Como a heroína se tornou o 2º produto mais exportado de um país graças ao WhatsApp

Até 40 toneladas da droga originária do Afeganistão chegam à Europa por intermédio de Moçambique, em uma operação que se assemelha a uma típica transação comercial internacional.

A cada ano, cerca de 40 toneladas do total de heroína que entra na Europa passam muito provavelmente por Moçambique, país não produtor e com baixíssimos níveis de consumo da droga. Acredita-se que a heroína já ocupe o posto de segundo maior item em valor exportado pelo país africano.

O pesquisador Joseph Hanion, professor visitante da London School of Economics, editor do “Mozambique Political Process Bulletin” e especialista no tema, explica no texto a seguir como a movimentação da heroína através do território moçambicano ganhou força com a ampliação da rede de telefones celulares no país africano e como traficantes usam o WhatsApp para burlar o controle da polícia:

“Com a intensificação do policiamento em outras rotas tradicionais, os traficantes vêm constantemente buscando caminhos alternativos, mesmo que mais longos, para levar a droga desde a origem no Afeganistão até o lucrativo mercado europeu.

Do Afeganistão, a heroína é transferida para o sul do Paquistão, onde é carregada em barcos motorizados típicos, conhecidos como dhow, que seguem pelo oceano Índico até o litoral norte de Moçambique.

Assim que a carga alcança águas moçambicanas, donos de pequenas embarcações, motoristas de caminhões e centenas de outros trabalhadores são recrutados pela operação do tráfico internamente em Moçambique por meio de mensagens de WhatsApp.

Um enorme contingente é acionado por telefones celulares para escoamento da droga desde o recebimento do exterior até o repasse para a Europa por via marítima ou rodoviária.

‘O contrabando de heroína em Moçambique se assemelha ao comércio de outra mercadoria qualquer – a droga é apenas mais um produto sendo movimentado pelo país sob a coordenação de organizações internacionais’

Operação de transferência

Os dohws ficam ancorados ao largo da costa e o transporte da droga até terra firme é feito por pequenas embarcações.

Da praia, a heroína é transferida para galpões onde é carregada em caminhões que seguem por terra numa viagem de 3 mil km até Joanesburgo, na África do Sul.

De lá, os traficantes escondem a droga em contêineres de exportação de diferentes produtos que seguem por navio para países europeus.

Grande parte da heroína também é enviada diretamente de um porto moçambicano para a Europa escondida em meio a produtos legalmente exportados.

‘Receita de exportação’

Apesar de serem embarcações de médio porte, cada dohw tem capacidade de transportar uma carga de até uma tonelada de heroína. E pelo menos um dohw com heroína chega a Moçambique a cada semana, exceto durante os meses das tempestades de Monções, que tornam a navegação extremamente perigosa.

Estima-se, portanto, que até 40 viagens sejam feitas a cada ano pelos dhows transportando a droga até Moçambique – o que significa que transitam pelo país, anualmente, cerca de 40 toneladas de heroína.

Neste ponto da rota do tráfico para a Europa, o preço da heroína fica em torno de US$ 20 milhões por tonelada. Isso significa que a droga movimentada através do país africano rende entre US$ 600 milhões a US$ 800 milhões a cada ano, fazendo da heroína o segundo maior produto exportado em valor por Moçambique, atrás apenas do carvão, cuja venda ao exterior gera ao país US$ 687 milhões.

Do valor total gerado pelas exportações de heroína, estimo que cerca de US$ 100 milhões permaneçam no país africano, tanto na forma de lucro retido por traficantes locais quanto em pagamento de propinas, incluindo a corrupção de membros do partido do governo Frelimo.

Corrupção e tráfico

Desde o ano 2000, o comércio de heroína vem sendo feito por meio de algumas empresas exportadoras estabelecidas em Moçambique. Elas usam seus galpões para armazenamento da droga que acabam por esconder no meio de produtos exportados legalmente.

Na operação, essas empresas usam também seus próprios funcionários e veículos para a movimentação da heroína traficada pelo país.

Nos portos moçambicanos de Beira e Nakala, fiscais alfandegários são instruídos a não vistoriar os contêineres de certas empresas para que a droga não seja descoberta antes do embarque.

Embarcações dhows são usadas para enviar heroína da costa do Paquistão até Moçambique

Um porta-voz da polícia de Moçambique disse que as autoridades estão investigando o possível envolvimento de membros do partido do governo. Ele acrescentou que a tarefa da polícia de impedir o tráfico de heroína através do país tem sido extremamente difícil.

“Nosso país tem condições geográficas favoráveis ao contrabando, possui um longo litoral e uma imensa fronteira terrestre que facilitam a operação dos traficantes.”

Por seu lado, a comunidade internacional tem ignorado amplamente o tráfico de heroína que passa por Moçambique para que a repressão não acabe afetando de alguma forma a reforma que está sendo promovida no país em outros setores, como por exemplo, o estímulo para que o setor privado assuma maior papel na economia moçambicana.

WhatsApp

Iniciativas empresariais menos estruturadas podem ser encontradas nos desdobramentos do comércio de heroína, onde se nota a aplicação da criatividade típica da economia informal.

O recrutamento de trabalhadores avulsos é normalmente feito via telefone celular utilizando apps específicos.

Para isso, o tráfico tem se valido da crescente corrupção no país, como também da expansão da rede de telefonia celular em Moçambique e do crescimento no país da popularidade do WhatsApp, o aplicativo que permite a comunicação através de mensagens protegidas por códigos.

Um motorista de caminhão ou o dono de uma pequena embarcação recebe uma mensagem por WhatsApp informando local e hora em que deve coletar a carga de heroína e o valor que irá receber pelo serviço.

Ninguém conhece a identidade do remetente das mensagens ou ao menos o local de que foi enviada.

Para os traficantes, emitir ordens para a movimentação de 20 quilos de heroína é tão fácil quanto contratar uma corrida de táxi pelo aplicativo de transporte Uber, e tudo é feito em total segredo.

Reforço no combate às drogas no leste da África empurrou o tráfico para o sul do continente

Aperfeiçoamento das comunicações

Vinte anos atrás, os deslocamentos dos carregamentos de heroína pelas estradas de Moçambique eram sempre acompanhados de policiais corruptos para garantir que os caminhões não seriam incomodados em barreiras existentes ao longo do percurso.

Com a melhoria gradativa da telefonia celular no país, os motoristas que eram parados em postos de controle na estrada passaram a esperar por uma mensagem em que lhes era passado um número para ligar e autorizar a liberação da carga.

Atualmente, com a maior disseminação da corrupção em Moçambique, os motoristas recebem uma quantia em dinheiro que usam para subornar os policiais em barreiras rodoviárias. O que conseguirem economizar até o destino final, podem reter como forma de remuneração pelo transporte do contrabando.

África do Sul

Não tem havido apreensão significativa de heroína em território moçambicano, entretanto, as autoridades sul-africanas de fronteira têm conseguido impedir que parte da droga entre em seu país.

A rota de exportação pelo continente africano tem causado um aumento no número de usuários na Cidade do Cabo e em outras grandes cidades da África do Sul.

Estas apreensões têm revelado que os traficantes preferem embalar a heroína no Afeganistão em pacotes de 1 quilo, provavelmente para impedir que a carga seja adulterada ao longo do trajeto. Entre os nomes preferidos pelos traficantes na rotulação da droga estão Topaki, 555 e Africa Demand.

Ordem de compra via aplicativos

Neste mundo moderno de apps e de mensagens encriptadas, um traficante na Europa pode emitir uma ordem de compra de 100 quilos de heroína 555 que será enviada a um distribuidor em qualquer parte do planeta.

Por sua vez, o distribuidor reúne várias ordens que vão compor a carga de uma tonelada que será transportada por um dhow.

Usando WhatsApp, ele também se encarrega de acertar com contatos locais a coleta da droga em Moçambique e a transferência para os armazéns.

Nesses galpões, a carga é então separada de acordo com cada ordem de compra individual que, por sua vez, vai seguir viagem até Joanesburgo, de onde será transportada para seu destino final em cidades europeias ou enviada de Moçambique diretamente ao comprador na Europa.

A agilidade da operação faz com que o contrabando de heroína em Moçambique se assemelhe ao comércio de outra mercadoria qualquer – a droga é apenas mais um produto sendo movimentado pelo país sob a coordenação de organizações internacionais.”

Fonte: bbc

Receita apreende carga de heroína avaliada em R$ 30 milhões no RJ

Com a droga, enviada da China, estava também material explosivo. Carregamento chegou ao Brasil em setembro e estava no Galeão

Auditores da Receita Federal apreenderam, no Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, uma carga com heroína e um explosivo utilizado na fabricação de dinamite. A apreensão aconteceu na manhã desta terça-feira (24/4), em uma carga de origem chinesa.

São cerca de 100kg de heroína e 50kg de ácido pícrico, detectados em análises preliminares. Segundo a delegada adjunta da Receita Federal, Patricia Miranda, a carga havia sido registrada como o produto farmacêutico fluticazona.

Os materiais chegaram em setembro do ano passado, vindos de Hong Kong, e estavam aguardando liberação, pois havia um problema nos documentos.

De acordo com a delegada, o valor estimado da heroína apreendida gira em torno de R$ 30 milhões. A empresa importadora é estabelecida em Porto Velho (RO) e as investigações agora passam à responsabilidade da Polícia Federal (PF).

Fonte: metropoles

Prefeitura de NY pede que moradores andem com seringas antioverdose para salvar usuários de heroína

Prefeitura de NY pede que moradores andem com seringas antioverdose para salvar usuários de heroína

Você salvaria um estranho prestes a morrer por overdose de drogas pesadas em uma esquina escura, de madrugada?

A prefeitura de Nova York aposta que sim.

A principal cidade dos Estados Unidos enfrenta uma epidemia inédita de heroína e drogas similares que já mata três pessoas por overdose todos os dias. A situação reflete uma crise que se alastra rapidamente pelo país mais rico do mundo: mais de 1 milhão de americanos já são dependentes desse tipo de droga, que foi a principal causa de morte de homens e mulheres com menos de 50 anos no ano passado.

Em uma tentativa ousada de reverter o aumento de 46% nas mortes por overdose registrado entre 2015 e 2016, o governo local decidiu convocar a população a agir, espalhando milhares de cartazes em inglês e espanhol por vagões de metro com o mote “Salve uma vida”.

Pôster da campanha com imagem de Evelyn, que salvou a vida de um vizinho porque carregava seringa de naloxona

Eles pedem que moradores tenham na bolsa doses de remédios que revertem os efeitos de uma overdose – e para isso contam histórias como a de Evelyn, que conversou com a BBC Brasil na semana passada.

“Eu tinha pegado um caminho diferente para voltar do trabalho para casa. Era tarde e encontrei um homem no chão. Ele estava azul e não respirava. Vi que éramos vizinhos”, conta a nova-iorquina de 58 anos. “Eu tinha o remédio na bolsa e apliquei nele. Não demorou dois minutos e ele já estava respirando de novo.”

“Me sinto satisfeita”, completa a mulher, com a voz embargada. “Se eu tivesse feito o caminho de sempre, hoje esse homem estaria morto.”

Evelyn conta nunca usou drogas. Mas, como milhares de pessoas em todo o mundo, não deixou de ter a vida afetada por elas.

“Eu ainda era uma criança, nos anos 1960, quando minha mãe recebeu um telefonema dizendo que o corpo do nosso primo havia sido encontrado em um prédio abandonado, três dias depois de morrer por overdose. Há três meses, outro primo foi encontrado morto em um motel”, conta Evelyn.

“Eu conheço esse sofrimento e, desde que o remédio está disponível, o carrego comigo.”

Uma morte a cada 7h

O remédio em questão é a naloxona – uma substancia de efeito rápido que anula os efeitos da overdose por drogas derivadas do ópio.

Graças a convênios da prefeitura, a medicação – em seringas ou aplicação nasal – passou a ser vendida em mais de 700 farmácias sem necessidade de receita médica, além de ser distribuída gratuitamente em pontos espalhados por toda a cidade.

O objetivo é que todo cidadão nova-iorquino esteja preparado para aplicar a medicação, caso encontre alguém em estágio de overdose em seu caminho.

O programa de redução das mortes por heroína em Nova York também inclui uma linha telefônica para aconselhamento em 200 idiomas, 24 horas, e tem investimento anual de US$ 38 milhões – ou quase R$ 150 milhões, 12 vezes maior que o extinto programa Braços Abertos, da prefeitura de São Paulo contra o crack.

A disponibilização do medicamento e de cursos gratuitos para identificação dos sinais de overdoses e procedimentos para aplicar o remédio, segundo a prefeitura de NY, pretende reduzir os riscos a que os usuários de drogas ilícitas estão expostos, além de aproximar usuários e não usuários na luta pela redução de mortes por overdose.

“Um nova-iorquino morre a cada 7 horas por overdose. Nós sabemos que as overdoses podem ser prevenidas, e um dos caminhos é engajar as pessoas”, disse à BBC Brasil a médica Hillary Kunins, uma das responsáveis pela campanha na Secretaria de Abuso de Álcool e Drogas da cidade.

Questionada sobre uma possível resistência entre a população, a especialista nega que os nova-iorquinos sejam individualistas e diz que há um “senso forte de comunidade” entre eles. “Queremos encorajar as pessoas a sentirem empatia e tomarem iniciativa”, afirma Kunins. “Qualquer indivíduo em Nova York pode salvar a vida de alguém.”

Com o rosto e sua história estampada em vagões de trens e memes pela internet, a nova-iorquina Evelyn se tornou uma das seis personagens da campanha que apela a moradores para aplicarem o remédio quando encontrarem pessoas em overdose – mesmo se não tiverem relação próxima com os usuários.

Billy, morador de Manhattan, conta na campanha que salvou uma mulher às 2 horas da manhã com uma injeção de naloxona. Já o militar Brian, morador do Queens, diz que encontrou o pai caído da cama e sem respirar após o uso de heroína.

“Depois de alguns minutos, ele estava de volta. Ele saiu dessa. Aquele foi um momento decisivo para nós dois.”

Os personagens – homens, mulheres, brancos, negros e latinos – refletem a incidência da epidemia.

Segundo o governo, as mortes já se espalham por todos os bairros de Nova York e envolvem diferentes grupos étnicos – em 2016, a taxa absoluta de overdoses foi ligeiramente maior entre nova-iorquinos brancos, do sexo masculino.

Redução de danos X internação compulsória

O número de pessoas salvas de overdoses no ano passado graças a aplicação da naloxona foi maior do que uma por dia, segundo dados oficiais.

“Quando há estigma ou preconceito contra pessoas que usam drogas, ou contra os serviços dedicados àqueles que usam drogas, os indivíduos ficam menos à vontade para falar sobre seu vício ou procurar ajuda quando precisam”, diz a coordenadora do programa à BBC Brasil.

“Eles precisam admitir para si mesmos que têm um problema. Reduzindo e mostrando que esta é uma questão de saúde, acreditamos que será mais fácil para pessoas e familiares buscarem ajuda e se ajudarem.”

Segundo a porta-voz da secretaria de Abuso de Álcool e Drogas da cidade, a “redução de riscos” é parte importante da estratégia adotada pela cidade para reduzir as mortes por overdose.

“É uma forma de engajar pessoas que podem não estão preparadas ou interessadas em abandonar completamente as drogas naquele momento, mas estão interessadas em dar passos para proteger sua saúde”, diz, ressaltando que o plano não visa transformações imediatas, mas a médio prazo – e de maneira sustentável.

Cartaz da campanha promovida pela prefeitura de NY

“A redução de danos é parte do programa, que também inclui tratamento para usuários, campanhas de prevenção e aumento do conhecimento das pessoas sobre o assunto. São estratégias múltiplas acontecendo, porque o problema, como se sabe, é complexo.”

A BBC Brasil pergunta sobre a estratégia de internação compulsória, anunciada pela prefeitura de São Paulo para o combate ao crack.

“Esse é um tópico que também é discutido aqui nos Estados Unidos e nasce da vontade de ajudar as pessoas e protegê-las. Vejo boas intenções. Mas, infelizmente, não há bases científicas consistentes para essa abordagem, nem informações que provem que ela funciona.”

A médica completa: “infelizmente, em muitos lugares em que a internação compulsória foi aplicada não usam as estratégias científicas mais recentes ou táticas comprovadas em laboratórios”.

‘Meus impostos, não!’

Segundo especialistas, o crescimento abrupto do número de dependentes pode ser fruto do aumento de prescrições de analgésicos opiáceos (remédios contra dor, que agem no cérebro de maneira semelhante à heroína), vendidos sob receita médica no país.

Segundo o CDC (Center for Disease Control and Prevention – Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças, em tradução livre), a quantidade de analgésicos opiáceos receitados nos EUA quadruplicou desde 1999.

Leis recentes restringiram o acesso ao remédio, mas traficantes passaram a vender os medicamentos, assim como a heroína, cujos efeitos podem ser mais rápidos e fortes. Assim, muitos usuários acabaram migrando dos analgésicos para a droga ilícita.

Nos Estados Unidos, como no Brasil, as estratégias de combate ao vício esbarram em resistência de parte da população, que afirma preferir que o dinheiro de seus impostos seja investido de outra maneira.

Epidemia inédita de heroína já mata três pessoas por overdose todos os dias em NY

A médica Hillary Kunins agradece quando perguntada sobre isso.

“As pessoas que usam drogas experimentam consequências em sua saúde, mas esses problemas nos afetam a todos”, diz.

Ela dá exemplos: “Crescimento da transmissão de HIV, colocando outros em risco. Ou pessoas com vidas menos estáveis e, portanto, mais custosas à sociedade, porque dependem de mais tratamentos na saúde pública. Ou o aumento no número de pessoas que não estão trabalhando e, consequentemente, pagando impostos”.

A médica diz que a redução de danos engaja os usuários a quererem a se tornar membros ativos da sociedade.

“Investir em tratamento economiza em saúde e em segurança. Salva famílias.”

Fonte: bbc.com

O consumo de heroína chega a níveis de epidemia nos Estados Unidos

O consumo de heroína chega a níveis de epidemia nos Estados Unidos

Luis González era viciado em crack e cocaína, foi preso, se recuperou, trabalhou como guarda-costas de um cantor dos Bee Gees e tornou-se monitor de viciados em um centro de desintoxicação. Mas esse homem tarimbado de 59 anos não tinha visto nada parecido com o que está acontecendo agora. “Eles estão indo todos para o cemitério”, diz. A epidemia de opiáceos queima as veias dos EUA. Segundo o The New York Times, em 2016 as drogas mataram mais gente do que nunca, pelo menos 59.700 (uma projeção a partir de dados oficiais do primeiro semestre e que continua subindo desde os 47.000 de 2014 e os 52.400 de 2015). No ano passado, morreram mais norte-americanos do que nos 19 anos da Guerra do Vietnã.

Desse total de mortes, cerca de 35.000 foram devidas ao consumo de heroína pura ou misturada com opiáceos sintéticos ilegais que têm como principal origem a China e que até pequenos traficantes conseguem receber pelo correio depois de fazerem o pedido em sites ocultos da Internet. O composto mais comum de cinco anos para cá, 50 vezes mais forte do que a heroína, é o fentanil –que matou Prince em 2016–, outro mais recente, mas pouco usual, é o carfentanil, 100 vezes mais potente que o fentanil e capaz sedar com uma pitada um elefante de seis toneladas.

Mas nenhum perigo por desmesurado que seja parece espantar um viciado em heroína. “Eu não tenho medo”, afirma Edward [os nomes dos viciados entrevistados são fictícios, a pedido deles], um branco de 31 anos, em Overtown, o mais antigo gueto negro de Miami. “É uma loucura o que estou te dizendo, não? Pois eu não tenho medo. Chega um momento em que você não se preocupa com mais nada. Esta manhã eu me levantei doente, vomitando, e acabei comprando uma heroína de merda, sem nenhuma força. Um lixo”. Dez minutos depois, Edward estava no chão, caído junto a um semáforo, vendo passar os carros.

“A informação disponível sugere que o problema continuará a piorar durante 2017”, diz por e-mail Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA, na sigla em inglês). “Essa tendência é resultado de uma crise de saúde pública alarmante. A overdose de drogas é a causa de morte mais comum entre os norte-americanos com menos de 50 anos”, acrescenta.

Luis González, que trabalha em um centro de desintoxicação em Miami. P. LL.

O consumo da heroína subiu nesta década e é consequência da facilidade de acesso que existiu na década anterior ao uso médico de fortíssimos analgésicos legais. Na esteira da batalha dos anos noventa contra as fábricas de cigarro, vários Estados processaram empresas farmacêuticas por terem supostamente incentivado o consumo de medicamentos que causam dependência, influenciando inúmeros médicos que os prescreveram sem restrição. A Flórida se tornou a capital das clínicas que dispensam comprimidos, chamadas pill mil (moinhos de comprimidos).

“Comecei com a oxicodona”, lembra Dylan, um rapaz loiro de série de televisão para adolescentes de 23 anos viciado em heroína. “Odeio estar assim. Eu era um cara muito popular quando era garoto. Mas estraguei tudo”. Ana, de 25 anos e origem porto-riquenha, começou com a heroína de uma maneira chocante: “Meu avô era viciado e injetou-me heroína para me estuprar quando eu tinha 14 anos. Fiquei grávida e abortei”. Agora ela anda sobre a corda-bamba dos coquetéis selvagens que consome: “Desde janeiro eu morri cinco vezes. Cada dia colocam coisas mais fortes na mistura e morro mais do que antes”.

Ana, Edward e Dylan recebem cuidados do Miami Needle Exchange, uma ONG de financiamento privado que lhes dá seringas novas e faz testes de HIV –Miami é a segunda cidade em novas infecções depois de Baton Rouge (Louisiana). Os agentes do programa estacionam o furgão e a briosa coordenadora Emelina Martínez, de 49 anos, sai para caminhar por Overtown para cumprimentar as pessoas, para que saibam que chegaram. Em cada esquina são percebidos movimentos fugidios entre as mãos que distribuem a droga discretamente. Uma branca gaiata e magra como um fio cumprimenta em meio segundo um negro de bicicleta e esconde suas doses sob as calças. “É La Flaca”, diz Emelina. Um rapaz branco, na faixa dos trinta anos, que usa uma camiseta com uma caveira passa de patinete ao lado dela e faz um gesto mal-humorado. “Ele é um dos mais ariscos”, comenta.

Na Flórida, um dos Estados mais atingidos pela praga, mais de 4.000 pessoas morreram em 2016 de overdoses relacionadas com opiáceos, de acordo com cálculos preliminares não oficiais. As estatísticas públicas registraram um aumento de mais de 100% no número de mortes por heroína e fentanil entre 2014 e 2015. Os casos compilados pela imprensa são cada vez mais brutais. No último sábado foi divulgada a autópsia de um casal encontrado morto na madrugada do Ano Novo em Daytona Beach (Flórida) com seus três filhos pequenos na parte de trás do carro. Overdose de fentanil.

Depois de vários anos resistindo, o governador Rick Scott, um republicano muito conservador, declarou estado de emergência de saúde em maio e concedeu 54 milhões de dólares (cerca de 179 milhões de reais) para o próximo biênio que serão investidos em prevenção, tratamento e reabilitação. Os viciados, admitiu Scott, “são filhos, filhas, mães, pais, irmãs, irmãos e amigos e suas tragédias deixam seus entes queridos em busca de respostas e elevando orações para que alguém os ajude”.

Viciado em uma rua do Bronx, em Nova York. SPENCER PLATT AFP

Tomando café com Luis González, seu amigo de origem cubana, Danny Tricoche, de origem porto-riquenha, ex-heroinômano de 63 anos e membro de outro centro de reabilitação, diz com amargura: “Antes a droga era coisa dos latinos e dos negros pobres das grandes cidades; agora que foi para os subúrbios dos brancos, ah!, agora sim temos um grande problema”. Os registros de usuários da organização Miami Needle Exchange refletem a nova característica racial da epidemia: 152 são brancos, 117 são latinos e apenas 12 são afro-americanos. Ermelina Martínez diz: “Os jovens negros gostam de maconha, mas não costumamos vê-los consumindo heroína. Eu acho que como cresceram vendo esses viciados em drogas em suas ruas e sabem o que aconteceu com seus pais com o crack na década de noventa, não se metem nisso”. Ela conta que se ao seu furgão chegam profissionais dos bairros acomodados dirigindo seus carros de gama superior, trocam suas seringas sem dizer uma palavra e se retiram.

“Eu não entendo esse massacre” lamenta González, e conta com familiaridade exemplos do novo pesadelo americano que, por causa do trabalho que faz, sabe em primeira mão, como “uma cheerleader da Carolina do Norte que não sai de Overtown”, ou uma dançarina de striptease chamada Strawberry [morango] por seu cabelo ruivo: “Algum tempo atrás ela veio me pedir dinheiro e pedi que tivesse cuidado porque estão jogando fentanil em tudo. Mas ela já estava tão ruinzinha que disse: “O fentanil me cura”. Bom, há um mês foi encontrada morta debaixo de uma ponte. Assim perdemos a Strawberry. Pobre branquinha”.

Fonte: elpais

Heroína começa a circular no Brasil vendida por R$ 50

Embora a droga não tenha se espalhado, especialistas apontam para o risco de a substância, com altas chances de overdose, ganhar mais adeptos, por causa do ambiente favorável ao consumo

A heroína chegou ao fluxo da Cracolândia, na Luz, região central de São Paulo. A Polícia Civil investiga um grupo de nigerianos e tanzanianos que está trazendo a substância do oeste da África e a comercializando em pequenas quantidades, que custam R$ 50 – cinco vezes mais cara que a pedra de crack.

Se antes a droga, um opióide extraído da papoula, aparecia apenas de maneira esporádica, agora basta ir ao local para encontrá-la, ainda que comercializada por poucos traficantes. A heroína disponível na Cracolândia é vendida em pequenos sacos, em pó, e é consumida em cachimbos, assim como o crack. O efeito entorpecente é mais fraco do que quando a substância é injetada, mas há maior risco de overdose.

Os principais usuários da droga não são brasileiros, mas outros africanos que moram na região central de São Paulo, principalmente nigerianos e tanzanianos. O consumo não é generalizado e não é comum encontrar usuários nas ruas, ainda dominada pelo crack.

O Estado ouviu agentes de saúde que atuam no local e psiquiatras que confirmaram a presença constante da droga por meio dos relatos de usuários. De acordo com eles, a substância circula há pelo menos dez meses, mas em pequena quantidade. “Eles comercializam à noite e vem até gente de fora para comprar” diz um agente de saúde que atua no local.

A reportagem circulou pelo fluxo com auxílio do agente, que apontou parte dos locais onde há o consumo, mas não foi possível ver nenhum usuário ou traficante que tivesse a substância. “Não é todo mundo que vende, é mais raro que as outras drogas. Para achar usuário, tem que olhar nas barracas”, diz.

Ao menos três dependentes químicos disseram que a droga está circulando, mas negaram consumi-la. “É coisa de gringo, custa caro”, disse um deles. Um dos rapazes ofereceu heroína à reportagem, “que tem efeito que demora mais para acabar”, mas afirmou que precisaria pedir a outra pessoa. Também exigia pagamento antecipado.

Crime

Agentes do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) tentam identificar o grupo de traficantes nigerianos e tanzanianos e a quantidade de droga que circula na região, mas há dificuldades.

O delegado de polícia Ruy Ferraz Fontes, diretor do Denarc, diz que a droga não fica armazenada no local, como as pedras de crack, que são facilmente vistas em pratos no meio do fluxo. “Eles têm intermediários que são procurados por quem consome e aí vão buscar a droga em outro lugar. E esses intermediários mudam, não são os mesmos”, explica o delegado. “Ainda é um uso bem restrito. O forte da região é o crack, até porque a população dali não tem dinheiro para comprar a heroína, que é mais cara”, explicou.

A única apreensão de heroína na Cracolândia foi feita em março do ano passado. Dois policiais atendiam a uma ocorrência de suspeita de tráfico de drogas por tanzanianos em um apartamento na Rua General Osório. Quando chegaram na porta do edifício, viram que um homem entrou no local, ficou por cerca de 15 minutos e desceu. Ao abordá-lo, verificaram que tinha uma porção do que mais tarde se confirmou, pela perícia, ser heroína. O homem disse que era usuário e havia comprado a substância de uma dupla de africanos que morava no prédio. Todos foram detidos e o usuário, liberado depois.

Embora os homens não tenham dado informações à polícia sobre a origem da droga – ela é produzida na Ásia, passa pela África e vem para o Brasil -, a suspeita é que pertenciam a nigerianos. Para Fontes, os africanos podem ter feito um acordo com o PCC, que domina o tráfico no local. “Sem autorização eles não conseguiriam vender nada.” Fontes disse que o grupo atuaria na Cracolândia há mais tempo do que foi detectado pelos agentes de saúde. Segundo o ele, o bando está lá há pelo menos um ano e três meses.

Apesar das incursões feitas no fluxo, com câmeras escondidas, a heroína não é vista na “feirinha” de rua. “Sabemos que há uma rotatividade, mas em pequena quantidade”, diz Fontes.

Psiquiatra admite relatos de uso; extensão da rede é desconhecida

O psiquiatra e coordenador do programa Recomeço do governo estadual, Ronaldo Laranjeira, disse que o núcleo que atua no local, o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), tem relatos do uso da heroína, principalmente da população africana, mas ainda não se sabe a dimensão do consumo. “Não temos um diagnóstico claro da rede ou da extensão do problema”, diz.

Ele diz que, embora o núcleo tenha medicação para tratar da abstinência da droga, não há evidências, por enquanto, de que a substância vá se espalhar. “Por que o ecstasy não é mais consumido que o crack, por exemplo? Porque o crack custa R$ 10 e o ecstasy, R$ 50. Essas drogas (heroína e ecstasy)têm um ciclo mais restrito”.

Embora a droga não tenha se espalhado, especialistas apontam para o risco de a substância, com altas chances de overdose, ganhar mais adeptos, por causa do ambiente favorável ao consumo. “Um dos fatores de risco para o consumo de drogas é o ambiente. Essa população da Cracolândia está exposta à heroína. Não estão consumindo, mas podem consumir. Não é nem pelo prazer, mas pelo comportamento de experimentação, pela curiosidade”, diz a pesquisadora do Instituto de Políticas sobre Drogas (Inpad) e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecília Marques.

Ela explica ainda que a substância fumada, com efeito mais fraco que a injetada, pode ter consequências ainda mais graves. “Tão rapidamente quanto outras drogas fumadas, ela chega no cérebro e já faz sua ação de droga depressora. A heroína mata mais do que cocaína.”

O diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da USP, Anthony Wong, diz que a existência de uma comunidade de usuários de heroína, ainda que pequena, é um risco que deve ser combatido assim como o crack. “Há 20 anos ninguém sabia o que era o crack. E já se dizia: se esse negócio ficar sem controle, vai ser a maior tragédia que o Brasil verá. Hoje o crack é um dos maiores problemas de saúde pública. E com a heroína, uma das drogas que causam dependência mais rapidamente, não deve ser diferente.” Wong afirma ainda que, se a substância for injetada, aumentam os riscos de doenças transmitidas com agulhas.

Droga é mais comum na Ásia, Europa e EUA

O relatório mundial sobre drogas da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2016 aponta que os opiáceos (ópio, heroína e morfina) têm cerca de 17 milhões de usuários pelo mundo.

O número global de usuários, segundo o estudo, mudou pouco nos últimos anos, afetando 0,4% da população global de 15 a 64 anos em 2014. A concentração do uso, segundo a ONU, acontece na seguinte ordem: Ásia oriental, Ásia central, Europa e América do Norte.

Mesmo com uma queda de 38% na produção de ópio, o órgão vê baixa possibilidade de redução no consumo. O relatório destaca que houve um aumento do uso de heroína na América do Norte na última década, o que explica o aumento no número de overdoses pela droga.

Já na Europa, o consumo vem caindo. O Brasil não é citado no capítulo que fala sobre a droga – o destaque do País é em cocaína. O Irã registrou a maior quantidade de opiáceos apreendidos, respondendo por 75% da apreensão mundial em 2014. De toda a morfina apreendida no mundo, 61% vieram do país, além de 17% de toda a heroína. A Turquia aparece no relatório em segundo lugar nas apreensões de heroína, seguida pela China, Estados Unidos, Afeganistão e Rússia.

Apreensões

5,03 quilos de heroína foram apreendidos pela Polícia Federal em 2013, segundo o Mapa de Apreensão de Entorpecentes.

75% das apreensões de ópio foram registradas no Irã em 2014; País também respondeu por 17% das apreensões de heroína em todo o mundo.

Estadão Conteúdo