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Banco Master e Equatorial sob investigação na privatização da Sabesp

Representação no MP-SP apura conexões entre escândalo do Banco Master e privatizações que beneficiaram a Equatorial com deságio recorde

Banco Master e Equatorial sob investigação na privatização da Sabesp
📷 Rubens Cavallari/Folhapress
📋 Em resumo
  • MP-SP analisa representação que liga Banco Master às privatizações da EMAE e Sabesp
  • Equatorial arrematou Sabesp
  • com deságio de 44% e foi única concorrente no leilão
  • Carlos Piani presidiu conselhos de Ambipar, Equatorial e Sabesp no período das operações
  • Fundo Phoenix, usado na EMAE, foi criado 30 dias antes do leilão com lastro em ações valorizadas 800%
  • Por que isso importa: o caso testa a transparência de privatizações estratégicas e a atuação dos órgãos de controle.
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O MP-SP analisa uma representação que liga o escândalo do Banco Master às privatizações da EMAE e da Sabesp em 2024. O documento, protocolado pelo deputado Antônio Donato (PT-SP), questiona favorecimento à Equatorial Energia, que arrematou a Sabesp com deságio de 44%.

Carlos Piani: a figura que conecta Ambipar, Equatorial e Sabesp

A representação descreve Carlos Piani como elo central da estrutura investigada. Entre março de 2023 e setembro de 2024, presidiu o Conselho de Administração da Ambipar, período em que as ações da empresa valorizaram mais de 800%. Entre junho e julho de 2024, acumulou a presidência do Conselho da Equatorial Energia, exatamente durante a venda do controle da Sabesp. Em outubro de 2024, assumiu a presidência da Sabesp já privatizada.

"A sobreposição de cargos em empresas envolvidas em sucessivas operações com ativos públicos levanta questões sobre governança e conflito de interesses", avalia a representação.

Sob sua gestão à frente da Sabesp, a companhia adquiriu o controle da EMAE em outubro de 2025. O movimento encerra um ciclo no qual o ativo retornou ao ambiente societário de um agente que havia participado da fase anterior da estruturação financeira.

🔍 EMAE é a Empresa Metropolitana de Águas e Energia, responsável pela gestão das represas Billings e Guarapiranga e pelo fluxo do Rio Pinheiros para geração de energia elétrica em quatro usinas, incluindo a Henry Borden.

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Deságio de 44% e concorrência praticamente inexistente

Em julho de 2024, o governo paulista abriu mão do controle acionário da Sabesp. À época, a companhia era avaliada em mais de R$ 56,2 bilhões, com ações negociadas a R$ 82,00. O bloco de controle, correspondente a 15% das ações, foi vendido por R$ 67,00 por papel — totalizando R$ 6,9 bilhões — com a Equatorial como única concorrente.

Especialistas do Observatório Nacional das Águas, da Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado e da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp avaliaram o desconto em 44% abaixo do preço de mercado. Em fevereiro de 2026, as ações da Sabesp eram negociadas a R$ 152,50.

A representação aponta ainda que o BTG Pactual coordenou a oferta pública de outros 17% das ações ao mesmo preço de R$ 67,00, com demanda registrada superior a R$ 200 bilhões para uma oferta de apenas R$ 7,9 bilhões. Outros bancos participantes, como Itaú BBA e Citi, teriam sido excluídos das decisões estratégicas, levantando suspeitas de favorecimento a clientes específicos.

Durante o processo, Karla Bertocco presidia o Conselho de Administração da Sabesp e ocupava simultaneamente cargo no Conselho da Equatorial, a única empresa interessada na compra do bloco de controle.

Banco Master e a estruturação financeira das operações

A representação descreve o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, como peça central na estruturação financeira das duas operações. Segundo o documento, o banco atuou na intermediação de grupos empresariais interessados na aquisição dos ativos públicos, por meio de instrumentos societários que, segundo Donato, serviriam para ocultar a real cadeia de comando econômico.

O pagamento da aquisição da EMAE foi viabilizado pelo Banco Master, via Trustee DTVM, em parceria com Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador da Ambipar, por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A. no valor de R$ 520,15 milhões.

Após assumir o controle da EMAE, o grupo liderado por Tanure aplicou aproximadamente R$ 160 milhões do caixa da companhia em CDBs emitidos pelo Letsbank, controlado pelo Banco Master, e adquiriu cerca de R$ 300 milhões em debêntures da Light, empresa também sob controle de Tanure.

"A dinâmica financeira descrita apresenta características típicas de formação artificial de preço e simulação de liquidez", aponta a representação.

Há ainda um personagem citado com papel político relevante: Fabiano Zettel, pastor, cunhado de Daniel Vorcaro e colaborador do Grupo Master. Segundo a representação, Zettel atuou como uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE. Tanure, Zettel, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM são investigados no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance Zero por suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras.

Fundo Phoenix: constituído 30 dias antes do leilão da EMAE

O leilão da EMAE ocorreu no dia 19 de abril de 2024 na Bolsa de São Paulo. O Fundo Phoenix venceu a disputa com uma proposta de aproximadamente R$ 1,04 bilhão, superando a oferta da EDF. O detalhe que chama atenção na representação é a data de constituição do fundo: 20 de março de 2024, menos de um mês antes do certame.

Segundo investigação concluída pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em maio de 2025, a Ambipar lançou em março de 2024 um programa de recompra de ações que concentrou cerca de 70% dos papéis em circulação. Na sequência, fundos vinculados ao Banco Master e à gestora Reag adquiriram um volume significativo dessas ações, com participação da Trustee DTVM na administração operacional.

🔍 Fundo de Participações em Infraestrutura (FIP) é um veículo de investimento fechado utilizado para financiar projetos de longa maturação, como concessões e privatizações. No caso do Fundo Phoenix, a representação aponta que as ações da Ambipar, usadas como principal lastro patrimonial, teriam sido artificialmente valorizadas antes de servirem de base para a habilitação financeira no leilão da EMAE.

Esse mecanismo produziu valorização superior a 800% nas ações da Ambipar entre abril e outubro de 2024. A representação aponta que a dinâmica apresenta características típicas de formação artificial de preço e simulação de liquidez, condutas que podem se enquadrar no artigo 27-C da Lei 6.385/76, que tipifica a manipulação de mercado.

Próximos passos: o que o MP-SP pode fazer

A representação foi inicialmente encaminhada à Subprocuradoria-Geral de Justiça, que a remeteu à Promotoria de Patrimônio Público por entender que os envolvidos não têm foro privilegiado estadual. O MP informou ao gabinete do deputado que o caso está sendo analisado para verificar possíveis semelhanças com outro procedimento já atribuído à 5ª Promotoria de Patrimônio Público.

🔍 Inquérito Civil é um procedimento investigatório conduzido pelo Ministério Público para apurar fatos que possam configurar dano ao patrimônio público, ao meio ambiente ou a interesses coletivos. Não tem caráter criminal, mas pode subsidiar a propositura de Ação Civil Pública ou ser encaminhado à esfera penal se houver indícios de crime.

O documento pede a instauração de inquérito civil, a apuração de eventual improbidade administrativa, o compartilhamento de informações com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal em caso de indícios de ilícitos de competência da União, e a eventual propositura de Ação Civil Pública.

O que está em jogo além do caso específico

Mais do que apurar eventuais irregularidades em duas privatizações, o caso coloca à prova a capacidade dos órgãos de controle de acompanhar operações financeiras complexas que envolvem múltiplos agentes, fundos de investimento e estruturas societárias sofisticadas. A sobreposição de cargos, a concentração de decisões em poucos bancos e a valorização acelerada de ativos usados como lastro em leilões públicos são padrões que merecem escrutínio.

Se a investigação avançar, poderá estabelecer precedentes importantes para a governança de futuras privatizações e para a transparência na alocação de ativos estratégicos. Se não avançar, ficará a pergunta: em um ambiente de operações cada vez mais complexas, quais mecanismos efetivos restam para garantir que o interesse público prevaleça?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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