A hora dos predadores e o Estado de Direito no Brasil
O Brasil como laboratório global: quando as instituições resistem, mas correm o risco de se tornar aquilo que juraram combater - Por Marcelo Aith
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- A Tese de da Empoli: Em A hora dos predadores, o ensaísta italiano descreve um "tempo borgiano" em que a força busca substituir o direito, e os novos príncipes agem antes de deliberar.
- O Caso Brasileiro: O Brasil ilustra o diagnóstico com nitidez — do 8 de janeiro de 2023 à condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses, o país foi palco da ofensiva predatória e de sua contenção institucional.
- O Confronto Musk vs. Moraes: A disputa entre o empresário Elon Musk e o ministro Alexandre de Moraes em 2024 materializou a tese de forma literal, testando os limites da soberania nacional frente ao poder tecnológico global.
- A Escala Geopolítica: Em 2025, a pressão migrou para o plano internacional, com Donald Trump e o Tesouro americano usando tarifas e sanções para constranger decisão soberana do Judiciário brasileiro.
- O Dilema Central: A defesa do Estado de Direito produziu tensões relevantes — concentração de poderes, decisões monocráticas e questionamentos sobre garantias processuais.
- Até que ponto a democracia pode recorrer a métodos extraordinários sem comprometer sua própria legitimidade?
- A Encruzilhada Contemporânea: O Estado de Direito sobrevive quando as instituições resistem, mas essa resistência só merece esse nome se não se converter ela própria em uma forma de predação.
Em A hora dos predadores, Giuliano da Empoli sustenta que ingressamos em um tempo borgiano, uma fase de turbulência em que o poder volta a ser conquistado por ações brutais e imprevisíveis, enquanto a força desloca paulatinamente o direito. Os novos príncipes, reencarnações contemporâneas de César Bórgia, agem antes de deliberar, porque para eles a primeira lei da estratégia é a ação. Ao seu lado avançam os conquistadores da tecnologia, senhores dos algoritmos que, à semelhança dos espanhóis diante de Montezuma, encontram democracias ocidentais cada vez mais dispostas a render-se. O ensaísta italiano adverte que a janela para um sistema de regras está se fechando e que aquilo que outrora se resolvia pela norma passa a ser decidido pelo fogo e pela espada.
Poucos países ilustram esse diagnóstico com tanta nitidez quanto o Brasil. Já em Os engenheiros do caos, da Empoli situava Jair Bolsonaro entre os populistas digitais que transformaram o ressentimento antielite em poderosa maquinaria eleitoral. O predador, contudo, não surge espontaneamente. Antes dele, uma vanguarda de estrategistas abre caminho, testa narrativas e amplia as fissuras institucionais que tornarão possível sua ascensão. Se a obra anterior descrevia a conquista do poder, a mais recente descreve seu exercício em estado bruto, quando a ação atropela a regra e a força busca substituir o procedimento.
O 8 de janeiro de 2023 representou talvez a mais fiel tradução brasileira dessa lógica. Milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília numa tentativa explícita de ruptura institucional. Quando a primeira lei é agir, pouco importa a viabilidade do objetivo ou a legalidade dos meios. O gesto passa a valer mais que a consequência. O resultado previsível é a tentativa de abolição violenta da ordem democrática.
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