Radar do Judiciário

Advogado que atuava no caso da ilha de Richarlisson foi morto com 11 tiros

Atacante publica documentos contra amigo de Flávio Bolsonaro no mesmo momento em que avanço nas investigações detalha os passos de PM preso pelo assassinato de advogado ligado ao caso

Advogado que atuava no caso da ilha de Richarlisson foi morto com 11 tiros
📷 Reprodução/Fórum
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  • Atacante Richarlison divulga registros cartorários e questiona celeridade da SPU em favor de empresa ligada a Willer Tomaz.
  • Advogado Rodrigo Marinho Crespo, assassinado com múltiplos disparos no Centro do Rio em fevereiro de 2024, atuava na defesa da posse do imóvel em litígio.
  • Polícia Civil e MPRJ identificaram monitoramento prévio realizado por policial militar lotado em Caxias, preso preventivamente no inquérito.
  • Apuração técnica ainda não estabeleceu nexo de causalidade definitivo entre o crime de mando e a querela imobiliária em Angra dos Reis.
  • Por que isso importa: A confluência entre pistolagem profissional, figuras com trânsito político em Brasília e litígios patrimoniais de alto valor expõe a complexidade das investigações de homicídios no Rio de Janeiro.
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A disputa possessória sobre uma mansão de alto padrão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, voltou ao centro do debate público na última quarta-feira (21), após manifestação aberta do jogador Richarlison (Tottenham). O atleta divulgou registros documentais para sustentar a legalidade da compra do imóvel e acusou a empresa WT Administração de Imóveis e Bens, do advogado Willer Tomaz — interlocutor próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) —, de ter sido beneficiada com tramitação atípica na Secretaria do Patrimônio da União (SPU) durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL).

A reabertura do embate ocorre enquanto as autoridades fluminenses consolidam a reconstituição técnica da execução do advogado Rodrigo Marinho Crespo, ocorrida em 26 de fevereiro de 2024. Crespo, que figurava formalmente na representação judicial da causa imobiliária contra os interesses do atleta, foi assassinado a tiros em plena luz do dia em frente à sede da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ).

O rastro telemático e a prisão de policial militar

O inquérito conduzido pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) avançou com a identificação e prisão preventiva do policial militar Renato Franco Lopes (conhecido pelas alcunhas de "Pitbull" ou "Fantasma"). Lotado no 15º Batalhão da PM em Duque de Caxias, o agente foi identificado como um dos envolvidos no cerco à vítima.

O cruzamento de dados de estações rádio base (ERBs) apontou que a linha telefônica do policial militar conectou-se a antenas na Avenida Marechal Câmara às 13h50 do dia do homicídio, permanecendo ativa no perímetro da OAB até aproximadamente 17h15 — instante em que Crespo foi chamado pelo nome e alvejado com ao menos dez tiros por um homem encapuzado. Registros telemáticos mostraram o deslocamento subsequente do aparelho até a Baixada Fluminense, rota compatível com a fuga do veículo Gol branco empregado pelos executores.

Embora a identificação do PM desmonte a fase executória da emboscada, os investigadores tratam a motivação com cautela estrita. Além da lide fundiária em Angra dos Reis, Crespo mantinha atuação litigiosa intensa no bloqueio de ativos contra empresas suspeitas de operarem pirâmides financeiras com criptomoedas — outra linha de investigação em aberto.

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"Se eles acham que têm direitos, que apresentem as provas (...) saber como é que faz para ter esses privilégios de a Justiça resolver mais rápido para um do que para outros."
— Richarlison, atacante do Tottenham e da Seleção Brasileira, em vídeo publicado nas redes sociais.

A disputa na SPU e o desafio público de Tomaz

A querela patrimonial ganhou novo capítulo após Tomaz afirmar publicamente que transferiria graciosamente os direitos da propriedade caso Richarlison apresentasse comprovantes de transação anteriores a julho de 2022. No vídeo divulgado, o jogador exibiu contratos particulares e comprovantes bancários, argumentando que sua tentativa de regularização tramitou sem desfecho por quase dez meses na superintendência da SPU, enquanto o processo em favor da WT Imóveis obteve uma Certidão de Autorização para Transferência (CAT) em modalidade especial com celeridade desproporcional.

A entrada de Crespo na causa ocorreu após o substabelecimento deixado pelo advogado Luis Felipe Salomão Filho, que havia atuado inicialmente para a WT. Na ocasião da morte de Crespo, Tomaz chegou a declarar publicamente que ele não atuava diretamente para sua firma, mas recuou após a imprensa revelar certidões processuais com a procuração outorgada ao escritório da vítima. Em nota, Tomaz sustentou posteriormente que Crespo era associado a uma banca parceira e que não mantinha contato pessoal com ele.

Do ponto de vista probatório, a denúncia de favorecimento na SPU levantada pelo atacante integra o conjunto de acusações de parte em uma contenda cível-administrativa complexa, sem que haja até o momento denúncia penal oferecida ou condenação judicial transitada em julgado contra Tomaz ou agentes federais daquela época por corrupção no caso.

O entrelaçamento entre a execução sumária de um advogado no Centro do Rio e uma disputa milionária de terra na Costa Verde reforça o padrão sombrio da pistolagem no estado. Resta ao Judiciário e à polícia técnica separar onde termina a retórica dos negócios e onde começa a engrenagem que puxou o gatilho na calçada da OAB.


Versão em áudio disponível no topo do post.


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