Vídeo raro flagra onça-pintada arrastando tartaruga às margens do Rio Guaporé em Cabixi
Guia de pesca registrou a cena em setembro quando navegava pelo rio a caminho do Mato Grosso; imagens reacendem debate sobre convivência entre humanos e onças na região
📋 Em resumo ▾
- Uma onça-pintada foi filmada arrastando uma tartaruga pela margem do Rio Guaporé, em Cabixi (RO).
- O vídeo foi gravado em 24 de setembro pelo guia de pesca Jackson Francisco e viralizou nas redes sociais.
- Biólogos confirmam que a predação de tartarugas por onças é biologicamente conhecida, embora raramente flagrada por câmeras.
- A onça-pintada é classificada como espécie vulnerável no Brasil, e Rondônia abriga parte crítica de sua área de ocorrência.
- Por que isso importa: registros como esse ajudam a documentar o comportamento de uma espécie ameaçada e a sensibilizar sobre sua conservação na Amazônia.
Uma onça-pintada foi flagrada arrastando uma tartaruga às margens do Rio Guaporé, em Cabixi, no sul de Rondônia. A cena, rara mesmo para quem vive às margens do rio, foi registrada por um guia de pesca que navegava pela região e viralizou nas redes sociais.
Como a cena foi registrada
O vídeo foi gravado no dia 24 de setembro e publicado por Jackson Francisco em suas redes sociais. Nas imagens, o felino aparece com a tartaruga na boca enquanto caminha pela margem do rio.
Ao g1, Jackson contou que estava a caminho de uma vila em Comodoro (MT), onde havia sido contratado para trabalhar, quando avistou o animal. “Eu fui subindo o rio acima. Estávamos em três barcos, eu e uns meninos que também iam trabalhar lá, mas daí eles ficaram pra trás e eu subi primeiro. Foi quando eu me deparei com essa cena da onça. Eu fiquei sem reação, só peguei o celular e comecei a gravar”, relatou.
O guia disse que costuma pescar na região havia anos, mas nunca tinha presenciado uma onça atacando outro animal, e admitiu ter sentido medo diante da cena: “Fiquei impressionado porque eu nunca tinha visto uma cena dessa de uma onça selvagem atacando um bicho.” Depois de arrastar a tartaruga para dentro da mata, o animal desapareceu, e Jackson seguiu viagem.
O que a ciência diz sobre esse comportamento
Embora rara de se flagrar por câmera, a predação de tartarugas por onças-pintadas é um comportamento conhecido pela ciência. Um estudo publicado na revista científica Biota Neotropica analisou a predação de tartarugas-da-amazônia (Podocnemis expansa) por onças-pintadas nas praias do Rio Javaés, no Tocantins, o que ajuda a confirmar que a interação observada em Cabixi é biologicamente plausível — ainda que as imagens não permitam identificar a espécie exata da tartaruga nem confirmar o momento da caça propriamente dita.
Consultado pelo portal Primeira Página, o biólogo João Marcelo Biagini explicou que a alimentação das onças varia conforme as oportunidades existentes em cada ambiente — ou seja, o felino se adapta às presas disponíveis na região em que vive, incluindo répteis como tartarugas, quando a oportunidade surge.
A região do Rio Guaporé, aliás, já é alvo de iniciativas de conservação voltadas justamente para os quelônios: o Governo de Rondônia mantém registros do Projeto Quelônios do Guaporé, conduzido pela Associação Comunitária e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale), que atua na proteção de ninhos, ovos e filhotes encontrados nas praias da região — um trabalho que convive, na natureza, com a presença de predadores como a onça-pintada.
Uma espécie vulnerável na mira da conservação
A onça-pintada (Panthera onca) é classificada como espécie vulnerável pela lista oficial do Ministério do Meio Ambiente, e como quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Segundo o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Onça-Pintada, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Amazônia concentra uma única grande população contínua da espécie no Brasil — mas justamente a região que inclui o sul de Rondônia é apontada pelo plano como uma das áreas mais críticas para a sobrevivência do animal, por estar no chamado “arco do desmatamento”, onde a perda de habitat e a caça por retaliação — motivada pela predação de animais domésticos — mais ameaçam a espécie.
Nesse contexto, registros como o flagrado por Jackson Francisco no Guaporé ganham valor adicional: documentam, em ambiente natural e preservado, o comportamento de caça de uma espécie cuja sobrevivência de longo prazo depende diretamente da manutenção de áreas como essa.
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