Iate de R$ 2 bi de Vorcaro vira peça em processo de €17,5 mi na Justiça de Londres
Super embarcação de 102 metros construída pelo estaleiro alemão Lürssen foi comprada por Daniel Vorcaro em 2024, revendida após sua prisão em novembro e adquirida em janeiro por Nik Storonsky, fundador da Revolut; corretora Cecil Wright cobra comissão de €17,5 milhões
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- Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, comprou em 2024 o super iate Nixie (102 metros, estaleiro alemão Lürssen) por €350 milhões (R$ 2 bilhões) e o revendeu após ser preso em novembro de 2025
- A embarcação foi originalmente encomendada pelo empresário canadense Patrick Dovigi (ex-jogador de hockey, fundador da GFL Environmental), que a recomprara de Vorcaro após a prisão do banqueiro
- Em janeiro de 2026, Nik Storonsky, cofundador da fintech Revolut, adquiriu o iate diretamente de Dovigi; corretora Cecil Wright & Partners o processa na Corte de Londres por €17,5 milhões de comissão
- O iate possui piscina de borda infinita com fundo de vidro de 25 pés, heliponto, "beach club", academia com câmara de crioterapia e cabines para 12 convidados
- Por que isso importa: A trama expõe o circuito paralelo de luxo no qual bilionários de quatro países negociam ativos de R$ 2 bilhões fora do radar regulatório, enquanto o banco de Vorcaro deixou milhões de clientes sem acesso a recursos
Um super iate de 102 metros de comprimento, avaliado em €350 milhões (cerca de R$ 2 bilhões pelo câmbio atual), construído pelo estaleiro alemão Lürssen e equipado com piscina de borda infinita com fundo de vidro de 25 pés, heliponto e câmara de crioterapia, tornou-se peça central de uma ação judicial na Corte de Londres. O processo não tem Daniel Vorcaro como réu, mas o ex-banqueiro brasileiro — preso em novembro de 2025 com o Banco Master sob liquidação extrajudicial do Banco Central — é um dos personagens-chave da trama. A disputa envolve Patrick Dovigi, empresário canadense e ex-jogador de hockey; Nik Storonsky, cofundador da fintech Revolut; e a corretora de iates de luxo Cecil Wright & Partners, que cobra €17,5 milhões de comissão.
A origem: Dovigi encomenda, Vorcaro compra, a prisão devolve
A história do iate começa com Patrick Dovigi, 47 anos, fundador da GFL Environmental Inc., uma das maiores empresas de gestão de resíduos da América do Norte, com valor de mercado de cerca de US$ 17,6 bilhões e faturamento anual de US$ 8 bilhões. Ex-goleiro profissional de hockey que chegou a ser draftado pela NHL, Dovigi encomendou a embarcação ao estaleiro alemão Lürssen, mas vendeu-a antes da entrega.
O comprador foi Daniel Vorcaro, 42 anos, que em 2024 adquiriu o iate por €350 milhões. A embarcação, batizada de Nixie, tem 334 pés (102 metros) e ostenta luxos que espelham o exibicionismo do ex-banqueiro: piscina de borda infinita com fundo de vidro de 25 pés, "beach club", academia de ginástica e uma câmara de crioterapia.
A posse de Vorcaro durou pouco. Em 17 de novembro de 2025, o banqueiro foi preso no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em um voo particular com destino a Dubai — investigadores afirmam que o destino real seria Malta, como tentativa de fuga. A prisão ocorreu no contexto da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura a emissão de cerca de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro, gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Dois dias depois da prisão, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Vorcaro, então, revendeu o iate de volta a Dovigi. O empresário canadense, que já havia encomendado a embarcação, tornou-se seu dono pela segunda vez.
A entrada de Storonsky: quando a Revolut encontra o mar
Em janeiro de 2026, Nik Storonsky, cofundador e CEO da Revolut — fintech britânica avaliada em cerca de US$ 45 bilhões —, adquiriu o iate diretamente de Dovigi. A compra, porém, não ocorreu sem atrito.
A Cecil Wright & Partners, corretora especializada em iates de luxo, alega na Corte de Londres ter sido a "causa efetiva" da venda. Segundo a petição, a corretora apresentou o iate a Storonsky e deveria receber uma comissão de 5% sobre o valor da transação — equivalente a €17,5 milhões (cerca de R$ 102 milhões).
O que a corretora denuncia é uma manobra clássica do mercado de luxo: o comprador, depois de ser apresentado ao ativo pelo intermediário, fecha o negócio diretamente com o vendedor para economizar a comissão. A Cecil Wright afirma que Storonsky agiu "pelas costas" ("behind its back", no original) para evitar o pagamento.
"A petição não menciona Vorcaro nominalmente, mas o jornal britânico lembra da primeira prisão do ex-dono do Banco Master."
Vorcaro não é parte no processo. Mas é ele quem conecta os pontos: sem sua prisão e a consequente necessidade de vender o iate, Dovigi não teria reassumido a embarcação; sem Dovigi como vendedor, Storonsky não teria fechado a compra que gerou a disputa judicial. O banqueiro brasileiro, "ora abrigado em local bem longe dos mares europeus", como registrou o jornal O Globo, tornou-se pivô involuntário de uma batalha jurídica de €17,5 milhões.
O iate Nixie: um palácio flutuante de R$ 2 bilhões
O Nixie não é uma embarcação qualquer. Construído pelo estaleiro Lürssen, de Bremen, um dos mais renomados do mundo em super iates, o navio de 102 metros é um exercício de opulência técnica.

Ficha técnica do iate
A câmara de crioterapia — usada por atletas de elite para recuperação muscular — e o "beach club", área de lazer na popa com acesso direto ao mar, são equipamentos que revelam o perfil do comprador original: Dovigi, ex-goleiro profissional, mantém hábitos de atleta mesmo após deixar o gelo. A piscina com fundo de vidro, por sua vez, é a marca registrada do exibicionismo de Vorcaro, que em vida de ostentação chegou a gastar R$ 15 milhões na festa de debutante da filha, com show de Alok, e a comprar uma mansão em Trancoso por R$ 280 milhões.
Contexto: o banqueiro que comprou um iate com dinheiro de CDBs sem lastro
A compra do iate por Vorcaro em 2024 ocorreu no auge do crescimento aparente do Banco Master. Sob seu comando, a instituição — originada da aquisição do Banco Máxima em 2016 e rebatizada em 2021 — havia comprado o Voiter (ex-Indusval), o Will Bank (6 milhões de clientes) e a seguradora Kver.
O crescimento, porém, era uma fachada. A PF descobriu que o Master emitia CDBs com taxas de até 180% do CDI para captar recursos e cobrir rombos. Parte dos ativos usados como lastro era fictícia: a empresa Tirreno teria vendido créditos inexistentes ao banco. Um fundo da gestora Reag — ligada ao grupo — registrou retorno de 10.502.205%.
Quando a casa caiu, o prejuízo foi colossal. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) teve que ressarcir milhões de reais a correntistas. O Banco de Brasília (BRB), que tentara comprar o Master, sofreu prejuízo de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes.
Vorcaro, enquanto isso, acumulava bens de luxo: carros, relógios, obras de arte, armas, e o iate de €350 milhões. Na prisão de novembro, foram apreendidos R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo, além de veículos e joias.
Os quatro personagens de uma trama global
A história do iate Nixie é, em essência, um retrato em miniatura da economia global de luxo:
Patrick Dovigi, o encomendador original. Bilionário canadense que transformou uma estação de transferência de lixo problema em um império de US$ 17 bilhões. Tem dois jatos particulares (Bombardier Global 7500 e Global 5500), um iate anterior de 377 pés (Ahpo) e já manifestou interesse em comprar o super iate Breakthrough, de 390 pés, encomendado por Bill Gates e avaliado em US$ 645 milhões.
Daniel Vorcaro, o intermediário forçado. Banqueiro brasileiro que comprou o iate com recursos de um banco que emitia CDBs sem lastro, e o revendeu após ser preso tentando fugir para Malta. Hoje, além de responder por crimes financeiros, é investigado por suposta ligação com o PCC e por manter uma "milícia privada" chamada "A Turma" para intimidar opositores.
Nik Storonsky, o comprador final. Físico russo-britânico, cofundador da Revolut em 2015, transformou a fintech em um dos maiores bancos digitais do mundo. Aquisição do iate Nixie em janeiro de 2026 consolidou sua entrada no clube dos bilionários que negociam ativos de nove dígitos fora das bolsas.
Cecil Wright & Partners, o intermediário excluído. Corretora de iates de luxo que alega ter sido enganada em uma comissão de €17,5 milhões. O processo na Corte de Londres expõe as regras não escritas — e frequentemente violadas — do mercado de super iates.
A pergunta que o caso deixa
O iate Nixie, avaliado em R$ 2 bilhões, foi encomendado por um canadense, comprado por um brasileiro com dinheiro de CDBs sem lastro, revendido ao canadense após a prisão do brasileiro, e comprado por um russo-britânico em uma transação que gerou um processo de €17,5 milhões na Justiça inglesa. Nenhum dos quatro países envolvidos — Alemanha (estaleiro), Canadá (Dovigi), Brasil (Vorcaro) e Reino Unido (Storonsky e o processo) — teve visibilidade sobre a origem dos recursos usados na compra original.
Enquanto isso, milhões de clientes do Banco Master aguardam ressarcimento do FGC. O BRB tenta se recuperar de um prejuízo de R$ 12,2 bilhões. E Vorcaro, que um dia navegava em um palácio flutuante de 102 metros, hoje navega em processos criminais no Brasil e em ações civis em Londres sem nem ser parte.
A pergunta que o caso deixa é simples: quantos iates de R$ 2 bilhões ainda estão ancorados em portos europeus, comprados com dinheiro de CDBs sem lastro, de fundos com retorno de 10 milhões por cento, de bancos que quebraram enquanto seus donos festejavam em "beach clubs" com câmaras de crioterapia?
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