Centrão, de moderador da Constituinte a fiador do poder: como o bloco se tornou o coração do Congresso
De coadjuvante da redemocratização a protagonista da política nacional, Centrão domina a Câmara, dita o ritmo das emendas e impõe sua lógica a qualquer governo — sem precisar assumir lado

O termo Centrão nasceu no processo de redemocratização do Brasil, em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte. Naquele momento, o grupo reunia parlamentares de perfil conservador e moderado que buscavam frear propostas progressistas na nova Constituição. Composto por partidos como PFL, PDS, PTB e setores do PMDB, o bloco atuava com coesão ideológica. Era um Centrão com rosto e discurso.
Passadas quase quatro décadas, o nome sobreviveu — mas a natureza mudou. O Centrão de hoje não é um grupo ideológico: é uma coalizão pragmática, que se articula com o governo que estiver no poder, desde que tenha acesso a verbas, cargos e influência no Orçamento.
A ascensão de Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara dos Deputados em 2025 consolida essa transformação. Aos 35 anos, Motta representa o novo perfil do Centrão: discreto, técnico, eficaz — e extremamente poderoso. Sob sua liderança, o bloco controla a pauta da Câmara, os acordos legislativos e a liberação das emendas que irrigam as bases eleitorais dos deputados.
Hoje, o Centrão não apenas governa junto — ele impõe as regras do jogo. Negocia a cada votação, mas sem se comprometer com projetos de governo. Estava com Lula, esteve com Bolsonaro, com Temer, com Dilma, com FHC. Está sempre com quem precisa governar — e com quem garante retorno político.
Se no passado o Centrão foi importante para equilibrar a Constituinte, hoje ele é o fiador da governabilidade, mas sem se submeter a ela. Uma força que não se assume como base, mas que nenhum governo consegue ignorar.
O Centrão continua sendo o centro — mas agora, o centro do poder.
Por Elias Tavares - Cientista político, especialista em comunicação eleitoral