BC multa Banco Genial em R$ 21,6 milhões e inabilita CEO André Schwartz
Copas identificou falhas em operações de câmbio e prevenção à lavagem de dinheiro entre 2020 e 2021, incluindo compra de criptoativos no exterior.
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- Banco Central aplicou três multas ao Banco Genial que somam R$ 21,6 milhões, por irregularidades em câmbio e controles antilavagem.
- André Schwartz, CEO da instituição desde 2020, foi inabilitado por quatro anos pelo Copas; outros três diretores foram multados em R$ 1,4 milhão.
- As operações apuradas ocorreram principalmente entre 2020 e 2021 e envolvem compra de ativos virtuais no exterior.
- O Genial já havia sido citado na Operação Colossus, da Polícia Federal, e na Operação Carbono Oculto, do MP de São Paulo.
- Por que isso importa: o caso expõe a fragilidade dos controles de câmbio no sistema financeiro brasileiro justamente no período em que o Congresso alterou a lei que regula essas operações.
O Banco Central aplicou três multas ao Banco Genial que, somadas, chegam a R$ 21,6 milhões, após identificar irregularidades em operações de câmbio e falhas nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro. O Banco Central aplicou multas de R$ 21,6 milhões ao Banco Genial por irregularidades em operações de câmbio e determinou a inabilitação de André Schwartz, atual CEO, por quatro anos. A decisão foi tomada pelo Comitê de Decisão de Processo Administrativo Sancionador (Copas), colegiado do BC responsável por julgar infrações do sistema financeiro, e divulgada nesta quarta-feira (12). A informação foi confirmada pelo Times Brasil, licenciado exclusivo da CNBC no país. Além das multas à instituição, outros três diretores do banco foram sancionados, com valores que somam R$ 1,4 milhão. O Genial ainda pode recorrer da decisão.
O que apurou o Copas
As irregularidades identificadas pelo BC estão concentradas em operações realizadas principalmente entre 2020 e 2021, período que inclui transações ligadas à compra de ativos virtuais no exterior. A datação não é aleatória: coincide com a fase mais intensa de uma investigação da Polícia Federal sobre o mercado de câmbio brasileiro, que corria em paralelo ao processo interno do Copas. André Schwartz, inabilitado por quatro anos, ocupa o cargo de CEO do Genial desde julho de 2020. Sua carreira no mercado financeiro começou em 1990, como estagiário do Banco Pactual, instituição na qual se tornou sócio ainda jovem antes de migrar para funções de tesouraria e banco de investimento. A inabilitação o insere no Quadro Geral de Inabilitados do Banco Central, lista que impede o exercício de cargos de administração em instituições financeiras enquanto a penalidade estiver em vigor.
O caso Genial dentro da Operação Colossus
O nome do Genial já era conhecido de investigadores antes da sanção do Copas. Os bancos investigados pela Polícia Federal eram Master, Genial, Travelex Banco de Câmbio S/A, Santander e Haitong Banco de Investimento do Brasil S/A, no âmbito da Operação Colossus. A investigação apurava um esquema bilionário de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. O esquema investigado — que garantia a evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio da compra de criptoativos, como o USDT (Tether) e o bitcoin — movimentou R$ 61 bilhões em quatro anos, de acordo com a PF. A rede também tinha conexões internacionais: a investigação revelou que ela movimentou R$ 61 bilhões em quatro anos, lavava dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e mantinha elos com o terrorismo internacional, com um operador central filmado no Líbano atirando com um fuzil AK-47 e conectado a um doleiro sancionado pelos EUA por fornecer carteiras de criptoativos ao Hezbollah.Na conclusão do inquérito, a PF afirmou ter constatado a existência de "cegueira deliberada" para irregularidades do mercado de câmbio e para a lavagem de dinheiro por parte dos bancos.
A mudança de lei que esvaziou o inquérito da PF
Enquanto o Copas avançava internamente, um episódio no Congresso Nacional alterou o desfecho jurídico de todo o caso. Em fevereiro de 2021, o relator do projeto do novo marco cambial incluiu uma alteração que transferia dos bancos para os clientes a responsabilidade pela classificação das operações de câmbio, mudança apresentada pelo próprio Banco Central e aprovada em dezembro de 2021. O BC só editou a regulamentação complementar um ano depois, pela Resolução 277, de 31 de dezembro de 2022, confirmando que classificar corretamente as operações era obrigação do cliente, não das instituições financeiras. O efeito prático, segundo a própria PF, foi retroativo. A nova lei retirou dos bancos essa responsabilidade, deixando apenas na mão dos clientes, o que fez com que possíveis condutas ocorridas entre 2017 e 2022 — que estavam sendo investigadas — deixassem de ser crime. Para a PF, a mudança encerrou a possibilidade de responsabilizar os bancos: sem a obrigação legal de classificar as operações, não havia como imputar a eles os crimes de gestão fraudulenta e evasão de divisas. Procurado à época sobre a mudança, o BC informou que a nova lei "aumentou a responsabilidade das instituições, ao atribuir a obrigatoriedade de que cada instituição que opere em câmbio desenvolva e implemente avaliação interna de risco". A multa aplicada agora pelo Copas ao Genial recai justamente sobre a fase anterior a essa mudança de responsabilidade — o que explica por que a sanção administrativa seguiu adiante mesmo depois de a via penal ter sido praticamente neutralizada.
Segunda batalha regulatória em menos de um ano
Não é a primeira vez que o Genial aparece no centro de uma apuração recente. O banco, fundado por Rodolfo Riechert, também foi mencionado na Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em agosto de 2025 para investigar lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Reportagem do Painel Político mostrou que a instituição chegou a ter R$ 176 milhões bloqueados após tentar desfazer duas operações na noite da deflagração da operação — movimento que a Procuradoria classificou como "fraude à ordem de execução". O banco recorreu, mas perdeu; a última decisão no caso foi proferida em 9 de janeiro de 2026. Em nota emitida à época, o Genial afirmou atuar "em estrita conformidade com as normas do mercado financeiro" e disse ter colaborado com as autoridades desde que tomou conhecimento dos fatos. O banco também nega envolvimento na Operação Colossus e diz ter sido reconhecido como terceiro de boa-fé.
Uma instituição sob pressão de resultado
As sanções chegam num momento de desempenho financeiro em queda. Segundo dados obtidos pelo Poder360 junto à Receita Federal, o Genial teve prejuízo de R$ 12,6 milhões em 2024 e de R$ 8,61 milhões em 2023, revertendo o lucro de R$ 20,55 milhões registrado em 2022. No mesmo intervalo, o Índice de Basileia da instituição — métrica que mede a capacidade de absorver perdas com capital próprio — caiu de 13,6% para 10,6% (Banco Central/Receita Federal).
O que vem pela frente
O Genial ainda tem prazo para recorrer das três multas e da inabilitação de Schwartz no âmbito administrativo do próprio Banco Central. Enquanto o recurso não é julgado, o executivo já pode ser incluído no Quadro Geral de Inabilitados, lista que resulta em impedimento imediato para exercer cargos de administração em instituições do sistema financeiro nacional. A pergunta que fica é se a sanção do Copas — puramente administrativa — será o único capítulo restante de um caso que, na esfera penal, perdeu força justamente por uma mudança de lei sugerida pelo próprio órgão que agora aplica a multa.
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