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RTX 5090 roubada em Guarulhos: por que o crime não compensa mais

Dois pallets de RTX 5090 sumiram em Guarulhos, mas cada placa tem número de série único — e a escassez global da GPU torna qualquer venda uma confissão

RTX 5090 roubada em Guarulhos: por que o crime não compensa mais
📷 Divulgação Nvídia
📋 Em resumo ▾
  • • Dois pallets com placas RTX 5090 da Zotac, avaliados em R$ 2,5 milhões, desapareceram no Aeroporto de Guarulhos em 21 de setembro, importados pela distribuidora Oderço, de Maringá (PR)
  • • Câmeras de segurança apontam dois operadores de empilhadeira terceirizados e um conferente que baixou a carga do sistema para driblar o controle eletrônico do terminal
  • • Uma das placas já foi identificada: anunciada por R$ 32 mil, seu número de série bateu com o lote roubado
  • • A RTX 5090 enfrenta escassez mundial — chegou a sumir da loja oficial da Nvidia nos EUA e é revendida por até US$ 8.500, mais de quatro vezes o preço de lançamento (US$ 1.999)
  • Por que isso importa: cada unidade da GPU carrega identificação única, e num mercado tão escasso que cada anúncio vira evento, tentar vender a carga roubada é também o jeito mais rápido de ser rastreado.
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Dois pallets de placas de vídeo RTX 5090, da fabricante Zotac, avaliados em R$ 2,5 milhões, desapareceram do Aeroporto Internacional de Guarulhos em 21 de setembro de 2026. A carga, importada pela distribuidora Oderço, de Maringá (PR), sumiu dentro do terminal de cargas — e uma das placas já apareceu à venda na internet, identificada pelo próprio número de série.

O sumiço: dois pallets, R$ 2,5 milhões, e o erro que denunciou o crime

Segundo a reconstituição do caso, dois operadores de empilhadeira terceirizados retiraram os pallets do armazém, enquanto um terceiro funcionário, um conferente, dava baixa na carga no sistema para que ela passasse pelos controles eletrônicos do terminal como se já tivesse sido entregue. As imagens de câmeras de segurança registraram a movimentação. O caso é investigado pelas Polícias Civil e Federal, que buscam recuperar o restante da carga e responsabilizar os envolvidos.

O roubo, porém, não é o ponto mais interessante da história. É o que aconteceu depois: a emissora de TV Band localizou uma das placas à venda numa plataforma de compra e venda online, por R$ 32 mil. O número de série exibido no próprio anúncio batia com o lote importado pela Oderço — ou seja, o vendedor anunciou a prova do crime junto com o produto.

Por que a placa roubada não tem reposição

Cada RTX 5090 carrega um número de série único — como qualquer produto eletrônico de ponta. Mas, num mercado qualquer, esse detalhe não costuma fazer diferença: a reposição é rápida, e placas roubadas se diluem em meio a um estoque abundante. O problema, aqui, é que não existe estoque abundante.

A RTX 5090 é a GPU topo de linha da Nvidia, lançada com preço sugerido de US$ 1.999. Hoje, uma unidade chega a ser revendida por cerca de US$ 8.500 em anúncios de terceiros na Amazon americana — mais de quatro vezes o valor de lançamento. A própria Nvidia retirou o produto de sua loja oficial nos Estados Unidos em meados de outubro, embora afirme que a placa "não foi descontinuada", só que está com estoque apertado. A rede americana Micro Center trocou o status de vários modelos da 5090, de fabricantes como Asus, MSI e Gigabyte, de "fora de estoque" para "não comercializado". No Brasil, quando há oferta, os preços partem de R$ 22 mil.

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Nesse cenário, cada unidade à venda vira um evento visível — e cada placa rastreável por número de série é, ao mesmo tempo, dinheiro nas mãos de quem a roubou e prova que se denuncia sozinha assim que alguém tenta transformá-la em dinheiro.

Da fábrica ao mercado negro: por que a 5090 sumiu das prateleiras

O chip da RTX 5090 é fabricado pela TSMC, em Taiwan. A montagem das placas, historicamente, era feita na China. Isso mudou: a PC Partner, controladora da Zotac e de outras marcas como Inno3D e Manli, transferiu sua sede para Cingapura e levou parte da produção da linha 5090 para a Indonésia — uma mudança que fabricantes do setor associam à tentativa de escapar dos controles de exportação dos Estados Unidos, que restringem a venda de chips avançados para a China.

É aqui que a história ganha uma segunda camada: Washington já havia bloqueado a venda de aceleradores de inteligência artificial de uso profissional, como a linha RTX Pro, para empresas chinesas. Segundo reportagem do Financial Times, empresas de tecnologia da China compraram, só em 2026, mais de 1 milhão de unidades das GPUs profissionais RTX Pro 6000D e RTX Pro 5000 para rodar cargas de trabalho básicas de inteligência artificial — contornando a proibição por meio de modelos que, tecnicamente, não estão na lista de chips vetados.

O novo comprador: indústria chinesa de IA usando placa de "gamer"

A linha RTX Pro não é a única via de contorno. Fabricantes chineses de servidores também passaram a comprar a RTX 5090 — a placa voltada a jogadores — aos pallets, para montar estações de trabalho de inteligência artificial como alternativa mais barata à linha profissional da Nvidia. A publicação especializada Overclock3D mostrou fotos de GPUs empilhadas nessa engrenagem, atribuindo parte da demanda a "fabricantes chineses de servidores" cuja origem exata das placas não é informada. O volume preciso desse fluxo específico não é conhecido — mas o efeito prático já aparece nas prateleiras: compradores comuns competem por placas com empresas que compram em lote, e a escassez vira regra, não exceção.

O resultado é que a sanção comercial dos Estados Unidos, pensada para travar o acesso chinês a chips de inteligência artificial de ponta, acabou empurrando a demanda para uma GPU de prateleira de loja — e, no caminho, esvaziou o mercado também para quem só queria jogar.

É uma ironia da economia física: o crime compensa cada vez menos exatamente quando a prateleira esvazia — não porque a polícia tenha ficado melhor, mas porque a reposição morreu antes do produto furtado poder se misturar ao mercado. Num cenário de fartura, duas placas sumidas se perdem em meio a milhares de unidades circulando. Num cenário de escassez extrema, cada placa carrega, junto com seu valor em reais, um rastro que a torna praticamente impossível de vender sem se denunciar.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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