PF pede investigação de Flávio Bolsonaro por financiamento de filme
Polícia Federal aponta indícios de evasão de divisas e coação. Caso pode ser ligado à atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA e enviado ao STF
📋 Em resumo ▾
- PF envia parecer favorável à abertura de inquérito contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à PGR.
- Investigação foca em pedido de dinheiro a Daniel Dantas para filme sobre Jair Bolsonaro.
- Suspeitas incluem evasão de divisas e financiamento da permanência de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
- Por que isso importa: O caso conecta operações financeiras internacionais a acusações de coação ao Judiciário brasileiro
A Polícia Federal (PF) recomendou nesta semana a abertura de uma investigação formal contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parecer, enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR), conclui que há elementos suficientes para apurar as circunstâncias em que o parlamentar solicitou recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“A avaliação inicial seria de que a forma da remessa de valores e os objetivos dela precisam ser apurados.”
Como Flávio Bolsonaro possui foro privilegiado, a decisão final sobre a abertura do inquérito cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF). A expectativa nos bastidores jurídicos é de que o caso seja atribuído ao ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao grupo Master, do qual Vorcaro faz parte. A medida responde a representações protocoladas por políticos e advogados após a revelação das mensagens pelo site The Intercept Brasil.
A discrepância financeira e o destino dos recursos
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores foi o volume de recursos envolvidos. Segundo a PF, foram enviados R$ 61 milhões para os Estados Unidos. Outro fator suspeito é a logística da produção: grande parte das gravações do filme ocorreu em solo brasileiro, enquanto o fluxo financeiro foi direcionado integralmente para o exterior.
Essa movimentação atípica levantou a hipótese de que os fundos não foram usados exclusivamente para a produção cinematográfica. Uma das linhas de investigação prioritárias é verificar se parte do dinheiro teria sido destinada a custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos EUA. O ex-deputado reside no país desde o ano passado e é réu no Supremo, acusado de coação no curso do processo.
A acusação contra Eduardo baseia-se na alegação de que ele atuou para convencer autoridades americanas a aplicarem sanções econômicas contra o Brasil — o chamado "tarifaço" — e a imporem medidas contra autoridades brasileiras. O objetivo, segundo a denúncia, seria pressionar o Judiciário nacional a não condenar seu pai, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.
Conexão com o crime de coação
Se a investigação confirmar que os recursos solicitados por Flávio a Vorcaro ajudaram a financiar a estadia de Eduardo nos EUA, as implicações legais podem ser severas. A PF avalia que os envolvidos poderiam ser enquadrados por colaboração no crime de coação, já que a presença de Eduardo no exterior está diretamente ligada às tentativas de influência sobre o STF.
Além disso, há fortes indícios de evasão de divisas. A saída irregular de grandes somas do país, sem a devida comprovação de contrapartida comercial ou serviço prestado no exterior, configura ilícito penal e administrativo. A PF destaca que a justificativa apresentada inicialmente — financiamento de filme — não se sustenta diante da desproporção entre os custos de produção no Brasil e o valor enviado abroad.
Pressão no STF e silêncio dos investigados
Em paralelo à ação da PF, o ministro Alexandre de Moraes deu um prazo de cinco dias para a PGR se manifestar sobre um pedido do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Lindbergh solicita a inclusão de Flávio e Jair Bolsonaro no inquérito que já tramita contra Eduardo Bolsonaro nos EUA. Moraes é o relator desse processo no Supremo.
Até o momento, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, não se pronunciou sobre o parecer da PF nem o pedido de Lindbergh. A assessoria de Flávio Bolsonaro também não respondeu às solicitações de comentário, repetindo a postura adotada quando as mensagens vazaram: o senador confirmou a solicitação de recursos, mas negou qualquer irregularidade, afirmando que o dinheiro foi integralmente repassado à produtora do filme. Ele prometeu apresentar contratos e comprovantes de gastos, documentos que ainda não foram tornados públicos.
Um cenário político-jurídico complexo
O caso expõe as entranhas de uma operação que mistura produção cultural, lobbying internacional e disputas judiciais de alta intensidade. Para o governo e para a oposição, a conexão entre o financiamento do filme e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA representa um capítulo grave na tentativa de interferência externa em assuntos internos brasileiros.
Para a defesa de Bolsonaro, trata-se de uma narrativa política construída para criminalizar a liberdade de expressão e a produção artística. No entanto, a análise técnica da PF foca estritamente no rastro do dinheiro e na conformidade legal das transações internacionais.
A decisão do STF nos próximos dias será determinante. Se o inquérito for aberto, a Justiça terá acesso a dados bancários, contratos e depoimentos que poderão esclarecer se o filme “Dark Horse” foi apenas um projeto cinematográfico ou a fachada para uma operação de influência política e fuga de capitais. O desfecho poderá reforçar ou enfraquecer as acusações de coação que já pesam contra a família Bolsonaro no mais alto tribunal do país.
Versão em áudio disponível no topo do post.