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Advogada de Flávio recebeu R$ 33 milhões de fundo sem identificar o serviço

A advogada Maria Cláudia Bucchianeri, chefe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, recebeu R$ 33 milhões em 2025 de um fundo fechado de cotista único sem detalhar o serviço prestado

Advogada de Flávio recebeu R$ 33 milhões de fundo sem identificar o serviço
📷 Reprodução/YT
📋 Em resumo ▾
  • A advogada Maria Cláudia Bucchianeri, chefe jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), recebeu R$ 33 milhões em 2025 — numa única nota, mais de R$ 29,4 milhões — do V3 Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Multicarteira, um fundo fechado de cotista único classificado pela CVM como “investidor não residente”
  • As notas fiscais descrevem apenas “honorários advocatícios”, sem detalhar o serviço; a coluna do Metrópoles não encontrou o nome da advogada ou de seu escritório no regulamento do fundo nem em processos judiciais públicos em que o V3 é parte
  • Procurada, Bucchianeri negou irregularidades e disse que a ausência de seu nome em documentos públicos “não indica absolutamente nada”, já que o fundo é privado e sigiloso
  • Em outro episódio, seu escritório emitiu R$ 27 milhões em notas contra o grupo Itaminas no mesmo dia em que o banqueiro preso Daniel Vorcaro assinou a compra da empresa — nesse caso, diferentemente do fundo V3, as notas citam número de processo, e ela detalhou o serviço prestado, negando qualquer vínculo com Vorcaro ou com o Banco Master
  • Por que isso importa: a transparência financeira de quem comanda a estratégia jurídica de um candidato à Presidência vira questão pública relevante — especialmente a três dias do segundo turno, numa campanha que, na mesma semana, trocou acusações de falta de transparência com o adversário
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A advogada Maria Cláudia Bucchianeri, chefe jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e hoje uma das figuras mais visíveis da disputa no TSE, recebeu R$ 33 milhões em 2025 de um fundo fechado de cotista único por um serviço que, segundo apuração do colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, publicada nesta quinta-feira (22/10), ela não detalha.

Quem é Maria Cláudia Bucchianeri

Especializada em direito eleitoral, Bucchianeri foi ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 2021 e 2023, indicada pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio. Hoje, comanda a defesa jurídica da campanha de Flávio — inclusive na disputa desta semana sobre a abertura recíproca de sigilo bancário com Lula, relatada em matérias anteriores do Painel.

O pagamento do fundo V3

Segundo a coluna, o escritório Bucchianeri Advocacia recebeu R$ 33 milhões em três notas emitidas só em 2025 contra o V3 Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Multicarteira — uma delas, sozinha, soma mais de R$ 29,4 milhões. O fundo é fechado, de cotista único, classificado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como “investidor não residente”, gerido pela Vision Brazil e administrado pela QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários (antiga Singulare CTVM).

O que chama atenção, segundo a apuração: todas as três notas descrevem o serviço apenas como “honorários advocatícios”, sem especificar do que se tratava. A coluna verificou o regulamento do fundo e não encontrou o nome da advogada ou de seu escritório como prestador de serviço jurídico. Também acessou os dois processos judiciais que, em 2025, eram públicos e tinham o V3 como parte — e não encontrou nenhuma petição assinada pela Bucchianeri Advocacia neles.

É importante marcar o que isso significa e o que não significa: a ausência do nome dela em documentos públicos do fundo não prova, por si só, que o pagamento foi irregular — o próprio fundo é estruturado como veículo privado e sigiloso, o que é legal e comum no mercado financeiro brasileiro para esse tipo de investidor. O que a reportagem estabelece é uma lacuna de transparência: não há, nas fontes públicas consultadas, como confirmar independentemente qual trabalho jurídico específico gerou um pagamento de R$ 33 milhões.

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A resposta dela: questionada pela coluna, Bucchianeri declarou que a nota “deriva de serviços advocatícios regularmente prestados”, e que a ausência de seu nome em documentos públicos do fundo “não indica absolutamente nada, pois o fundo é exclusivamente privado e a grande maioria das informações e processos são submetidos ao sigilo”.

O caso Itaminas e a coincidência com Vorcaro

A coluna aponta um segundo pagamento de valor semelhante — R$ 27 milhões — emitido pelo mesmo escritório contra o grupo Itaminas, no mesmo dia, 28 de junho de 2024, em que o banqueiro Daniel Vorcaro — hoje preso na Operação Compliance Zero, que apura suspeita de fraude financeira no Banco Master — assinou a versão final da compra da empresa.

A diferença em relação ao caso do fundo V3: aqui as notas fiscais citam o número do processo relacionado ao pagamento, e Bucchianeri detalhou publicamente o serviço prestado — “advocacia contenciosa em Brasília” e trabalho “consultivo/administrativo” na renegociação de uma transação fiscal que beneficiou todo o “grupo Itaminas”, mais de duas dezenas de empresas e o Instituto Inhotim.

Em nota à coluna, ela explicou a coincidência de datas entre o pagamento e a compra da empresa por Vorcaro: “A Bucchianeri Advocacia presta serviços à ‘família Paz’ e às suas empresas desde 2019 (...) A alteração do controle societário da Itaminas foi amplamente noticiada pela imprensa. Como é próprio de operações dessa natureza, a companhia promoveu a equalização de seus passivos com fornecedores e prestadores de serviço. Esta Sociedade Profissional era um desses prestadores de serviço que acumulavam créditos junto à ITAMINAS. Os honorários em aberto, acumulados em anos de atuação e sem relação com a operação de venda, foram renegociados e consolidados, o que originou os pagamentos mencionados pela reportagem.” Ela afirmou ainda, de forma categórica: “A Bucchianeri Advocacia segue prestando serviços regulares à ‘Família Paz’ e às suas empresas e esclarece que jamais prestou serviços ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou a qualquer empresa ou fundo de seu ecossistema.”

Um padrão que já envolveu o próprio Flávio

Esse não é o primeiro episódio a cruzar o nome de empresas ligadas a Vorcaro com faturamento da órbita de Flávio Bolsonaro. Em julho deste ano, reportagens do Poder360 e do Metrópoles revelaram que o próprio escritório de advocacia de Flávio — do qual ele é sócio único — emitiu três notas fiscais somando R$ 1,5 milhão contra duas empresas ligadas ao esquema do Banco Master: duas notas de R$ 500 mil, em 7 de abril de 2025, contra a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., depois canceladas; e uma nota de R$ 500 mil, em 9 de abril de 2025, contra a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda., sem registro de cancelamento. Ambas as empresas têm Rogério Lourenço Novo como sócio ou diretor único, segundo a Receita Federal.

Em vídeo publicado no X em 22 de julho de 2026, Flávio negou irregularidade: disse ter sido contratado pela Contábil Correa, ter recusado trabalho para a Copenhagen — motivo pelo qual, segundo ele, as notas foram canceladas — e que as notas canceladas eram de serviço que nunca ocorreu: “Não movimentou nada, não tem prestação de serviço”. Afirmou não estar sob investigação e sugeriu vazamento ilegal de informação sigilosa por órgãos do governo, além de acusar a reportagem de tentar “marginalizar a advocacia”.

É essencial marcar aqui, com todo o rigor: nenhuma das pessoas citadas nesta matéria — Maria Cláudia Bucchianeri, Flávio Bolsonaro ou Daniel Vorcaro em relação a esses pagamentos específicos — foi formalmente acusada, denunciada ou condenada pelos fatos aqui descritos. O que existe, até a publicação desta matéria, é uma apuração jornalística baseada em documentos públicos (notas fiscais, registros da CVM, processos judiciais) que levanta perguntas sobre a origem e a motivação de pagamentos milionários — perguntas que, em todos os casos relatados, receberam resposta e negativa formal das partes envolvidas, aqui reproduzidas na íntegra.

A coluna do Metrópoles também menciona, em matérias relacionadas publicadas no mesmo dia, outros dois episódios envolvendo o escritório de Flávio — notas de R$ 13,7 milhões sem detalhamento de serviço, e um pagamento de R$ 4 milhões recebido de um advogado que buscava votos para o Senado.

O que essa reportagem estabelece, com solidez, é uma lacuna: dois pagamentos de dezenas de milhões de reais ao mesmo escritório de advocacia, em dois momentos marcantes — um coincidindo com a compra de uma empresa pelo homem hoje preso no centro do maior escândalo financeiro do país, outro vindo de um fundo cuja estrutura legal de sigilo impede qualquer verificação independente do serviço prestado. Em nenhum dos dois casos há prova de ilegalidade — e em ambos a advogada respondeu, por escrito, com explicações específicas.

Mas a soma dos fatos — o cargo que ela ocupa hoje, a proximidade histórica com o TSE, e o tamanho dos valores — é exatamente o tipo de material que, em qualquer outra circunstância, geraria pedido de explicação formal. Resta saber se, numa campanha que nesta mesma semana fez da transparência financeira sua bandeira central contra o adversário, essa pergunta também vai ser respondida com documentos — e não só com notas de esclarecimento.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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