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Braskem sem acordo com credores, recuperação judicial ganha força

Rodada de negociação de terça-feira não destrava consenso sobre um terço da dívida a reestruturar; tutela cautelar de 60 dias vence em poucas semanas.

Braskem sem acordo com credores, recuperação judicial ganha força
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Nova rodada de negociações em 28 de julho não resolveu impasse com credores que detêm ao menos um terço da dívida de cerca de R$ 50 bilhões da Braskem.
  • Tutela cautelar concedida em 26 de junho suspende cobranças por 60 dias e se aproxima do vencimento, pressionando por solução até meados de agosto.
  • Fitch e S&P rebaixaram a nota da companhia para "C" e "D"; JPMorgan cortou preço-alvo da ação de R$ 15 para R$ 7,50.
  • Petrobras, com 47% das ações com voto, estuda injetar capital para evitar processo judicial mais longo, mas não quer elevar participação.
  • Por que isso importa: uma recuperação judicial da maior petroquímica da América Latina afetaria bancos, debenturistas, fundos de crédito privado e a própria Petrobras, co-controladora da empresa.
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A Braskem chegou ao fim de julho sem destravar o consenso necessário para reestruturar sua dívida fora da Justiça. Uma nova rodada de negociações realizada na terça-feira, 28, não convenceu credores que detêm ao menos um terço dos créditos que a companhia pretende renegociar, segundo apurou o Valor Econômico. Sem esse apoio mínimo, a petroquímica se aproxima da recuperação judicial — alternativa já considerada por seus principais acionistas.

A empresa opera sob tutela cautelar desde 26 de junho, quando a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo deferiu o pedido protocolado um dia antes. A medida suspende cobranças e execuções por credores financeiros por 60 dias, prazo que se esgota em torno de 25 de agosto e que já consumiu a maior parte de seu prazo.

Dívida de R$ 50 bilhões sob pressão de caixa

A dívida bruta da companhia soma aproximadamente R$ 50 bilhões. Com a tutela cautelar, a Braskem deixou de desembolsar cerca de R$ 2,7 bilhões em obrigações com vencimento em julho, principalmente cupons de títulos emitidos no mercado internacional, preservando liquidez durante as tratativas. O aperto é estrutural: ao final do primeiro trimestre de 2026, a empresa reportava cerca de US$ 1,06 bilhão em caixa frente a US$ 1,46 bilhão em vencimentos ao longo do ano (XP Investimentos), num cenário de margens comprimidas e geração de caixa negativa.

No mercado secundário, o desconto sobre os papéis da companhia expõe a desconfiança dos investidores: debêntures e CRAs da Braskem chegaram a ser negociados a cerca de 30% do valor de face, ante um desconto de 50% registrado em abril e maio (Brazil Journal). Já os bonds internacionais seguem cotados perto de 50% do valor de face, sem acompanhar a piora dos papéis locais.

Projeto Catalyst e a rejeição do comitê de credores

Antes da rodada mais recente, a Braskem apresentou aos credores um plano de recuperação extrajudicial batizado de Projeto Catalyst, que previa três anos de carência e extensão de cinco anos no prazo de pagamento, sem desconto sobre o principal. A proposta incluía ainda opção de pagamento de juros em espécie de 100% entre julho de 2026 e dezembro de 2028 e redução de 200 pontos-base na taxa aplicável a todos os instrumentos (InvestNews). A oferta foi rejeitada pelo Steering Committee do grupo ad hoc de credores, conhecido como AHG. Em manifestação formal, o comitê classificou a proposta como

"totalmente insatisfatória"
e foi além, ao afirmar que o corte nos cupons seria
"inaudita em uma reestruturação de dívida corporativa"
(Seu Dinheiro).

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O impasse atual tem um obstáculo específico: investidores que ampliaram posições comprando títulos no mercado secundário defendem condições diferentes das oferecidas pela companhia. Entre as contrapartidas exigidas por esse grupo estão novos empréstimos garantidos pelo conjunto dos ativos da Braskem, além de aportes de capital da IG4 Capital e da Petrobras para reduzir o endividamento.

Agências de risco e mercado já precificam calote

A reação das agências de classificação de risco foi imediata após o pedido de tutela cautelar. A Fitch Ratings e a S&P Global Ratings rebaixaram a nota de crédito global da companhia para "C" e "D", respectivamente. A Fitch avaliou que o pedido sinaliza início de um processo com características de inadimplência, podendo evoluir para "RD" (Restricted Default) em caso de descumprimento de obrigação, ou para "D" se houver pedido de proteção contra falência. O mercado acionário seguiu o mesmo tom: o JPMorgan cortou o preço-alvo da ação de R$ 15 para R$ 7,50.

Petrobras sob pressão, sem querer aumentar exposição

A estatal Petrobras detém 47% das ações com direito a voto da Braskem e 36,1% do capital total, após a transferência da participação da Novonor (ex-Odebrecht) para um fundo administrado pela gestora IG4 Capital, em 4 de junho. Diante do risco de recuperação judicial, a petroleira intensificou o acompanhamento da situação e chegou a estudar injetar capital diretamente na companhia para evitar um processo judicial mais longo. Ainda assim, a estatal não pretende elevar sua participação na petroquímica, evitando consolidar passivos adicionais em seu balanço — postura que reduz o espaço para uma solução baseada em aportes dos atuais acionistas.

Um dos sinais mais claros da influência crescente da Petrobras veio em junho, quando a Braskem escolheu Magda Chambriard, presidente da estatal, para comandar seu conselho de administração, no lugar de Héctor Núñez, executivo ligado à Novonor.

O que pode acontecer nas próximas semanas

Segundo relato do jornalista Lauro Jardim, em coluna no jornal O Globo, a negociação precisa ser fechada em no máximo três semanas. Apesar da tensão nas reuniões, o cenário mais provável, segundo fontes que acompanham as tratativas, é que a Braskem obtenha aval para uma recuperação extrajudicial e ganhe mais 90 dias para fechar acordo — evitando, ao menos por ora, a via judicial plena.

"Hoje, a situação é a seguinte: os bancos estão mais favoráveis ao que está sendo proposto, mas sozinhos não alcançam o percentual de um terço do total da dívida para que o acordo seja assinado"
, descreveu a coluna.

Segundo o Valor Econômico, a Braskem mantém apoio de investidores que adquiriram títulos de dívida na emissão original, além de grandes bancos financiadores e, potencialmente, de debenturistas — um bloco relevante, mas ainda insuficiente para atingir o terço mínimo exigido para validar uma reestruturação extrajudicial.

Origem do problema: petroquímica em crise global e passivo de Alagoas

O processo de reestruturação começou oficialmente em setembro de 2025, quando a companhia contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar alternativas de reorganização de capital. A crise da Braskem combina três fatores: uma desaceleração prolongada da indústria petroquímica global, os repetidos esforços da Novonor para se desfazer de sua participação e passivos crescentes ligados ao desastre da mina de sal em Alagoas, que custou à empresa a perda do grau de investimento (Bloomberg Línea). A subsidiária mexicana Braskem Idesa, controlada em conjunto com a mexicana Idesa, soma-se ao quadro: a unidade tenta renegociar contratos com a estatal Pemex depois de deixar de honrar pagamentos de dívida.

Entre as alternativas ainda em discussão está um financiamento do tipo DIP (Debtor-in-Possession), modalidade típica de processos de recuperação, que poderia converter parte da dívida em participação acionária — cenário que diluiria fortemente os atuais controladores, IG4 Capital e Petrobras.

Com o relógio da tutela cautelar correndo e sem sinal de acordo unânime, o desfecho da negociação deve definir não só o futuro imediato da maior petroquímica da América Latina, mas o grau de exposição da Petrobras a um passivo que já se aproxima de R$ 50 bilhões.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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