Alliança entra com recuperação extrajudicial de R$ 1,1 bi em São Paulo
Rede de diagnósticos médicos fundada em 2010 consegue adesão de 83 credores — 54% dos créditos — antes mesmo da homologação; 92% do valor já comprometido será convertido em ações, numa operação que expõe o rastro deixado por Nelson Tanure
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- A Alliança Saúde (ex-Alliar, AALR3) protocolou pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo, com dívidas que chegam a R$ 1,1 bilhão
- O plano foi submetido com adesão de mais de 83 credores, representando 54% dos créditos sujeitos à reestruturação — quórum suficiente para aprovação judicial
- Do valor já comprometido por credores signatários, mais de 92% será convertido em ações da companhia; médicos fundadores e a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa retornam à base acionária
- A empresa, dona das marcas CDB, Cedimagem, Axial e Delfin, foi tomada da gestão de Nelson Tanure em fevereiro de 2026, quando credores executaram ações dadas como garantia de empréstimo de R$ 1,2 bilhão para a compra da Ligga Telecom
- Por que isso importa: A recuperação extrajudicial é um caso raro de sucesso prévio na adesão de credores, mas expõe como a alavancagem de Tanure transformou uma empresa de diagnósticos com 120 unidades em 13 estados em refém de um empréstimo de telecomunicações
A Alliança Saúde (ex-Alliar, AALR3), uma das maiores redes de diagnóstico por imagem do Brasil, protocolou nesta quarta-feira (5) pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo. A companhia, dona das marcas CDB, Cedimagem, Axial, Delfin, Plani e Multiscan, reconhece dívidas de R$ 1,1 bilhão e submeteu o plano de reestruturação já com a adesão de mais de 83 credores — o equivalente a 54% dos créditos sujeitos à negociação, quórum que atende ao exigido pela legislação para homologação judicial. O dado mais impressionante, porém, é outro: do valor total comprometido pelos signatários, mais de 92% será convertido em ações da empresa, numa operação que transforma credores em sócios e apaga, de uma só vez, quase todo o passivo.
Os três caminhos do credor: ações, parcelas ou R$ 15 mil de teto
O plano de recuperação extrajudicial estabelece três opções de pagamento para cada credor, com prazo de 30 dias corridos após a homologação judicial para a escolha:
Plano RJ
Além dessas, o plano prevê condições exclusivas para parceiros estratégicos e locadores de imóveis que decidam manter relações comerciais com a companhia. A administração da Alliança espera que a combinação de conversão de dívidas em ações e descontos aplicados promova uma redução expressiva na alavancagem financeira da empresa.
"A recuperação extrajudicial tem caráter estritamente financeiro e não altera o cumprimento de suas obrigações com pacientes, funcionários, operadoras, seguradoras e cooperativas de saúde", afirmou a companhia em nota.
A virada de Tanure para a Geribá: como a Alliança virou garantia de uma dívida de telecom
A recuperação extrajudicial não é o início da crise da Alliança — é o capítulo final de uma história que começou em 2020, quando o empresário Nelson Tanure comprou a Ligga Telecom (antiga Copel Telecom) por R$ 2,5 bilhões. Para financiar a operação, Tanure colocou R$ 1 bilhão do próprio bolso e tomou um empréstimo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão com credores que incluíam BTG Pactual, Farallon, Prisma e Santander. A garantia do empréstimo? As próprias ações da Alliança Saúde, empresa que Tanure havia assumido o controle em abril de 2022.
Em fevereiro de 2026, cansados de esperar pelo pagamento, os credores executaram a dívida. As ações da Alliança passaram de 67% para 6,96% nas mãos de Tanure numa canetada. O comprador foi o Tessai FIP, fundo gerido pela Geribá Investimentos, gestora especializada em "special situations", que adquiriu 59,84% do capital e assumiu o controle da companhia.
A Geribá, que comprou a Alliança por um valor não revelado — mas insuficiente para quitar a dívida de Tanure, segundo o Pipeline —, iniciou imediatamente um processo de reestruturação. Em março, a empresa entrou com medida cautelar buscando proteção contra a execução de dívidas, considerado o passo que precedia o pedido de recuperação extrajudicial.
Médicos fundadores voltam a ser sócios: o simbolismo da conversão em ações
Um dos destaques da negociação foi o engajamento de médicos fundadores e parceiros relevantes, como a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa, que optaram por converter seus créditos em ações e retornar à base acionária da Alliança. Essa tendência de alinhamento com a visão de longo prazo do negócio foi expressiva: do total do valor detido pelos credores que já assinaram o plano, mais de 92% foi destinado à opção de conversão de dívida em participação societária.
O movimento tem significado simbólico. A Alliança foi fundada em 2010 a partir da fusão de quatro empresas de diagnóstico por imagem em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Campo Grande e São José dos Campos. Hoje, a rede conta com mais de 120 unidades de atendimento, 5 mil colaboradores, cerca de 1,2 mil médicos parceiros e presença em 13 estados brasileiros.
O retorno dos médicos fundadores ao capital pode ser interpretado como uma tentativa de resgate da identidade original da companhia, após anos de gestão marcada pela alavancagem financeira de Tanure — que usou a empresa como garantia para um negócio em setor completamente diferente.
O "saldão Tanure": da Prio à Light, o desmonte de um império alavancado
A perda da Alliança não foi o único golpe sofrido por Nelson Tanure em 2026. O empresário, que construiu um portfólio de empresas em setores tão diversos como petróleo, energia e telecomunicações, viu credores executarem também ações da Light, outra garantia do empréstimo para a Ligga. A Prio (antiga PetroRio), considerada a "joia da coroa" de seu portfólio, teve quase toda a participação de 20% vendida para pagar credores. Até a Emae foi executada pela XP e vendida à Sabesp.
A crise de crédito de Tanure foi agravada pelo escândalo do Banco Master — embora o empresário sempre tenha negado relação societária com a instituição — e pela recuperação judicial da Ambipar, em que também investia. O resultado foi um "saldão" de ativos que transformou a Geribá em uma das principais compradoras de empresas em distress do país.
"O mercado não sabe o tamanho da dívida que ele carrega. O credor vai liquidando os ativos, mas não sabemos se isso vai respingar no balanço de algum banco ou no crédito de alguma empresa", disse um analista sob anonimato ao NeoFeed.
O diagnóstico médico como refém do crédito corporativo
A Alliança não é uma empresa falida — é uma empresa endividada por decisões de seu antigo controlador. O setor de diagnóstico por imagem no Brasil é estruturalmente saudável: envelhecimento populacional, expansão da saúde suplementar e crescente demanda por exames de alta complexidade sustentam um mercado em crescimento. A própria Alliança inovou com o conceito de marketplace de saúde (Cartão Alliança) e a healthtech iDR, pioneira na operação remota de equipamentos de ressonância magnética e tomografia computadorizada com inteligência artificial.
O problema foi a governança. A entrada de Tanure em 2022 trouxe promessas de crescimento e eficiência, mas também a lógica da alavancagem: usar o caixa e as ações da Alliança como garantia para financiar aquisições em outros setores. Quando o ciclo de crédito se inverteu, a empresa de diagnósticos — com unidades em São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pará, Amazonas e mais nove estados — virou refém de um empréstimo que não contraiu.
A Geribá, gestora especializada em comprar empresas com problema, arrumar a casa e extrair valor, agora precisa provar que consegue fazer o que Tanure não fez: consolidar a operação sem transformar a Alliança em garantia de outro negócio.
A recuperação extrajudicial da Alliança é, em aparência, um sucesso de negociação: 83 credores a bordo antes da homologação, 92% do valor convertido em ações, médicos fundadores retornando ao capital. A empresa sairá do processo com alavancagem reduzida, base acionária renovada e a promessa de que "pacientes, funcionários, operadoras e seguradoras" não serão afetados.
Mas a história por trás dos números é um alerta. Uma rede de 120 clínicas de diagnóstico, com 5 mil empregos e 1,2 mil médicos parceiros, quase foi levada ao colapso não por falhas do negócio, mas porque seu controlador usou suas ações como garantia de um empréstimo para comprar uma empresa de telecomunicações. O modelo de "value extraction" via alavancagem cruzada — no qual o acionista usa uma empresa como colateral para financiar outra — deixou a Alliança como dano colateral de uma estratégia que enriqueceu intermediários e quase destruiu quem produz valor real.
A pergunta que fica é se a Geribá, gestora de "special situations", vai operar a Alliança como uma empresa de saúde ou como mais um ativo a ser reestruturado e revendido. Os médicos fundadores que converteram dívidas em ações apostam na primeira hipótese. O mercado, que já viu Tanure prometer o mesmo, ainda está de olho.
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