Poder e Bastidores

A compra de armamentos de Israel é uma questão ideológica?

Por Odilon Guedes*

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O Brasil pretendia comprar 36 veículos blindados de Israel por cerca de R$ 1 bilhão, mas a aquisição foi vetada pelo governo federal.  Como resposta, o ministro da defesa, José Múcio, afirmou que o Brasil cria embaraços diplomáticos na área da defesa ao recusar a fazer negócios com outros países por ideologia.

Antes de acusar o governo do qual ele faz parte, o ministro deveria fazer uma análise mais ampla sobre a suspensão da compra. Além disso, o exército brasileiro deve comprar 420 viaturas blindadas Guaicurus da fabricante italiana Iveco. Segundo a Força, a aquisição custará cerca de R$ 1,4 bilhão.

Nesse contexto é necessário lembrar que o governo federal vem sofrendo forte pressão do mercado financeiro para manter o equilíbrio fiscal. O governo recentemente congelou cerca de R$ 15 bilhões em busca desse equilíbrio cortando recursos nas áreas da cultura, educação e saúde.

Por que então aumentar as despesas públicas em cerca de R$ 2,4 bilhões na compra totalmente dispensável de armamentos? Com esse valor, é possível construir cerca de 26.700 casas populares (Abrainc dados 03/2023). Entre gastos com armamentos e investimentos em educação, cultura, saúde ou habitação, não há dúvida de que a sociedade sabe onde deve se investir o dinheiro público.

Uma outra razão para o governo federal dispender cerca de R$ 2,4 bilhões seria o Brasil estar em guerra ou em perigo de ser atacado por algum país sul-americano com os quais temos divisas ou ainda termos graves disputas territoriais.

 O fato é que a última guerra que o país enfrentou, com o Paraguai, ocorreu há mais de 150 anos. De lá para cá vivemos em perfeita paz com todos os nossos vizinhos. Em relação às disputas fronteiriças, o Barão de Rio Branco, ministro das relações exteriores entre 1902 e 1912, resolveu todos os possíveis conflitos sem a necessidade de disparar um único tiro. Fizemos acordos com a Argentina em torno do território de Palmas, com a França em relação a fronteira do Amapá com a Guiana Francesa e com a Bolívia e Peru em relação ao território do Acre. Em todas essas três negociações, vencidas pelo Brasil, foram incorporados cerca de 900 mil quilômetros quadrados as nosso território. Esse grande brasileiro traçou os princípios de nossa diplomacia, baseados na igualdade soberana entre os países, no respeito ao direito internacional e na não intervenção nos demais países.

Finalmente, ao abordar os embaraços ideológicos apontados pelo ministro José Múcio, precisamos lembrar que, em relação as compras de armamentos de Israel, este país está fazendo uma ocupação e uma guerra assimétrica no território palestino de Gaza que já matou e massacrou mais de 40 mil pessoas, sendo a maioria crianças e mulheres.  Com a ampliação da guerra e a invasão do Líbano dois brasileiros foram mortos. Além disso, o governo de Israel já havia informado o presidente do Brasil é persona non grata naquele país, além de ter feito amplas acusações contra o presidente em uma postura totalmente arrogante e fora dos padrões diplomáticos.

Diante de todas essas questões, é mais do que justa a suspensão da compra de todos esses armamentos.


(*) Odilon Guedes – Economista, Professor Universitário e Vice-Presidente do Conselho Regional de Economia SP. Foi Vereador e Subprefeito na cidade de São Paulo. Autor do livro Orçamento Público e Cidadania (Editora L. Física)