Acuado com possível derrota, Trump tumultua processo eleitoral
Americanos votam nesta terça-feira (3) em meio a temores de distúrbios, depois que Trump ofereceu US$ 1 milhão por denúncias de fraude eleitoral que levem a condenação
📋 Em resumo ▾
- Os EUA realizam nesta terça (3) as eleições de meio de mandato (midterms), com disputas pelo controle do Senado, da Câmara e de diversos governos estaduais
- O presidente Donald Trump ofereceu US$ 1 milhão a quem denunciar fraude eleitoral que resulte em condenação — sem detalhar de onde viria o dinheiro
- Não há evidências de fraude eleitoral generalizada nos EUA, segundo apuração de veículos como NBC News e ABC News
- Autoridades locais, incluindo o xerife democrata Chris Nanos, do condado de Pima (Arizona), temem que a recompensa estimule atos de “justiça com as próprias mãos”
- O Departamento de Justiça vai enviar um número recorde de monitores eleitorais a todos os 50 estados; forças de segurança locais fizeram centenas de simulações para possíveis distúrbios
- Por que isso importa: é a primeira eleição nacional dos EUA em que um presidente em exercício oferece recompensa financeira por denúncias de fraude — um movimento que autoridades locais, mesmo as mais experientes, descrevem como inédito e potencialmente perigoso.
Autoridades policiais e eleitorais locais nos Estados Unidos se prepararam para um dia de eleição tenso nesta terça-feira (3), data das eleições de meio de mandato (midterms), que vão definir o controle do Senado, da Câmara dos Deputados e de diversos governos estaduais. O clima de tensão se deve, em parte, ao fato de o presidente Donald Trump manter um ataque constante à integridade das eleições americanas — incluindo a oferta de uma recompensa de US$ 1 milhão por informações que levem a uma condenação por fraude eleitoral.
A recompensa de Trump
Na segunda-feira anterior à eleição, Trump publicou em sua rede social: “Qualquer um que denunciar Fraude Eleitoral nas eleições passadas, ou nas eleições de meio de mandato de 2026, será pago em US$ 1.000.000 após a prisão e condenação daqueles que cometeram a Fraude.” Não ficou claro de onde sairia o dinheiro da recompensa — a Casa Branca não deu detalhes além da própria publicação do presidente. Segundo apuração da NBC News e da ABC News, não há evidências de fraude eleitoral generalizada nos Estados Unidos, apesar de Trump repetir essa alegação há anos, incluindo sobre a eleição de 2020, que perdeu.
O contexto que ninguém ignora
A escalada de Trump contra a integridade do próprio processo eleitoral não acontece no vácuo. Nas pesquisas finais antes da eleição, os democratas abriam vantagem média de cerca de 9 pontos percentuais no “generic ballot” — a pergunta que mede em qual partido o eleitor votaria para o Congresso —, com institutos como NBC News, CBS News e Reuters/Ipsos projetando maioria democrata na Câmara e, em parte dos modelos, até no Senado. O próprio Trump reconheceu o cenário em seu último grande discurso de campanha, na véspera da votação: “Por algum motivo, o presidente no poder não vence o midterm. Mas demos o nosso melhor”. Ele chegou a dizer que, se os republicanos perderem o Congresso, pretende virar “Mr. Veto” — vetando toda pauta da oposição até forçar uma negociação.
No mesmo período, entre 22 e 28 de outubro, Trump voltou a falar publicamente em disputar um terceiro mandato em 2028 — algo vedado pela 22ª Emenda da Constituição americana —, dizendo que “adoraria fazer isso” e que tinha “os melhores números” de sua carreira. Só no dia 29, já perto da eleição, recuou e afirmou que não buscaria um terceiro mandato. É nesse pano de fundo — pesquisas desfavoráveis e um presidente que flertou de novo com a ideia de se perpetuar no poder — que a oferta de US$ 1 milhão por denúncias de fraude eleitoral chega às urnas desta terça-feira.
O temor da “justiça com as próprias mãos”
Em resposta às alegações infundadas de Trump sobre problemas na votação e à sua campanha para exercer maior controle federal sobre as eleições estaduais, autoridades locais se prepararam para possíveis cenários em que o governo federal tente intervir no processo eleitoral. Algumas delas disseram temer que a oferta do presidente de um incentivo financeiro alto possa fomentar distúrbios ou até atos de justiça com as próprias mãos, com os americanos se encarando com desconfiança nas urnas.
“Não envolvam o público e basicamente criem um sistema de justiça com as próprias mãos, onde vamos dizer: ‘Ei, você pode ganhar milhões de dólares aqui indo até lá e acusando alguém de fraude’”, disse o xerife Chris Nanos, do condado de Pima (Arizona), democrata. “Nossas eleições são conduzidas em nível local, mas mesmo assim temos que lidar com a ameaça de perseguição política vinda do nível federal.”
O aparato de segurança montado para hoje
Para se prepararem para a terça-feira, autoridades eleitorais e forças de segurança locais realizaram centenas de simulações para antecipar possíveis ameaças e distúrbios nos locais de votação. Segundo a CNN, o Departamento de Justiça vai enviar um número recorde de monitores eleitorais a todos os 50 estados. Condados como o de Irwin, na Geórgia, equiparam mesários com botões de pânico, depois que cartas suspeitas chegaram a escritórios eleitorais do estado. O condado de Arlington, na Virgínia, chegou a processar o governo federal para impedir que agentes federais armados se aproximassem de locais de votação.
Os primeiros incidentes do dia
Chuva forte e enchentes na Flórida já obrigaram a mudança de diversos locais de votação nos condados de St. Lucie e Brevard, por segurança dos eleitores e dos mesários. No Arizona, duas das 254 seções eleitorais do condado de Maricopa tiveram fechamento temporário por problema de energia — o episódio, já resolvido, alimentou teorias da conspiração sobre suposta fraude democrata nas redes sociais. Autoridades afirmam que a Guarda Nacional e agentes de imigração não estão previstos para atuar nos locais de votação, apesar do temor inicial.
A eleição desta terça-feira já entra para a história americana por um motivo específico: é a primeira vez que um presidente em exercício oferece recompensa financeira por denúncias de fraude no próprio dia da votação — um movimento que, segundo autoridades locais de diferentes estados, está mais preocupando do que ajudando a garantir a integridade do processo que diz proteger.
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