Argentina atrasa parcelas e deve R$ 63,6 mi à Casa da Moeda do Brasil
Casa de Moneda não pagou as parcelas de junho e julho previstas em acordo fechado em dezembro para encerrar litígio sobre impressão de cédulas entre 2021 e 2023.
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- Casa de Moneda, estatal argentina, deixou de pagar as duas primeiras parcelas de uma dívida de R$ 63,6 milhões reconhecida em acordo assinado em dezembro de 2025 com a Casa da Moeda do Brasil.
- O débito se refere a contratos de impressão de cédulas de peso executados entre 2021 e 2023, período de forte demanda argentina por notas fabricadas no Brasil.
- Não é a primeira vez: em 2023 a estatal argentina já havia atrasado pagamentos a fornecedores, com dívida externa que superou US$ 150 milhões, segundo a Bloomberg.
- Desde 2024 o governo Milei suspendeu a impressão de notas pela Casa de Moneda, cortou pela metade seu quadro de pessoal e prepara a estatal para privatização.
- Por que isso importa: o calote entre duas estatais que simbolizam a soberania monetária dos dois países tensiona relações econômicas justamente quando Brasília e Buenos Aires buscam reaproximação diplomática.
A estatal argentina Casa de Moneda deixou de pagar as duas primeiras parcelas de uma dívida de R$ 63,6 milhões que mantém com a Casa da Moeda do Brasil (CMB). A revelação é do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, publicada neste domingo (2). O caso reacende a discussão sobre a capacidade da Argentina de honrar compromissos financeiros com fornecedores estrangeiros em plena gestão do presidente Javier Milei (La Libertad Avanza).
Duas parcelas seguidas, nenhum pagamento
O débito nasce de um acordo assinado em dezembro de 2025 entre as duas estatais para encerrar um litígio envolvendo contratos, executados entre 2021 e 2023, de impressão de cédulas (InfoMoney). Pelo entendimento, a Casa de Moneda reconheceu formalmente a dívida e se comprometeu a pagá-la em parcelas mensais.
As duas primeiras parcelas, que deveriam ter sido quitadas em junho e julho deste ano, não foram pagas, segundo o colunista. Em suas próprias palavras:
"Em dezembro passado, foi assinado o acordo que reconhece uma dívida equivalente a R$ 63,6 milhões. As primeiras duas parcelas deveriam ter sido pagas em junho e julho. Não foram" (Lauro Jardim, O Globo).
Até o momento da publicação das primeiras reportagens sobre o caso, a CMB e a Casa de Moneda da Argentina não se pronunciaram. O Ministério da Fazenda e o Itamaraty podem passar a acompanhar o caso caso a discussão deixe o âmbito estritamente empresarial, o que sinaliza o potencial do episódio de ganhar contornos diplomáticos.
Não é a primeira vez: o precedente de 2023
Segundo Lauro Jardim, esta não é a primeira vez que a Casa de Moneda atrasa pagamentos à Casa da Moeda do Brasil. Em março de 2023, a Casa de Moneda já acumulava débitos desde outubro do ano anterior, somando cerca de US$ 10 milhões, segundo o jornal Bloomberg. À época, a instituição argentina admitiu enfrentar déficit operacional superior a 11,5 bilhões de pesos e dívidas com fornecedores estrangeiros que superavam US$ 150 milhões.
Em 2023, o governo argentino também atrasou pagamentos à CMB relacionados a notas de pesos argentinos fabricadas no Brasil (InfoMoney). O padrão de inadimplência, portanto, antecede o acordo de dezembro e ajuda a explicar por que a Casa da Moeda brasileira buscou formalizar o reconhecimento da dívida em contrato.
Uma parceria monetária que começa em 1984
A parceria entre os dois países na impressão de moedas remonta a 1984, mas ganhou impulso a partir de 2010. A primeira grande emissão, no entanto, foi feita em 1992, com 277,2 milhões de moedas, depois de a Argentina ter implantado o regime de câmbio fixo, em março de 1991, durante o governo de Carlos Menem.
O volume disparou na década seguinte à crise cambial argentina. Entre 2020 e 2024, a Casa da Moeda brasileira fabricou 2,4 bilhões de cédulas para o país vizinho, representando 61,6% do total histórico enviado à Argentina (Poder360). A intensificação ocorreu principalmente devido à desvalorização do peso argentino e à inflação galopante, que atingiu 254,2% em janeiro de 2024.
À época em que o contrato do litígio foi firmado, a lógica era simples do lado brasileiro: aproveitar capacidade industrial ociosa. Como resumiu o superintendente do departamento de cédulas da Casa da Moeda, Marcone Leal:
"O que a gente tem de capacidade ociosa, a gente tenta encontrar negócios que garantam a ocupação dessa capacidade."
Casa de Moneda em reforma: menos gente, menos notas
Sob a gestão de Milei, o governo suspendeu a impressão de notas pela Casa de Moneda argentina em outubro de 2024, alegando custos elevados e atrasos no fornecimento. Entre outubro de 2023 e março de 2026, o número de funcionários da estatal caiu pela metade, e a empresa foi transformada em sociedade anônima, com previsão de possível privatização ao longo deste ano.
O recuo também reflete mudança de hábito na economia argentina: a Argentina registrava cerca de 5,9 bilhões de cédulas em circulação em maio, o menor patamar desde meados de 2020, em cenário de avanço dos pagamentos eletrônicos e de política de restrição à emissão monetária. Menos dinheiro físico circulando reduz a demanda por serviços de impressão — e, em tese, deveria facilitar o pagamento de dívidas pontuais como a que a Casa de Moneda tem com o Brasil.
O pano de fundo: as contas da Argentina sob Milei
O calote ocorre num momento paradoxal das finanças argentinas. A inadimplência com o Brasil se dá enquanto a Argentina busca apoio do Fundo Monetário Internacional, que aprovou um programa de US$ 20 bilhões em abril de 2025, apesar do país ter falhado em cumprir metas de acumulação de reservas monetárias.
Por outro lado, o governo Milei colheu resultados fiscais elogiados por parte do mercado: a Argentina registrou em 2025 um superávit fiscal primário de 11,8 bilhões de pesos (cerca de US$ 8,1 bilhões) e um superávit financeiro, que inclui o pagamento de serviços da dívida, de 1,45 bilhão de dólares (Ministério da Economia argentino/El Economista). Como reflexo, o risco-país argentino perfurou para baixo a marca de 500 pontos básicos em janeiro de 2026 — o menor nível em quase oito anos, depois de ter superado 2.000 pontos no fim de 2023.
Ainda assim, as contas públicas argentinas voltaram a mostrar fragilidade recente. Junho de 2026 fechou com o primeiro déficit primário e financeiro de toda a gestão de Javier Milei, resultado de uma arrecadação que segue perdendo para a inflação (Perfil). O contraste ajuda a explicar por que uma estatal em reestruturação, como a Casa de Moneda, tem dificuldade para honrar um cronograma de pagamentos mensais firmado havia menos de um ano.
O que vem a seguir
A Casa da Moeda do Brasil ainda não informou publicamente que medidas tomará para cobrar o valor em atraso. As alternativas típicas em contratos desse tipo incluem notificação formal, renegociação de calendário ou acionamento de mecanismos de cobrança previstos no próprio acordo — nenhuma delas confirmada até o fechamento desta reportagem.
O episódio ocorre em momento sensível para a relação bilateral: Brasília avalia gestos de reaproximação diplomática com Buenos Aires, incluindo o eventual retorno de embaixador brasileiro à capital argentina. Um calote reincidente entre duas estatais símbolos da soberania monetária de seus países carrega peso político que ultrapassa o valor contábil da dívida.
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