As 125 mensagens que reconstroem a festa de Nunes Marques no triplex de Vorcaro
Reportagem da piauí, com base em mensagens do celular de Vorcaro apreendido pela PF, reconstitui festa no triplex do banqueiro com a presença do ministro Kassio Nunes Marques
📋 Em resumo ▾
- • Reportagem da revista piauí, com base em 125 mensagens do celular de Daniel Vorcaro apreendido pela Polícia Federal, reconstitui os preparativos de uma festa em seu tríplex no Itaim Bibi (SP), em 28 de fevereiro de 2025.
- • As mensagens indicam que o ministro do STF Kassio Nunes Marques, também presidente do TSE, esteve no local, e que Vorcaro teria providenciado a presença de cinco mulheres por meio de uma agenciadora.
- • A reportagem também cita pagamentos do Banco Master a uma consultoria que teria repassado valores a Kevin Marques, filho do ministro, além de um suposto salário mensal de R$ 500 mil pago por Vorcaro a ele.
- • Procurado pela piauí, Kassio Nunes Marques negou qualquer relação com o banqueiro, disse nunca ter trocado mensagens com ele e afirmou ter votado pela manutenção de sua prisão.
- • Por que importa: o ministro preside o TSE às vésperas das eleições presidenciais de 2026 e integra a Corte que julga o processo do Banco Master — uma eventual proximidade indevida com o principal investigado levanta questões sobre imparcialidade em dois processos de grande relevância institucional.
Uma reportagem da revista piauí, publicada nesta quinta-feira (15), reconstitui, com base em 125 mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, os preparativos de uma festa em seu triplex no Itaim Bibi, em São Paulo, na noite de 28 de fevereiro de 2025. Segundo as mensagens, Vorcaro organizou o encontro entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques e cinco mulheres, providenciadas por uma agenciadora. Procurado, o ministro negou qualquer relação com o banqueiro.
O episódio que veio à tona
As primeiras mensagens sobre o triplex vieram a público em 15 de setembro deste ano, quando os jornalistas Andreza Matais e André Shalders, do Metrópoles, publicaram diálogos entre Vorcaro e uma agenciadora de garotas de programa, nos quais era citado um homem identificado apenas como "Kassio" — grafia que coincide com o nome do ministro Kassio Nunes Marques. Nessas mensagens, a agenciadora Rayanna escreveu ao banqueiro: "A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né? [...] Ela disse que ficou com o kassio", completando que a mulher cobrava um valor, acertado em R$ 10 mil e pago via Pix por Vorcaro.
Segundo a piauí, os diálogos vieram a público no mesmo dia de uma sessão do STF que discutia o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master. Na ocasião, Kassio Nunes Marques anunciou que não participaria da votação, citando sua posição como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às vésperas das eleições — sem qualquer menção pública ao conteúdo das mensagens.
Em 13 de outubro, o UOL publicou, em texto da jornalista Daniela Lima, que o encontro no triplex teve a presença de cinco mulheres, e que Vorcaro escreveu ao ex-diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, dizendo estar "fazendo graça para ministro em SP".
O que mostram as 125 mensagens obtidas pela piauí
Segundo a piauí, que teve acesso a um conjunto de 125 mensagens do celular de Vorcaro, o banqueiro coordenou a noite com pelo menos sete interlocutores: dois motoristas, um chef de cozinha, o mordomo Michael, a agenciadora Rayanna, uma faxineira identificada como Selma e um amigo, Kiko Sobrinho, acionado para resolver problemas no apartamento.
Os preparativos começaram dois dias antes. Na madrugada de 26 de fevereiro, segundo a reportagem, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), pediu ao agente de viagens de Vorcaro um quarto no Hotel Fasano do Itaim Bibi — do qual o banqueiro era sócio — para a "sexta a sábado pro KN", abreviação que a piauí interpreta como referência a Kassio Nunes.
No mesmo dia, Vorcaro combinou um "churrasco animado" com o chef José Maria Meira, que fez compras de carnes, caviar e trufas somando R$ 21.121,90 — valor que, com a equipe contratada, chegou a cerca de R$ 27 mil, segundo a reportagem.
Na sexta-feira, dia da festa, Vorcaro passou ao chef o número de convidados ("São 15 pax") e pediu reforço de garçons. A agenciadora Rayanna avisou que não poderia comparecer, mas enviaria duas mulheres, dizendo que "acertaria com elas depois". Ao longo da tarde, Vorcaro reclamou de detalhes do apartamento — um sofá na varanda, o ar-condicionado quebrado — e orientou o mordomo a abrir as janelas, segundo prints reproduzidos pela piauí.
A chegada dos convidados e a noite no triplex
Segundo a reconstituição da piauí a partir das mensagens, às 14h04 um motorista avisou que as mulheres começavam a chegar, e Vorcaro autorizou: "Todas que chegarem. Pode subir." Minutos depois, o banqueiro escreveu a Luiz Rennó que estava "fazendo graça para ministro em SP" — mensagem citada tanto pelo UOL quanto pela piauí.
À noite, o mordomo Michael relatava detalhes da festa a Vorcaro. Às 20h56, escreveu: "Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina." Vorcaro, segundo a reportagem, instruiu a agenciadora Rayanna: "Só lembra que sem celular." Michael também enviou, segundo a piauí, fotos de preservativos usados e uma peça de roupa íntima encontrada no quarto, ao relatar a limpeza do apartamento — material que a revista cita como parte do conjunto de mensagens analisadas.
Por volta de 23h15, Michael avisou que o ministro se organizava para deixar o local, e a mensagem seguinte confirmou sua saída. Na manhã seguinte, Vorcaro dispensou a faxineira Selma do trabalho naquele dia.
A piauí observa que as mensagens não deixam claro se o próprio Vorcaro esteve presente no apartamento durante toda a noite, mas afirma que ele "deu as cartas o tempo todo" na organização do encontro.
As conexões entre Vorcaro e o ministro no caso do Banco Master
Segundo a piauí, a defesa do Banco Master pediu, em três ocasiões, que o processo da instituição ficasse sob relatoria de Kassio Nunes Marques, e não do ministro André Mendonça. Cinco meses antes da festa no triplex, Nunes Marques desempatou, na Segunda Turma do STF, o julgamento do chamado "caso Alcídia", relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro que, segundo a reportagem, ajudariam a recompor o balanço do Master. A piauí afirma ter acesso a mensagens em que Vorcaro e seus advogados comemoram o resultado do julgamento.
A reportagem também aponta que, no período da festa, o Master transferiu, em catorze operações, um total de R$ 6,6 milhões à Consult Inteligência Tributária — consultoria que, segundo a piauí, repassou R$ 282 mil diretamente a Kevin Marques, filho do ministro. Outras mensagens citadas pela revista indicam que Vorcaro pagava a Kevin Marques um salário mensal de R$ 500 mil.
Essas alegações são tratadas pela piauí como indícios reunidos a partir de mensagens privadas obtidas em investigação policial — não como fatos estabelecidos em decisão judicial.
A crise do Banco Master no mesmo dia da festa
Enquanto organizava o encontro, Vorcaro também lidava, naquela mesma sexta-feira, com problemas financeiros do Master, segundo as mensagens citadas pela piauí. Um contato identificado como ex-diretor do Banco Central, Paulo Sergio Souza, alertou Vorcaro, às 16h31, que o banco estava "800 mm no compulsório" — ou seja, usando parte do depósito compulsório, reserva que as instituições são obrigadas a manter no Banco Central, para sustentar sua liquidez diária. Vorcaro respondeu que a situação seria regularizada "depois do carnaval", citando a venda de carteira e uma captação que viria a ser, segundo a reportagem, a operação anunciada no mês seguinte com o BRB, banco estatal do Distrito Federal.
À noite, a situação teria piorado: o uso do compulsório teria subido para R$ 1,25 bilhão, segundo um executivo identificado como Alberto Felix de Oliveira Neto. Vorcaro reagiu determinando, segundo a piauí, a demissão do executivo em mensagem a outro colaborador, Angelo Silva.
A resposta do ministro Kassio Nunes Marques
A piauí procurou Kassio Nunes Marques com uma série de perguntas: se ele esteve na festa; se houve pagamento a alguma mulher presente; se considera que o episódio compromete sua atuação como relator do caso Master e do pedido de CPI do Master no Senado; se deveria declarar impedimento em relação a votos já proferidos; e se avalia que reúne condições para continuar presidindo o TSE diante das revelações.
Em resposta, enviada à revista, o ministro declarou:
"O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros."
A nota não responde diretamente às perguntas sobre presença na festa, pagamento às mulheres ou eventual impedimento nos processos do Banco Master.
O que está em jogo
Se confirmadas, as mensagens descrevem uma situação sem precedentes na história recente do STF: um ministro da Corte é citado, por meio de mensagens privadas, recebendo favores organizados por um banqueiro cujo processo por fraude bancária tramita na mesma Corte — e que, segundo a piauí, teria se beneficiado de um desempate favorável do próprio ministro cinco meses antes. A gravidade aumenta pelo fato de Kassio Nunes Marques presidir o TSE no período que antecede as eleições presidenciais de 2026.
Até a publicação desta matéria, nem o STF nem o TSE haviam se manifestado institucionalmente sobre o caso, e não há indicação pública de que algum procedimento disciplinar ou de apuração interna tenha sido aberto. A nota do ministro nega qualquer vínculo com Vorcaro, mas não responde diretamente às perguntas sobre a presença na festa ou sobre eventual impedimento nos processos relacionados ao Banco Master.
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