Delator de Cunha pede perdão judicial ao STF

Em petição encaminhada ontem (24) à Corte, os advogados afirmam que Cleto delatou o esquema de corrupção em uma diretoria do banco e merece o benefício

A defesa do ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa, Fábio Cleto, pediu perdão judicial ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em petição encaminhada ontem (24) à Corte, os advogados afirmam que Cleto delatou o esquema de corrupção em uma diretoria do banco e merece o benefício.

Em um dos depoimentos de delação premiada, Fábio Cleto disse que o ex-presidente afastado da Câmara dos Deputados e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB) recebia 80% da propina arrecadada entre empresas interessadas na liberação de verbas do Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS).

Ao STF, a defesa afirmou que a colaboração foi efetiva e ajudou a identificar as pessoas que participaram da organização criminosa e vai permitir a recuperação de parte dos recursos públicos desviados.

“Nesse cenário, em razão de efetividade do acordo de colaboração do requerente que desmantelou organização criminosa voltada à prática de crimes contra a administração pública e acarretou na condenação de membros que pertenceram ao alto escalão do governo, de rigor que seja aplicado o perdão judicial.”, argumentou a defesa.

Com base nas informações prestadas por Cleto, Eduardo Cunha foi condenado a 24 anos e dez meses de prisão, em regime fechado.

Fonte: agenciabrasil

Funaro admite: pediu para incendiar a casa de Fábio Cleto com os filhos dentro

Durante depoimento na 10ª Vara da Justiça Federal, em Brasília, o operador financeiro Lúcio Funaro admitiu que ameaçou o ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal Fábio Cleto e sua família, informa o portal Metropoles. “Falei que ia pedir para o Nenê Constantino pôr fogo na casa dele, com os filhos dentro”, assumiu. “Sou uma pessoa de pavio curto”, disse, antes de fazer a revelação.

Fundador da Gol Linhas Aéreas, Nenê Constantino, 86 anos, é um homem temido. Suspeito de mandar matar 11 pessoas, foi condenado pelo assassinato do líder comunitário Márcio Leonardo de Sousa Brito, ocorrido em 2001. Por esse crime, cumpre pena de 16 anos e seis meses de prisão (13 anos e 6 meses pelo homicídio e 3 anos por corrupção de testemunha). A sentença decretada em maio de 2017. Em 2008, ele foi absolvido da acusação de tentativa de homicídio contra o próprio genro.

Funaro relatou ao juiz Vallisney de Souza Oliveira como ele e Fábio Cleto organizavam o esquema de desvio de dinheiro do Fundo de Investimentos do FGTS do banco – revelado pela Operação Sépsis, da Polícia Federal, um desdobramento da Lava Jato. Também respondeu perguntas do advogado do ex-deputado Eduardo Cunha, que tenta desmentir Funaro.

“Fábio Cleto é um sujeito sestroso”, iniciou operador financeiro, descrevendo a personalidade sagaz e esperta de Cleto, que chegou à Caixa por indicação de Eduardo Cunha. Ele disse ainda que o ex-vice da CEF colaborava com os esquemas corrupção.

Funaro confirmou que o rompimento com Cleto se deu por conta das ameaças que fez ao antigo aliado.

O episódio havia sido narrado à Justiça por Adriana Balalai, ex-companheira de Fábio Cleto. A mulher contou que, durante conversa com o marido, leu uma mensagem no celular enviada por Funaro. Em resposta ao operador financeiro, Adriana disse que ia até a polícia, pois tinha certeza de estar falando com um “psicopata”.

Ladrão

No depoimento, Funaro também chamou Joesley Batista de ladrão: “Ele roubou de mim, do [Eduardo] Cunha e do Geddel [Vieira Lima]. Só de Alpargatas, R$ 81 milhões”.

Segundo o delator, o dono da JBS teria uma dívida com ele de R$ 41 milhões referente à compra formal da empresa de calçados, em 2015. “Eu tenho a receber dele [Joesley] R$ 41 milhões, mais ou menos, de dinheiro lícito. Se for calcular ilícito junto, seriam quase R$ 120 milhões, somando o que ele roubou da Alpargatas.” Recentemente, a companhia foi vendida.

Funaro detalhou o pagamento de propina ao PMDB. “Eduardo Cunha ficou com R$ 1 milhão. Dois milhões foram destinados ao presidente Michel Temer, e um valor, acho que R$ 1 milhão, ao deputado Cândido Vaccarezza”, disse.

Os valores teriam sido uma contrapartida para o grupo Bertin receber investimentos do Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS), da Caixa Econômica Federal. Ele afirmou ainda que os repasses estão todos detalhados nas planilhas entregues aos procuradores da República no acordo de delação. “A doação destinada a Temer foi feita de forma oficial ao PMDB nacional.”

Doleiro enganava Cunha e deixava de repassar propina, afirma delator

Doleiro enganava Cunha e deixava de repassar propina, afirma delator

Alexandre Margotto diz ainda que dirigente da Caixa teve que apresentar currículo para participar do esquema

Valia a pena enganar e deixar de repassar propina ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). É o que contou o empresário Alexandre Margotto em sua delação premiada, homologada pela Justiça Federal de Brasília na semana passada. Segundo ele, era interessante para seu ex-sócio, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro, “passar a perna” em Cunha na divisão da propina paga por empresários de olho nos recursos do Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS). Nas palavras de Margotto, Funaro avaliou que “o risco valia a pena”, até porque ele sabia de muita coisa da vida de Cunha.

A delação de Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa e ex-conselheiro do FI-FGTS, homologada no ano passado, já apontava que 80% da propina ficava com Cunha, e os 20% restantes eram divididos entre os outros três. Assim, do total, 12% iam para Funaro, 4% para Margotto, e 4% para Cleto.

— Oitenta a 20 é bem desproporcional. É quatro para um. Então, qualquer coisa de 100% que fique a mais para Funaro, ele vislumbrou que o risco valia a pena — afirmou Margotto, acrescentando:

— Se você fala de 1% numa operação de R$ 1 bilhão, são R$ 10 milhões e ele teria que repasar R$ 8 milhões (para Cunha). Então ficar com R$ 10 milhões é de grande relevância.

Em sua delação, Cleto também já tinha relatado um episódio em que Funaro passou Cunha para trás no repasse de propina. Questionado se o ex-deputado nunca desconfiou ou descobriu que era enganado, Margotto respondeu:

— Se descobriu, não tenho como dizer. Mas ele consentiu, porque, na verdade, ele falava para Fábio que (Funaro) era maluco: “deixa maluco, deixa maluco”. E na verdade Lúcio Funaro sabe muito de Cunha.Então não é de boa praxe a briga entre os dois. Me parece que eles são bem alinhados.

Cleto precisou apresentar currículo

Segundo Margotto, Cleto teve de apresentar um currículo para Funaro e Cunha para que avaliassem se ele era a pessoa adequada a ser indicada para a Caixa Econômica e, assim, viabilizar o pagamento de propina. Cleto acabou sendo nomeado vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias do banco, onde, segundo a delação de Margotto e do próprio Cleto, tinha que seguir ordens de Cunha. Questionado se Funaro tinha pedido também seu currículo, Margotto respondeu:

— Não. Ele não pediu meu currículo, porque sabia que o currículo do Fábio, por Fábio ter mais experiência no que eles precisavam, emplacariam mais fácil o nome do Fábio que o meu.

Margotto confirmou ainda um ponto da delação de Cleto. Antes mesmo de assumir o cargo na Caixa, Cleto assinou uma carta de renúncia, que serviria como um seguro para Funaro e Cunha. Caso ele se recusasse a atender as demandas do grupo, a carta poderia ser sacada, deixando-o sem emprego.

— Eu estava na minha sala, na mesa de operações do fundo. O Lúcio me chama às pressas. Imprime um papel. Até não sabia do que se tratava. Na hora que eu li era uma carta de exoneração do cargo público mesmo ante de ele assumir o cargo, que era uma forma de garantia para que Fábio fizesse as coisas, atendesse as demandas do próprio Funaro — contou Margotto.

Delator falsificou assinatura da mãe

Em sua delação, Margotto contou ainda detalhes de sua família, de sua intimidade e da relação com Funaro. Afirmou, por exemplo, que uma ex-namorada foi usada pelo doleiro em seu esquema, e que o segundo beijo que deram foi na casa do ex-sócio. Funaro, inclusive, segundo Margotto, era uma pessoa muito organizada, a ponto de dizer o teor de cada documento guardado no escritório. O delator disse ainda que assinou cheques em nome de sua mãe, Elisabeth Rosa, uma vez que, no papel, ela era sócia de uma empresa usada por Lúcio Funaro.

— Assinei até cheques passando pela assinatura da Elisabeth. Pode fazer uma perícia, não bate. E o Lúcio disse que não tinha problema nenhum — contou Margotto.

Vera Carla Silveira, advogada de Funaro, informou que já teve acesso à delação de Margotto, mas ainda não a analisou. De qualquer forma, adiantou que Funaro e Margotto são inimigos assumidos, e que isso tem que ser levado em conta. A defesa de Cunha também vem negando irregularidades envolvendo recursos do FI-FGTS.

Fonte: oglobo.com