Caso Master: Alcolumbre anuncia ação judicial após mensagens com Vorcaro
Presidente do Senado reage a diálogos extraídos pela PF do celular do ex-dono do Banco Master, acusa a Veja de sensacionalismo e diz que vai à Justiça
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- A revista Veja publicou mensagens, extraídas pela PF do celular de Daniel Vorcaro, que mostram amizade próxima entre ele e Davi Alcolumbre.
- Em nota, a Presidência do Senado afirma que as conversas são pessoais, "não indicam ilegalidade alguma", e anuncia medidas judiciais.
- O Banco Central afirmou à Folha que não houve a reunião entre Galípolo e Alcolumbre mencionada nos diálogos.
- Por que isso importa: Alcolumbre é quem decide sobre a instalação da CPI do Master, que ele ainda não instalou
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), reagiu nesta quinta-feira (24) à divulgação de mensagens que mostram uma relação de intimidade entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Em nota assinada pela assessoria de imprensa da Presidência do Senado, Alcolumbre afirma que as conversas têm teor pessoal, envolvem terceiros e "não indicam ilegalidade alguma".
Os diálogos fazem parte do material que a Polícia Federal extraiu do celular de Vorcaro. A revista Veja revelou o conteúdo, e a Folha de S.Paulo confirmou as informações. Vorcaro é investigado por corrupção de agentes públicos e por fraudes financeiras bilionárias.
O que diz a nota da Presidência do Senado
A nota chama a reportagem de "mais um injusto ataque ao Presidente do Congresso Nacional". O texto atribui a publicação a um "sensacionalismo barato, movido por interesses ilegítimos". Também acusa a revista de não ter checado as informações e de não ter ouvido Alcolumbre antes de publicar.
O texto afirma ainda que Alcolumbre sabe "de onde partiram essas falsas acusações e quais interesses estão por trás dessa ofensiva". A nota, porém, não identifica quem seriam os responsáveis nem quais seriam esses interesses.
A nota anuncia medidas judiciais para reparação de danos e para a "reposição da verdade". O texto não informa quais ações serão apresentadas nem contra quem. Segundo a nota, Alcolumbre irá "até as últimas consequências, dentro da lei".
"Se fazem isso com um chefe de Poder, é de se imaginar o que estão a fazer com outros indivíduos e instituições" — nota da Presidência do Senado
As mensagens trocadas após a eleição no Senado
Em 1º de fevereiro de 2025, data em que Alcolumbre foi eleito para comandar o Senado, Vorcaro o parabenizou, chamou-o de amigo e desejou os "melhores anos" e sucesso na "empreitada". Segundo o Metrópoles, Alcolumbre respondeu no dia seguinte: "Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!".
Em outra mensagem, Alcolumbre escreveu: "Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!". Vorcaro respondeu: "E eu seu [irmão]. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer", seguido de emojis de coração. A data dessa segunda troca de mensagens está em verificação: a Folha a situa no fim de março de 2025, enquanto outros veículos a colocam no mesmo dia da eleição.
Nenhuma das mensagens divulgadas mostra pedido ou oferta de vantagem. Elas mostram uma amizade declarada entre o chefe do Poder Legislativo e um banqueiro hoje investigado.
O grupo "Macallan" e o "pacto com Davi"
O nome de Alcolumbre também aparece em mensagens de outubro de 2023. Vorcaro, o ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria, e outros interlocutores conversavam sobre festas num grupo chamado "Macallan", em referência ao uísque. Alcolumbre não aparece como participante do grupo. Ele é mencionado pelos outros.
Foi Faria quem escreveu que "o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina", depois que Vorcaro afirmou que "aquela de 3 metros" estaria presente, numa possível referência a mulheres chamadas para as festas. Vorcaro respondeu "Kkkkkk. Bonde do tigrão". Em seguida, Faria acrescentou: "Davi falou q está com dança nova".
Em outra conversa, sobre um evento paralelo a um fórum jurídico em Londres, Faria escreveu: "Daquele jeito da. Fazemos pros caras e ficamos de boa. E depois vamos pra um menor. Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas 4 lá". Com a concordância de Vorcaro, completou: "E fazemos um pacto com Davi". Na época, Alcolumbre presidia a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e foi a Londres para participar de uma mesa de debates do evento.
A conversa também menciona um "careca", sem citar ninguém pelo nome. Segundo a Folha, diálogos anteriores mostram que Vorcaro e Faria usavam esse apelido para se referir ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, que também foi a Londres para o fórum. A presença da expressão na conversa não esclarece se Alcolumbre participou da combinação mencionada por Faria.
Faria contestou a interpretação. Em nota à Folha, ele disse que a conversa tratava da reserva de quatro suítes para uma viagem a Londres com outros quatro empresários, que avaliavam uma possível participação minoritária no Queens Park Rangers, clube da segunda divisão inglesa, negócio que não avançou. Segundo Faria, o assunto não tem relação com Alcolumbre, que "em nenhum momento foi cogitado para essa viagem".
Alcolumbre, Vorcaro e a fonte de uma jornalista
A Veja também publicou uma sequência de mensagens de janeiro de 2025. Em 3 de janeiro, Vorcaro escreveu a Alcolumbre sobre uma repórter e afirmou: "Amanhã vamos saber de onde veio o tiro". O senador respondeu com um anexo. No dia seguinte, enviou outro arquivo e depois perguntou por novidades.
Em 6 de janeiro, depois de Alcolumbre enviar mais um anexo, Vorcaro respondeu: "Diretor tá relutante passar fonte mas eu tô em cima. Vou conseguir". A Veja afirma que a sequência mostra o presidente do Congresso recorrendo ao banqueiro para tentar identificar uma fonte jornalística. Essa é a interpretação da revista. O material divulgado não permite saber se a fonte foi descoberta nem quem era o "diretor" citado por Vorcaro. A nota da Presidência do Senado não trata desse episódio especificamente.
Hugo Motta, Galípolo e a resposta do Banco Central
As mensagens também envolvem o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Em julho de 2025, o Banco Central vetou a venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). Nesse período, Vorcaro disse a Motta que havia tentado contato com Alcolumbre, mas que o senador não tinha informações sobre o andamento da negociação.
Motta respondeu que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, havia combinado de ir à casa de Alcolumbre depois de uma reunião: "Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião". E completou: "Eu tava decolando quando o Davi me ligou para dizer isso".
O Banco Central nega o encontro. À Folha, o BC disse que não houve reunião entre Galípolo e Alcolumbre em 17 de julho de 2025. A Folha procurou a assessoria de Hugo Motta, que não respondeu. A mensagem mostra apenas o que Motta relatou a Vorcaro. Ela não prova que o encontro ocorreu nem qual seria o assunto.
O pano de fundo: a CPI do Master
As mensagens vieram a público dois dias depois de uma decisão do STF favorável a Alcolumbre. Na terça-feira (22), o ministro Cristiano Zanin negou o pedido de liminar para obrigar o Senado a instalar a CPI do caso Master, por entender que não ficou comprovada omissão de Alcolumbre. A decisão é provisória.
O requerimento de CPI foi protocolado em 9 de março e prevê investigar as relações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com Vorcaro. Segundo o autor do pedido, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o requerimento tem 41 assinaturas, acima das 27 necessárias. Vieira chamou a decisão de "decepção" e disse que vai juntar mais informações e pedir que Zanin reveja seu entendimento.
Análise do Painel: nada no material divulgado, até aqui, aponta crime cometido por Alcolumbre. Ele não foi alvo de operação relacionada ao banco ou a Vorcaro. A questão que se impõe é outra, e é política: a pessoa que decide se o Senado vai investigar o caso Master se declarou "irmão pra vida toda" do principal investigado. Uma coisa não prova a outra. Mas o leitor tem o direito de saber das duas ao mesmo tempo.
A nota de Alcolumbre promete revelar "de onde partiram" as acusações e processar os responsáveis. Até agora, não disse quem são. Enquanto isso, o requerimento com 41 assinaturas segue na gaveta, e a decisão de tirá-lo de lá continua com ele.
Versão em áudio disponível no topo do post.