Dhonatan Pagani: vereador que sumiu de Vilhena agora quer ser deputado federal
Ex-vereador de Vilhena se licenciou em 2024, mudou-se para Goiânia e anunciou desistência. Meses depois, volta como candidato a deputado federal
📋 Em resumo ▾
- Dhonatan Pagani foi eleito vereador em Vilhena em 2020 com 1.878 votos, vendendo a imagem de renovação política.
- Em 2024, acumulou faltas na Câmara e pediu licença por tempo indeterminado, mudando-se para Goiânia.
- Seu irmão foi nomeado secretário parlamentar em Brasília semanas após o início da licença do vereador.
- Após anunciar desistência da política em maio de 2026, Pagani lançou candidatura a deputado federal em julho.
- Por que isso importa: A cronologia levanta questionamentos legítimos sobre a natureza do mandato eletivo e os bastidores da articulação política regional
Dhonatan Pagani voltou à cena política de Vilhena, agora como candidato a deputado federal. Antes de absorver qualquer discurso sobre "representatividade" ou "nova política", o eleitor precisa fazer uma pergunta simples: voltou de onde e por quê? A trajetória recente do agora candidato pelo Podemos contrasta com a narrativa de compromisso permanente com a cidade que volta a ser apresentada nas redes sociais.
O desaparecimento do mandato eletivo
Pagani foi eleito vereador em 2020 com 1.878 votos. Jovem e com boa presença digital, vendeu a imagem de renovação. Hoje, aos 30 anos, pede votos dizendo estar "mais preparado, mais forte e mais maduro". O problema é que maturidade política não se mede pelo texto de um vídeo de campanha, mas pelo que se faz quando já se recebeu o voto.
Em 2024, ainda no mandato, ele começou a desaparecer da rotina legislativa. Registros da época apontam que Pagani faltou a seis sessões distribuídas em três meses, ficando quase 50 dias sem aparecer no Legislativo. Quando reapareceu, não explicou de maneira objetiva aos eleitores o motivo da longa ausência.
Poucos dias depois, em 14 de maio de 2024, formalizou pedido de licença por tempo indeterminado. Em vídeo, afirmou que precisava "cuidar da minha vida", sem revelar o problema que o levava a se afastar. Naquele momento, já circulavam informações sobre suas longas permanências fora de Vilhena e viagens a Goiânia.
"Mandato eletivo não é emprego particular do qual alguém se afasta quando perde o interesse e retorna quando julga conveniente."
É preciso precisão factual: Pagani não renunciou formalmente ao cargo. Licenciou-se. A própria Câmara registra o pedido em 14 de maio e o comunicado de retorno em 10 de setembro de 2024. Mas, politicamente, a dúvida permanece. O mandato era prioridade ou havia deixado de ser? O eleitor não elege apenas um nome; entrega representação.
A cronologia familiar e os bastidores de Brasília
Enquanto Pagani se afastava, uma coincidência política chama a atenção. Em 24 de junho de 2024, apenas 41 dias após o pedido de licença do vereador, Flávio Júnior Pagani Vieira, irmão de Dhonatan, passou a ocupar cargo de secretário parlamentar no gabinete do deputado federal Fernando Máximo, em Brasília.
Os registros oficiais da Câmara mostram que Flávio passou por diferentes níveis do cargo e continua, em 2026, lotado no gabinete de Máximo, com salário de R$ 20.217,48. A relação familiar foi confirmada publicamente pelo próprio Dhonatan. Quando surgiram questionamentos sobre a efetividade do trabalho do irmão, Pagani saiu em sua defesa, afirmando que Flávio trabalhava nas agendas de Máximo no Cone Sul.
A acusação de irregularidade foi negada por ele e não deve ser tratada como fato comprovado. Mas a nomeação em si é um fato. E a proximidade política também. Hoje, Fernando Máximo é justamente um dos principais apoiadores da candidatura de Dhonatan Pagani à Câmara Federal.
Não há prova de que o afastamento do mandato tenha sido condicionado à nomeação do irmão, e seria irresponsável afirmar isso. Mas a cronologia existe e o eleitor tem todo o direito de avaliá-la politicamente.
A reviravolta de 61 dias
O capítulo mais recente dessa trajetória adiciona uma camada de perplexidade. Em 21 de maio de 2026, veículos de imprensa registraram que Pagani, morando em Goiânia, havia anunciado que não pretendia mais retornar à política.
Guarde essa data: 21 de maio.
Apenas 61 dias depois, em 21 de julho de 2026, Dhonatan Pagani já estava novamente em Vilhena, anunciando sua candidatura a deputado federal. A velocidade da mudança de postura transforma uma suposta desistência definitiva em uma pausa estratégica de pouco mais de dois meses.
Contexto e antecedentes
A política regional em Rondônia é marcada por articulações que muitas vezes ocorrem nos bastidores, longe dos holofotes da campanha oficial. O caso de Pagani ilustra como o uso de licenças e a realocação de familiares em cargos de confiança podem, intencionalmente ou não, criar uma narrativa de descompromisso com a base eleitoral original.
Ao retornar com o discurso de "renovação" e "maturidade", o candidato pede que o eleitor esqueça o hiato de 2024 e foque apenas no futuro. No entanto, a memória do eleitorado é um ativo político tão valioso quanto o financiamento de campanha.
A volta de Dhonatan Pagani não é apenas um registro de candidatura; é um teste sobre o que o eleitor de Vilhena considera aceitável em termos de responsabilidade com o voto recebido. A política pode perdoar ausências, mas raramente esquece a conveniência dos retornos.
Resta saber se o eleitorado aceitará a narrativa de que 61 dias foram suficientes para transformar uma desistência da política em uma vocação redescoberta para o Congresso Nacional, ou se a cronologia dos fatos falará mais alto que os slogans de campanha.
Versão em áudio disponível no topo do post.