Avibras nas mãos dos Batista: produção, empregos e mísseis
Após comprarem a fabricante do sistema Astros, os empresários querem retomar a produção em larga escala, criar mil empregos e buscar mercados no exterior
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- Os empresários Joesley e Wesley Batista planejam retomar a produção em larga escala da Avibras, fabricante do sistema de artilharia Astros, e buscar novos mercados no exterior.
- Os planos incluem recuperar cerca de mil postos de trabalho perdidos na crise e iniciar conversas com o Ministério da Defesa sobre as necessidades das Forças Armadas.
- Para liderar a transição e a expansão internacional, os Batista trouxeram Bruno Dantas, ex-presidente do TCU, que deve assumir a presidência do conselho da empresa.
- A compra foi feita pela Globe Investimentos, veículo pessoal dos irmãos (que dizem ser separado da J&F), e aprovada sem restrições pelo Cade em 14 de setembro; o valor não foi divulgado.
- Por que isso importa: um grupo bilionário e controverso assume uma empresa estratégica de defesa em recuperação — e a ida de um ex-chefe do tribunal que fiscaliza gastos públicos para o setor reacende o debate sobre a "porta giratória"
Os empresários Joesley e Wesley Batista planejam retomar a produção em larga escala da Avibras, fabricante do sistema de artilharia Astros, e buscar novos mercados no exterior — incluindo a recuperação de cerca de mil empregos perdidos durante a crise da empresa. Para conduzir a transição e a expansão internacional, os irmãos trouxeram Bruno Dantas, ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), segundo pessoas a par dos planos. A compra foi aprovada sem restrições pelo Cade em 14 de setembro.
O que os Batista planejam para a Avibras
Segundo fontes que pediram anonimato por se tratar de planos privados, uma vez aprovado o novo plano de investimento — cujo valor não foi revelado —, a Avibras pretende iniciar conversas com o Ministério da Defesa para avaliar as necessidades das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, mapear mercados prioritários no exterior para novos canais de exportação. A retomada de cerca de mil postos de trabalho faz parte do plano. Procurado, um porta-voz dos Batista não respondeu ao pedido de comentário.
Bruno Dantas, do TCU à indústria de defesa
A peça mais comentada da operação é a chegada de Bruno Dantas. Ex-presidente do TCU entre 2022 e 2024, ele renunciou ao cargo no fim de agosto — poderia ter permanecido até os 75 anos — e deve assumir a presidência do Conselho de Administração da empresa reestruturada, e não a gestão do dia a dia. Sua função, segundo as fontes, será supervisionar a transição e ajudar a liderar a expansão internacional.
"Aos 48 anos, depois de presidir o Tribunal em anos de grande projeção institucional, sentia que estava na hora de novos desafios." — Bruno Dantas, ao deixar o TCU
Dantas construiu a carreira fiscalizando gastos e a administração pública. Foi o primeiro brasileiro em mais de sete décadas eleito pela Assembleia-Geral da ONU para o Conselho de Auditores da entidade e presidiu a Intosai, que reúne órgãos de controle de mais de 190 países.
A "porta giratória" e as críticas que acompanham Dantas
Justamente esse currículo é o que torna a mudança delicada. A ida de um ex-presidente do tribunal que fiscaliza o dinheiro público para uma empresa privada que pretende negociar contratos com o Ministério da Defesa reacende o debate sobre a "porta giratória" entre o Estado e o setor privado. É preciso registrar: o Cade aprovou a operação, e não há, até aqui, imputação de ilegalidade a Dantas.
Ainda assim, sua gestão no TCU já havia sido criticada. Durante a presidência, ele criou o SecexConsenso, mecanismo para mediar negociações entre empresas e governo — estrutura classificada pela Transparência Internacional Brasil como motivo de "especial preocupação", pela falta de transparência e pela concentração de funções em um órgão que atuaria, ao mesmo tempo, como mediador e avalizador. Opositores também o acusaram de favorecer interesses do governo Lula e dos próprios Batista, o que ele nega.
Como a Avibras chegou até aqui: da crise à retomada
Fundada em 1961, sempre privada e nacional, a Avibras é uma das principais empresas da indústria de defesa do país, com domínio de tecnologias críticas de propulsão — o Astros é sua plataforma de maior projeção internacional. A companhia entrou em recuperação judicial em março de 2022, com dívidas estimadas em cerca de R$ 600 milhões, e ficou aproximadamente três anos com a produção parada, em meio a uma greve que durou 1.281 dias. A recuperação foi encerrada em março de 2026, com acordo de cerca de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas a aproximadamente 1,4 mil funcionários.
A virada começou em maio, quando um aporte de R$ 300 milhões — liderado pelo Fundo Brasil Crédito e com participação de Joesley Batista — reativou a fábrica, inicialmente voltada à produção de mísseis. Em julho, o presidente Lula visitou a planta, em meio à maior atenção do governo federal ao setor de defesa.
Quem são os compradores — e a ressalva sobre a J&F
Joesley e Wesley Batista controlam a JBS, maior processadora de carnes do mundo, e o conglomerado J&F — grupo marcado, também, pelo acordo de leniência bilionário firmado em 2017. A aquisição da Avibras, porém, foi feita pela Globe Investimentos, que os irmãos descrevem como um veículo de investimentos pessoais, separado da J&F S.A. — ainda que documentos apresentados ao Cade tenham, inicialmente, vinculado a Globe ao grupo. A decisão do órgão antitruste, tomada em 14 de setembro, ainda não é definitiva: há prazo para recursos.
Depois de carnes, energia, celulose e serviços financeiros, os Batista entram agora em um setor completamente diferente — e sensível: a defesa nacional. É um negócio em que o comprador negocia com o próprio Estado, e no qual o executivo recém-contratado passou a carreira auditando exatamente esse tipo de relação. A pergunta que fica não é se a operação é legal — o Cade já a liberou —, mas se a proximidade entre capital privado, contratos públicos e um ex-chefe do controle externo será conduzida com a transparência que um ativo estratégico como a Avibras exige.
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