos e em pequenas doses”, pois a aplicação em grandes quantidades pode produzir resultados indesejáveis. A indicação da Anvisa é para o tratamento de deformidades, principalmente em pacientes HIV positivo, e em pequenas quantidades.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica também condena o uso em grandes quantidades do produto, que não é absorvido pelo organismo e pode apresentar graves reações, como processos inflamatórios crônicos e nódulos. A entidade orienta que há produtos mais modernos e indicados para preenchimentos que visam à harmonização facial.

“O Cremego também aproveita para orientar a população que ao buscar atendimento médico verifique antes se o profissional é registrado no conselho e se tem a especialidade médica que ele anuncia. Essas informações são públicas e podem ser obtidas no site.”

Em entrevista no dia 2 de dezembro, o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – Regional Goiás, Sérgio Augusto da Conceição, alertou para os cuidados.

“Apesar de parecer um procedimento simples, sem risco, nos consultórios o que temos visto são complicações em consequência da prática de pessoas que não são especialistas. É um produto inabsorvível, que pode dar reação inflamatória. O que a gente quer passar para a população é que não faça esses procedimentos com quem não for especialista”, afirmou.

Denúncias

Um dos casos é do dentista Flávio Roberto Rodrigues. O paciente conta que, em 2016, pagou para procedimentos na mandíbula, no queixo e no nariz com PMMA, um tipo de plástico líquido usado para preenchimento corporal. Ele teve de passar por uma cirurgia para conseguir retirar a substância.

“Eu sentia dores insuportáveis no nariz, dores que vinham repentinamente”, relata o dentista.

Uma mulher, que prefere não ser identificada, conta que ficou deformada após passar por procedimentos estéticos na mandíbula, nas bochechas e na pele. Ela diz que chegou ao consultório interessada em diminuir as rugas, mas foi convencida pelo médico a mexer com outras partes do corpo. “

“Ele me colocou em frente ao espelho, ele falou que eu deveria fazer também a mandíbula e a maçã”, conta. “Fiquei com um rosto de monstro, quando eu olhei no espelho, lá mesmo no consultório.”

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