Desabamento no Acre expõe falhas em ponte de R$ 36 milhões do governo estadual
Estrutura construída pelo governo do Acre e entregue há 2 anos e meio colapsou 24h após interdição. Construtora Cidade, responsável pela obra, terá que arcar com reconstrução dentro da garantia de 5 anos
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- Ponte Frei Paolino Baldassari, construída pelo governo do Acre por R$ 36 milhões, desabou parcialmente na noite de 5 de junho de 2026 em Sena Madureira, deixando 4 feridos.
- Obra inaugurada em janeiro de 2024 colapsou apenas 24 horas após ser interditada preventivamente pelo Deracre por risco estrutural causado pelo fenômeno das "terras caídas".
- Construtora Cidade Ltda. é a única responsável técnica pela obra, contratada na modalidade integrada — governo estadual anuncia medidas judiciais para compelir empresa a reconstruir ponte.
- Ministério Público e Polícia Civil investigam causas do desabamento; perícia técnica deve apontar se houve falhas de projeto, execução ou fatores naturais.
- Por que isso importa: Caso expõe vulnerabilidade de obras públicas recentes na Amazônia e levanta debate sobre critérios técnicos em regiões com solo instável.
A Ponte Frei Paolino Baldassari, estrutura de 232 metros construída pelo Governo do Estado do Acre por R$ 36 milhões, desabou parcialmente na noite de sexta-feira, 5 de junho de 2026, em Sena Madureira, no interior do estado. O colapso, que atingiu 60% da estrutura, deixou quatro pessoas feridas — duas em estado grave — e ocorreu apenas 24 horas após a interdição preventiva da travessia.
Entre as vítimas está o juiz aposentado Edinaldo Muniz, 54 anos, que realizava transmissões ao vivo nas redes sociais sobre a situação da ponte pouco antes do desabamento. Os feridos foram socorridos e transferidos para Rio Branco, capital do estado, onde recebem atendimento médico.
A cronologia do incidente revela uma tragédia anunciada: na quinta-feira, 4 de junho, o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre) interditou a ponte após vistoria técnica do Corpo de Bombeiros identificar risco iminente de colapso causado pelo fenômeno das "terras caídas" — erosão e desmoronamento das margens dos rios, comum na região amazônica.
Responsabilidade é da construtora, afirma governo do Acre
A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) divulgou nota técnica esclarecendo que a Construtora Cidade Ltda. é a única responsável pela obra, contratada por meio do Contrato Deracre nº 011/2022 na modalidade integrada. Nesse tipo de contratação, a empresa assumiu integralmente o projeto básico, projeto executivo e execução da ponte, sem participação técnica do Deracre ou do governo estadual na concepção da estrutura.
O recebimento definitivo da obra ocorreu em 19 de janeiro de 2024 — ou seja, a ponte estava dentro do prazo legal de garantia de 5 anos previsto no artigo 618 do Código Civil. "A empresa responde pela solidez e segurança da obra, o que a mantém sujeita às responsabilidades decorrentes, inclusive reparação de todo e qualquer dano", afirma a nota oficial do governo.
"A Procuradoria-Geral do Estado adotará, com urgência, as medidas judiciais cabíveis, incluindo o ajuizamento de tutela antecipada para compelir a empresa a reparar, reconstruir ou adotar solução substitutiva para a travessia, às suas expensas."
A PGE estuda ainda requerer bloqueio cautelar de bens no valor integral do contrato, com possibilidade de substituição por seguro-fiança para preservar a capacidade operacional da empresa para execução imediata das obras necessárias.
Investigações apuram causas do colapso
Três frentes de investigação foram abertas para apurar as causas do desabamento e eventuais responsabilidades civis e criminais:
Ministério Público do Acre (MPAC): A Promotoria de Justiça Cível e Criminal de Sena Madureira instaurou procedimento investigatório e acionou o Núcleo de Apoio Técnico (NAT) para realizar perícias especializadas no local. O MPAC determinou a requisição de documentos, vistorias técnicas e atuação integrada das áreas criminal e de defesa do patrimônio público.
Polícia Civil: O delegado-geral Pedro Paulo Buzolin informou que peritos em engenharia foram deslocados para Sena Madureira para realizar análise técnica aprofundada das possíveis causas do colapso. Um inquérito foi instaurado com prazo de 30 dias para conclusão, durante o qual serão analisados projetos, laudos técnicos e documentos da obra.
Deracre: O órgão notificou formalmente a Construtora Cidade para que se manifeste sobre a situação e apresente medidas de emergência.
Obra foi sonho antigo de Sena Madureira
A Ponte Frei Paolino Baldassari liga o Centro ao Segundo Distrito de Sena Madureira e representa uma demanda histórica da população local. A estrutura, que possui duas pistas para veículos e calçadas para pedestres, demorou quase dois anos para ser construída e foi inaugurada em cerimônia oficial pelo então governador Gladson Cameli e pela vice-governadora Mailza Assis.
O nome da ponte homenageia Frei Paolino Baldassari (1929-2017), padre capuchinho italiano que chegou ao Acre em 1954 e atuou por décadas em Brasiléia e Sena Madureira. Em 2017, a prefeitura instituiu o dia 8 de abril — data da morte do religioso — como feriado municipal.
Fenômeno das "terras caídas" é desafio na Amazônia
Uma das hipóteses técnicas para o desabamento envolve o fenômeno geológico das "terras caídas", caracterizado pelo colapso repentino das margens dos rios amazônicos devido à erosão e à instabilidade do solo. Esse processo natural é agravado por fatores como chuvas intensas, variação do nível dos rios e características geotécnicas específicas da região.
No caso da ponte de Sena Madureira, o problema afetou especificamente as margens do Rio Iaco, onde a estrutura está assentada. O relatório técnico do Corpo de Bombeiros, que embasou a interdição preventiva, apontou que o avanço do fenômeno comprometeu a estabilidade dos alicerces da ponte.
Especialistas em geotecnia alertam que obras de infraestrutura na Amazônia exigem estudos de solo mais rigorosos e soluções de engenharia adaptadas às particularidades da região, onde o fenômeno das terras caídas é recorrente e imprevisível.
Governadora coordena respostas de emergência
A atual governadora do Acre, Mailza Assis, que assumiu o cargo em abril de 2026 após a renúncia de Gladson Cameli, coordenou pessoalmente as ações de assistência às vítimas e mobilização do aparato estatal. Em declaração pública, a governadora afirmou que o estado está "empenhado em garantir que todos recebam o cuidado necessário" e que as investigações serão conduzidas com rigor técnico.
O governo estadual informou que o tráfego na região está sendo feito através de um pontilhão metálico provisório, mas não há previsão para liberação da ponte principal ou início das obras de reconstrução.
Caso testa marco de responsabilidade em obras públicas
O desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari coloca em teste o marco legal de responsabilidade técnica em obras públicas no Brasil. Ao adotar a modalidade de contratação integrada, o governo do Acre transferiu integralmente à construtora as decisões técnicas sobre projeto e execução — estratégia que agora será judicialmente contestada.
A questão central que as investigações precisarão responder é: o colapso foi causado por falhas de projeto/execução (responsabilidade da construtora) ou por fatores naturais imprevisíveis (caso fortuito)?
Enquanto as apurações técnicas avançam, a população de Sena Madureira enfrenta o isolamento parcial e a incerteza sobre quando terá novamente uma travessia segura sobre o Rio Iaco. A resposta — e a reconstrução — devem demorar mais do que os dois anos que a ponte original levou para cair.
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