Dark Horse e o Master: como Flávio negociou R$ 134 mi com Vorcaro
Mensagens de WhatsApp, comprovante bancário e cronograma de pagamentos revelam negociação direta entre o pré-candidato à presidência e o banqueiro preso por fraude de R$ 47 bilhões
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- Mensagens obtidas pelo Intercept Brasil mostram que Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro o financiamento de R$ 134 milhões para o filme Dark Horse
- Pelo menos R$ 61 milhões já teriam sido transferidos via fundo sediado no Texas, controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro
- Flávio enviou áudio a Vorcaro cobrando pagamentos enquanto as filmagens ocorriam — um dia antes de o banqueiro ser preso tentando fugir do país
- A produtora do filme no Brasil recebeu R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo em contrato de Wi-Fi público sob investigação do MP
- Por que isso importa: a revelação transforma o caso Master de escândalo financeiro em potencial bomba eleitoral — com o pré-candidato da extrema-direita no centro da cadeia de dinheiro
"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!" A mensagem foi enviada via WhatsApp em 16 de novembro de 2025. Quem escreveu foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O destinatário era Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. No dia seguinte, Vorcaro foi preso enquanto tentava deixar o país. No dia subsequente, o banco foi liquidado pelo Banco Central. Segundo investigação publicada nesta quarta-feira (13/5) pelo Intercept Brasil, a mensagem faz parte de um rastro de documentos, áudios e comprovantes que ligam o hoje pré-candidato à Presidência da República a um esquema de financiamento de R$ 134 milhões para a produção do filme "Dark Horse" — cinebiografia de Jair Bolsonaro com estreia prevista para 11 de setembro de 2026, semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais.
A negociação: de dezembro de 2024 ao áudio de cobrança
Segundo as mensagens obtidas pelo Intercept, o relacionamento entre Flávio e Vorcaro para viabilizar o filme começa a ser registrado em dezembro de 2024. No dia 8 daquele mês, o empresário Thiago Miranda — então CEO do Portal Leo Dias — organizou um encontro entre o senador e o banqueiro em Brasília. Na mensagem confirmando o encontro, Miranda disse a Vorcaro que Flávio queria tratar do "filme do presidente e do SBT $$", acrescentando: "Flavio está ciente de tudo."
A reunião estava marcada para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro. Registros do canal do Senado no YouTube mostram que, por volta desse horário, Flávio recebe um telefonema durante sessão da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania), se levanta e sai da sala — voltando a se sentar poucos minutos depois das 18h. Menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, o deputado Mario Frias (PL-SP) — roteirista do filme e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro — enviou um áudio a Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto.
Nos meses seguintes, as mensagens mostram pressão crescente para que os contratos fossem assinados e os aportes iniciados. Em 20 de janeiro de 2025, Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura em que um número atribuído a Flávio pedia que o jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo.
Ouça o áudio CLICANDO AQUI
O dinheiro: R$ 61 milhões via fundo no Texas e aliados de Eduardo
Em 14 de fevereiro de 2025, o pastor Fabiano Zettel — apontado pelas mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do aporte — encaminhou a Vorcaro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o fundo ligado à produção do filme. A remetente era a Entre Investimentos e Participações.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados Unidos, tendo como agente legal o escritório de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Os registros apontam o corretor de imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário e Paulo Calixto como membro e administrador — ambos vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo fundo.
No total, as mensagens indicam que Vorcaro se comprometeu a repassar 24 milhões de dólares — equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na época. Em agosto de 2025, Miranda enviou ao banqueiro uma tabela intitulada "Funding Schedule Havengate Dev Fund", segundo a qual 10,6 milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9 milhões de dólares. Vorcaro respondeu: "segunda fazemos duas." Não há evidências nas mensagens de que os outros oito pagamentos previstos tenham sido realizados.
"Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim." — Flávio Bolsonaro, em áudio enviado a Daniel Vorcaro, setembro de 2025
O áudio de setembro: Flávio cobra Vorcaro nas filmagens
Em 8 de setembro de 2025 — alguns dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pela trama golpista —, Flávio enviou um áudio diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de paralisação da produção do filme. Na gravação, o senador expressou preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais internacionais, citando o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh como nomes que não poderiam receber "calote". "Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo", declarou Flávio.
Cinco dias antes dessas mensagens, o BRB havia anunciado que o Banco Central reprovara a venda do Master. A pressão financeira sobre Vorcaro era crescente — e as mensagens mostram que o banqueiro priorizava o filme mesmo em meio à crise institucional que cercava sua instituição.
Em outubro, as cobranças se intensificaram novamente. Flávio informou que as filmagens já estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado "no limite". O banqueiro o tranquilizou: "Deixa comigo."
Em novembro, dias antes da prisão de Vorcaro, o senador enviou ao banqueiro um vídeo com mensagem reveladora: "Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc." Vorcaro respondeu: "Ficou perfeito."
"É mentira": a negação de manhã e o rastro à tarde
Na manhã desta quarta-feira, ao ser questionado presencialmente pelo Intercept nas proximidades do STF — onde havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente da corte —, Flávio respondeu com uma única frase ao ser perguntado sobre o financiamento de Vorcaro ao filme: "De onde você tirou essa informação? É mentira." Em seguida, deu uma gargalhada e se retirou.
A negação é coerente com a postura pública do senador desde que o escândalo do Master se tornou um problema político para a extrema-direita. Quando foi noticiado, em março de 2026, que o cunhado de Vorcaro — o pastor Fabiano Zettel — havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN Brasil que isso aconteceu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive". "Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita", afirmou.
As mensagens obtidas pelo Intercept contradizem diretamente essa versão.
A produtora, os R$ 108 milhões e o fio que liga tudo
O caso Dark Horse tem uma segunda camada que também está sob investigação. Karina Ferreira da Gama, produtora-executiva do filme no Brasil, é a única sócia da empresa GoUp Entertainment, responsável pela produção do longa. Mesmo sem experiência prévia no cinema, ela é apontada como responsável pela produção-executiva da obra. Nos últimos anos, empresas ligadas a ela receberam expressivos recursos públicos.
Em 2025, o Instituto Conhecer Brasil — do qual Karina também é dirigente — recebeu R$ 2 milhões em emendas Pix do deputado Mário Frias, o roteirista do filme. E há mais: investigações apontam a suspeita de que emendas parlamentares — especialmente as chamadas emendas Pix — possam ter sido utilizadas direta ou indiretamente para financiar a produção. O ministro Flávio Dino determinou que deputados prestassem esclarecimentos após representação da deputada Tabata Amaral. Entre os parlamentares citados estão Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollonio.
A GoUp Entertainment está sob investigação do Ministério Público desde março de 2026, após questionamentos sobre a origem do dinheiro que custeou a superprodução. Seguem abertos pedidos de investigação por órgãos públicos para averiguar se o filme foi financiado com lavagem de dinheiro.
"Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc." — Flávio Bolsonaro, em mensagem a Daniel Vorcaro, 7 de novembro de 2025 — dez dias antes da prisão do banqueiro
O que o Dark Horse revela além do filme
O filme Dark Horse foi integralmente gravado em inglês, com o objetivo de alcançar um público internacional. As filmagens ocorreram de forma sigilosa — com confisco de celulares e supervisão de segurança rigorosa. Ao menos 14 figurantes recorreram à Justiça alegando condições de trabalho humilhantes, atraso no pagamento, comida estragada e agressões físicas. O Sindicato dos Artistas de São Paulo (Sated-SP) acionou o Ministério do Trabalho.
O ator Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do filme para 11 de setembro de 2026 — poucas semanas antes das eleições presidenciais que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme não confirma data de lançamento no Brasil.
O cronograma é parte central do projeto político: lançar uma superprodução heroica sobre Jair Bolsonaro semanas antes do primeiro turno, em circuito amplo, com apelo evangélico e alcance internacional. O problema é que a investigação do Intercept publicada nesta quarta sugere que o dinheiro para financiar essa peça eleitoral viria de um homem que está preso por ter criado um rombo de R$ 47 bilhões no sistema financeiro brasileiro.
Nossa análise: um escândalo com três dimensões
A reportagem do Intercept Brasil não é apenas mais uma denúncia contra a família Bolsonaro. Ela opera em três dimensões simultaneamente — e cada uma delas tem potencial de explodir em contexto eleitoral.
A primeira é criminal: há evidências documentais de transferências internacionais milionárias ligando um pré-candidato a um banqueiro preso por fraude. Se os valores transitaram por esquemas de lavagem — o que está sendo investigado —, a candidatura de Flávio pode ser inviabilizada antes mesmo de ser formalizada.
A segunda é moral: Flávio passara meses negando publicamente qualquer vínculo com o Master. As mensagens mostram o contrário — não uma relação periférica ou indireta, mas cobranças pessoais, áudios, convites para jantar com atores americanos. O senador estava dentro do esquema, não nas bordas.
A terceira é eleitoral: o filme Dark Horse estava programado para ser o maior instrumento de propaganda da campanha da extrema-direita. Com a origem do seu financiamento sob investigação, com a produtora na mira do MP e com o principal financiador preso, o projeto pode se tornar — ao contrário da intenção original — o maior fardo do candidato que ele tentava glorificar.
Flávio Bolsonaro entrou em 2026 como o herdeiro político do pai. Agora carrega, além do sobrenome, a conta do banco que quebrou.
Versão em áudio disponível no topo do post.