A estranha epidemia de dengue que disparou no Brasil; veja dados e eficácia das vacinas
Números dispararam na última década; Em Rondônia, saltou de 3.193 casos em 2010 para 10.641 em 2023
A dengue, uma doença viral transmitida por mosquitos, é um problema de saúde pública significativo no Brasil. Ao longo dos anos, o país tem enfrentado desafios crescentes em relação à incidência da dengue e seus impactos na população. Nos últimos anos, a evolução da dengue no Brasil apresenta números alarmantes.
No contexto brasileiro, a presença da dengue remonta há décadas. Desde a sua identificação no país na década de 1980, a doença tem sido uma preocupação constante devido à sua propagação rápida e aos desafios associados ao controle do mosquito transmissor. A urbanização acelerada, o clima tropical favorável à reprodução do mosquito Aedes aegypti e as condições socioeconômicas precárias em algumas regiões são fatores que contribuíram para a disseminação da dengue no Brasil.
Nos últimos dez anos, o país testemunhou um aumento alarmante nos casos de dengue. Dados estatísticos revelam uma tendência preocupante de crescimento exponencial dessas ocorrências. Em 2019, por exemplo, foram registrados mais de 1 milhão de casos prováveis de dengue em todo o território nacional. Esse cenário evidencia a urgência de abordar efetivamente essa questão e implementar estratégias robustas para conter a propagação do vírus. Em 2024, o país registrou 1.017.278 casos nas primeiras oito semanas deste ano. No mesmo período do ano passado, o Brasil tinha 207.475 casos

Até o momento, 214 mortes foram confirmadas desde janeiro, e 687 seguem em investigação.
Sete estados (AC, GO, MG, ES, RJ, SC e SP) e o Distrito Federal declararam emergência em saúde pública devido à dengue. Especialistas observam que o início precoce do aumento de casos chamou a atenção neste ano. A curva está inclinada positivamente desde o início do ano, indicando uma alta velocidade de propagação.
A expectativa é que o Brasil bata todos os recordes de casos de dengue em 2024.
A vacina contra a dengue, conhecida como Dengvaxia, foi introduzida no Brasil em 2016. No entanto, seu uso tem sido objeto de debate e preocupações devido a alguns eventos adversos e limitações de eficácia em determinados grupos populacionais.
Diversos fatores têm contribuído para o aumento da incidência de dengue no Brasil. A falta de saneamento básico em muitas áreas urbanas favorece o acúmulo de água parada, criando ambientes ideais para a reprodução do mosquito vetor. Além disso, questões relacionadas ao planejamento urbano deficiente e à falta de investimentos adequados em políticas públicas preventivas têm exacerbado o problema. A resistência aos inseticidas utilizados no controle do Aedes aegypti também representa um desafio adicional às autoridades sanitárias.
Os impactos sociais e econômicos decorrentes do aumento da dengue são significativos. Do ponto de vista da saúde pública, a sobrecarga nos sistemas hospitalares e nas unidades básicas de saúde é evidente durante os surtos epidêmicos. Os altos custos associados ao tratamento médico dos pacientes com dengue representam uma pressão adicional sobre os recursos governamentais destinados à saúde. Além disso, as consequências individuais das pessoas afetadas pela doença incluem perda de produtividade no trabalho e comprometimento da qualidade de vida.
Para combater eficazmente a propagação da dengue, diversas medidas preventivas têm sido adotadas pelas autoridades brasileiras ao longo dos anos. Campanhas educativas para conscientizar a população sobre práticas adequadas de prevenção contra mosquitos transmissores foram amplamente difundidas. O monitoramento constante dos índices larvários nas cidades permite identificar focos críticos rapidamente e intervir com medidas corretivas necessárias.
Em conclusão, o combate à dengue requer esforços coordenados entre governo, vigilância sanitária e a população. Tornou-se crucial fortalecer programas contínuos de distribuição gratuita de long-lasting insecticidal nets (LLINs), inspecionar regularmente locais possíveis de transmissão de vetores, tomar medidas rápidas e promover campanhas educativas sobre boa prática ambiental.
Vacinas
Veja abaixo quais as vacinas disponíveis, suas indicações e contra-indicações.
QDENGA
Qdenga (TAK-003) é uma vacina tetravalente com vírus vivo atenuado, produzida pela farmacêutica Takeda.
A Qdenga é uma vacina recombinante quimérica atenuada*, o que significa que utiliza uma mistura de componentes dos vírus da dengue DEN-1, DEN-3 e DEN-4, todos construídos sobre uma estrutura do vírus DEN-2.
* Uma “vacina recombinante quimérica atenuada” é um tipo de vacina desenvolvida através de técnicas de engenharia genética. “Recombinante” significa que a vacina é feita combinando material genético de diferentes fontes. “Quimérica” refere-se à mistura de material genético de diferentes tipos ou cepas de um vírus. “Atenuada” indica que o vírus utilizado na vacina é enfraquecido, de modo que não causa doença, mas ainda é capaz de estimular o sistema imunológico a produzir uma resposta de defesa. Essas vacinas são projetadas para induzir imunidade contra várias cepas ou tipos de um vírus simultaneamente.
A Qdenga foi aprovada para uso na Europa em 2022 e no Brasil em 2023. A partir de 2024, a vacina passou a ser distribuída Programa Nacional de Imunizações (PNI) pelo Ministério da Saúde do Brasil, e começou a ser oferecida à população de forma gratuita.
Eficácia da Qdenga
A eficácia da vacina Qdenga foi observada de maneira variada contra os diferentes tipos de dengue:
DEN-1: 69,8% de efetividade.
DEN-2: 95,1% de efetividade.
DEN-3: 48,9% de efetividade.
Não foi possível avaliar sua eficácia contra o tipo 4 devido à pequena quantidade de casos desse sorotipo no estudo.
Além disso, a vacina mostrou uma proteção geral de 84,1% contra hospitalizações por dengue, com resultados semelhantes tanto em indivíduos previamente infectados (85,9%) quanto naqueles sem infecção prévia (79,3%).
Quem pode tomar a Qdenga?
A vacina Qdenga é indicada para pessoas de 4 a 60 anos. No entanto, devido à limitação no fornecimento de doses, o Ministério da Saúde do Brasil decidiu priorizar inicialmente a vacinação de crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, que são um dos grupos mais afetados por hospitalizações devido à dengue.
Por ainda não existirem estudos de segurança da vacina durante a gestação ou aleitamento materno, a Qdenga atualmente não é recomendada para gestantes e lactantes. No entanto, nos casos em que a vacina foi administrada inadvertidamente em gestantes não foi observado nenhum efeito danoso ao feto ou à gestação.
Por ser uma vacina com vírus vivo atenuado, ela é contraindicada para pessoas com imunodeficiências primárias ou adquiridas.
Posologia da Qdenga
A posologia da vacina Qdenga consiste em um esquema de duas doses, administradas por via subcutânea com um intervalo de três meses entre elas.
É importante observar que, para quem teve infecção recente pela dengue, a recomendação é esperar 6 meses após a infecção para receber a vacina. No entanto, se alguém for diagnosticado com dengue entre as duas doses, deve manter o esquema vacinal, respeitando um intervalo mínimo de 30 dias em relação ao início dos sintomas.
Efeitos adversos da Qdenga
Os efeitos colaterais mais comuns da vacina contra dengue Qdenga, que podem afetar 1 em cada 5 pessoas, incluem dor e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça, dor muscular, sensação de mal-estar geral e fraqueza. Até 1 em cada 10 pessoas pode apresentar febre. Esses efeitos colaterais, geralmente de gravidade leve a moderada, tendem a se resolver em poucos dias e são menos frequentes após a segunda dose da vacina do que após a primeira.
DENGVAXIA
A Dengvaxia, vacina contra a dengue da farmacêutica Sanofi Pasteur, foi a primeira vacina da dengue aprovada no mundo, mas por não ser indicada para pessoas que nunca tiveram dengue e por ter eficácia geral mais baixa que a Qdenga (60% contra 80%), seu uso de forma ampla na população tende a ser mais restrito.
A Dengvaxia é destinada a pessoas de 9 a 45 anos em regiões com alta prevalência da doença. Seu esquema vacinal envolve três doses.
A vacina mostrou eficácia variável dependendo da história prévia de infecção pelo vírus da dengue. Contudo, surgiram preocupações sobre sua segurança em pessoas sem exposição anterior ao vírus, indicando um risco aumentado de dengue grave neste grupo. Por isso, seu uso foi restrito a indivíduos com infecção prévia comprovada por exames de sangue.
A Dengvaxia não foi incluída no programa público de vacinação do SUS, sendo utilizada principalmente no setor privado.
BUTANTAN-DV
A vacina Butantan-Dengue (Butantan-DV) é uma vacina tetravalente, atenuada e de dose única, ainda não aprovada para uso, mas em fase avançada estudo contra a dengue.
Em um ensaio clínico de fase 3, com pacientes entre 2 e 59 anos, recentemente publicado na revista New England Journal of Medicine, a eficácia geral da vacina foi de 79,6%, sendo 73,6% em participantes sem exposição prévia à dengue e 89,2% em quem tinha histórico de exposição. A eficácia variou conforme a idade e o tipo de vírus da dengue, com eficácia de 89,5% contra DEN-1 e 69,6% contra DEN-2.
DÚVIDAS COMUNS SOBRE A VACINA DA DENGUE
Qual é a melhor vacina contra dengue?
Até o momento em que este artigo foi escrito (Fevereiro de 2024), a melhor vacina contra dengue disponível é a Qdenga, por ser segura tanto em pacientes que já tiveram dengue quanto naqueles que nunca foram infectados, mas também porque é a que apresenta as melhores taxas de eficácia.
Quais são as vacinas atualmente aprovadas para uso?
Existem duas vacinas aprovadas no Brasil: Qdenga (Takeda) e Dengvaxia (Sanofi Pasteur).
Quem já teve dengue pode fazer a vacina?
Sim, quem já teve dengue pode tomar qualquer uma das duas vacinas atualmente aprovadas.
Quem nunca teve dengue pode tomar a vacina?
Para quem nunca teve dengue (ou não sabe se já teve), a única vacina permitida atualmente é a Qdenga.
A baixa eficácia da Qdenga para DEN-3 e DEN-4 é um problema sério?
Não. Primeiro, porque os sorotipos mais circulantes no Brasil são os DEN-1 e o DEN-2. Segundo, porque a taxa de sucesso da vacina contra as formas graves da dengue é bastante alta, tanto para quem nunca foi infectado quanto para quem já teve dengue antes.
A vacina da dengue também protege contra zika, febre amarela e chikungunya?
Não, a vacina da dengue protege apenas contra dengue.
A vacina da dengue pode ser administrada junto com outras vacinas?
Em estudos, a vacina dengue foi administrada junto com as vacinas de hepatite A e febre amarela e não mostrou eventos adversos. Contudo, por ser uma vacina de vírus vivo, pode haver interferência na resposta imune, recomenda-se um intervalo de 30 dias entre as vacinas, exceto quando administradas no mesmo dia.
Já fui vacinado com a Dengvaxia, posso tomar também a Qdenga?
Até o momento não existem estudos que mostrem que a vacinação com diferentes vacinas seja seguro.
Por que a vacina da dengue não está indicada para a população idosa?
Porque os estudos de segurança nessa faixa etária ainda não foram publicados. No entanto, algumas agências regulatórias, como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a Administración Nacional de Medicamentos, Alimentos y Tecnología Médica (ANMAT), agência regulatória da Argentina, já aprovaram o uso de Qdenga a partir de 4 anos, sem limite superior de idade. No Brasil, o uso da Qdenga a partir dos 60 anos ainda é considerado off-label.
Quando a Butantan-DV, vacina brasileira do Instituto Butantan, deve estar disponível?
A Butantan-DV está em fase final de testes e deve entrar com o pedido de registro junto à ANVISA até o final de 2024.
Quem não pode tomar a vacina da dengue?
As contraindicações para a vacina da dengue variam consoante a vacina específica. Geralmente, as vacinas da dengue não são recomendadas para:
» Gestantes: devido à falta de estudos suficientes sobre a segurança da vacina durante a gestação.
» Lactantes: pela mesma razão das gestantes, a segurança durante o período de aleitamento materno não está estabelecida.
» Pessoas com imunodeficiências: indivíduos com o sistema imunológico comprometido, seja por condições de saúde ou pelo uso de medicamentos imunossupressores, podem não ser candidatos adequados.
» Pessoas com alergias severas: indivíduos com histórico de reações alérgicas graves aos componentes da vacina.
No caso específico da Dengvaxia, apenas indivíduos com testes sorológicos positivos para dengue podem fazer a vacina.
